Nada de condenação, apenas misericórdia

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05 Abril 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 5º Domingo da Quaresma, 7 de abril (João 8, 1-11). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O itinerário quaresmal sob o sinal do anúncio da misericórdia de Deus narrada por Jesus experimenta um verdadeiro ápice no trecho do Evangelho deste domingo: o texto do encontro entre Jesus e a mulher apanhada em adultério. Essa página teve um destino muito particular, que atesta o seu caráter “escandaloso”: está ausente nos manuscritos mais antigos, é ignorado pelos Padres latinos até o século IV e não é comentado pelos Padres gregos do primeiro milênio.

Ao término de uma longa e conturbada migração, esse texto foi inserido no Evangelho segundo João, antes do versículo 15 do capítulo 8, em que é relatada uma palavra de Jesus que parece justificar essa colocação: “Vocês julgam segundo a carne, mas eu não julgo ninguém”.

Deve ser dito que o nosso trecho apresenta semelhanças com o Evangelho segundo Lucas, o mais atento ao ensinamento de Jesus sobre a misericórdia, e poderia ser facilmente colocado depois de Lc 21, 37-38: “De dia, Jesus ensinava no Templo. Ao anoitecer, ele saía, e passava a noite no chamado monte das Oliveiras. De manhã cedo, todo o povo ia ao Templo para ouvi-lo”. Mas nós, em obediência ao cânone das Escrituras, lemo-lo onde a redação final o colocou, no contexto de uma discussão sobre a relação entre Lei e pecado.

Enquanto Jesus, sentado no templo, anuncia a Palavra, “os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério”, para “experimentar Jesus”. Muitas vezes, os Evangelhos observam que os adversários de Jesus tentam pô-lo em contradição com a Lei, para poder acusá-lo de blasfêmia. Mas, desta vez, a armadilha não diz respeito a interpretações da Lei, mas sim a uma mulher – ou, melhor, aquela que é “usada” como um caso jurídico – surpreendida em adultério e arrastada à força diante dele por aqueles que vigiam o cumprimento da Torá.

Tendo irrompido entre os ouvintes de Jesus, esses homens especialistas da Lei colocam a mulher no meio de todos e se apressam a declarar: “Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres”. Sua declaração parece irrepreensível, mas, na realidade, é parcial: a Lei, de fato, prevê a pena de morte para ambos os adúlteros (cf. Lv 20, 10 e Dt 22, 22) e atesta a mesma pena, mediante apedrejamento, para um homem e uma mulher casada que cometeram adultério (cf. Dt 22, 23-24). Mas onde está o homem aqui, o adúltero, tão culpável quanto a mulher?

A dureza da pena prevista é explicada pelo fato de que o adultério é uma negação da promessa criacional de Deus e uma grave ferida na aliança estipulada pelo casal humano (cf. Ml 2, 14-16). Eis, portanto, que os zelosos guardiões da Lei, aparentemente irrepreensíveis e considerados pelas pessoas como homens religiosos de autoridade, pela sua visibilidade ostensiva (cf. Mt 23, 5), perguntam a Jesus: “Que dizes tu?”.

Tal pergunta visa a pegá-lo em contradição: se Jesus não confirmar a condenação e não aprovar a execução, pode ser acusado de transgredir a Lei de Deus; se, ao contrário, decidir a favor da Lei, por que então ele acolhe os pecadores e come com eles (cf. Mc 2, 15-16 e par.; Lc 15, 1-2)?

Detenhamo-nos nessa cena. Alguns levaram uma mulher a Jesus para ser condenada. Discípulos e ouvintes estão distantes: aqui só está Jesus diante desses homens religiosos – juízes injustos, inimigos – e, no meio, uma mulher de pé, na infâmia. Não há espaço para considerar a sua história, os seus sentimentos: para os seus acusadores, ela não apenas cometeu o pecado do adultério, ela “é” uma adúltera, totalmente definida pelo seu pecado. Mas Jesus se inclina e começa a escrever no chão: desse modo, ele se inclina diante da mulher que está de pé diante dele! Tudo sem proferir uma palavra, em um grande silêncio...

Mas o que significa o gesto de Jesus? Ele escreve os pecados dos acusadores da mulher, como pensa Jerônimo? Ou escreve frases bíblicas, de acordo com a opinião de alguns exegetas? Ou simplesmente toma tempo para procurar uma resposta fiel à vontade de Deus? Não é fácil interpretar esse gesto: na minha opinião, ele deve ser entendido como uma ação dotada de uma forte carga simbólica. Acho que se deve ver, de um lado, os escribas e os fariseus que recordam a Lei esculpida em tábuas de pedra; de outro, Jesus que, ao escrever na terra, a terra da qual somos feitos nós, filhos e filhas de Adão, o terrestre (cf. Gn 2, 7), indica-nos que a Lei deve estar inscrita na nossa carne, nas nossas vidas marcadas pela fragilidade e pela pecado.

Não é por acaso que Jesus escreve “com o dedo”, assim como a Lei de Moisés foi escrita na pedra “pelo dedo de Deus” (Ex 31, 18; Dt 9, 10) e foi reescrita depois da infidelidade idólatra do bezerro de ouro e a ruptura da aliança (cf. Ex 34, 28).

No entanto, como os acusadores insistem em interrogá-lo, Jesus se levanta e não responde diretamente, mas faz uma afirmação que é também uma pergunta: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Depois, inclina-se de novo e volta a escrever no chão. Mas essa frase de Jesus interroga: quem pode dizer que não tem pecado? Jesus confirma a Lei, segundo a qual a testemunha deve ser a primeira a apedrejar o culpado (cf. Dt 13, 9-10; 17, 7), mas também diz que a testemunha deve ser a primeira sem pecado!

É claro, essa mulher adúltera cometeu um pecado manifesto; mas os seus acusadores não têm pecados ou, na verdade, têm pecados ocultos? E, se têm pecado, com que autoridade lançam as pedras que matam o pecador?

Jesus, ele que era sem pecado, podia atirar uma pedra, mas não o faz. A sua palavra, que não contradiz a Lei e, ao mesmo tempo, confirma a sua práxis de misericórdia, parece eficaz, vai ao coração dos seus acusadores que, “ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos”: quanto mais se avança em idade, mais numerosos são os pecados cometidos; essa consciência deveria impedir a nossa inflexibilidade para com os outros...

Assim, uma única palavra de Jesus, incisiva e autêntica, uma daquelas perguntas que nos fazem ler a nós mesmos em profundidade, impede que esses homens cometam violência em nome da Lei que eles acreditam interpretar com rigor. Só Deus, e, portanto, só Jesus, poderia condenar aquela mulher. Mas Jesus escolhe narrar de outro modo o agir de Deus, pelo qual a vida do pecador transcende o pecado por ele cometido. Jesus, aquele que, como Filho de Deus, narrou Deus humanamente (cf. Jo 1, 18), que foi a exegese do Deus vivo, afirma que, diante do pecador, Deus tem um único sentimento: não a condenação, mas sim o desejo de que se converta e viva (cf. Ez 18, 23; 33, 11).

Somente quando todos se foram é que Jesus se levanta e fica de frente para a mulher, finalmente restituída à sua identidade de ser humano, no face a face com ele. É o fim de um pesadelo, porque os seus apedrejadores se dispersaram e porque quem devia julgá-la agora está de pé, como aquele que absolve. Agora é possível o encontro falado, que se abre com o apelativo que lhe é dirigido por Jesus: “Mulher”, o mesmo reservado para a sua mãe (Jo 2, 4), para a samaritana (Jo 4, 21), para a Madalena (Jo 20, 15).

Dirigindo-se a ela desse modo, Jesus faz com que ela seja ressaltada pelo que é: não uma pecadora, mas uma mulher, restituída à sua dignidade. A ela, Jesus pergunta: “Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou?” E ela, ao responder: “Ninguém, Senhor (Kýrie)”, faz uma grande confissão de fé em Jesus. Aquele que se encontra diante dela é mais do que um simples mestre, “é o Senhor” (Jo 21, 7)!

Jesus então se despede com uma afirmação extraordinária, gratuita e unilateral: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. O texto não está interessado nos sentimentos da mulher, mas revela que, quando ocorreu o encontro entre a santidade de Jesus e o pecado dessa mulher, então “permaneceram somente elas duas, a mísera e a misericórdia” (Agostinho), e a santidade de Jesus destruiu o pecado.

Nisso consiste a gratuidade dessa absolvição: Jesus não condena, mas, com o seu ato de misericórdia previdente, oferece à pecadora a possibilidade de mudar. E preste-se atenção: não está escrito que ela mudou de vida, converteu-se, nem que se tornou discípula de Jesus. Só sabemos que, para que voltasse a viver, Deus a perdoou através de Jesus e a enviou para a liberdade: “Vai rumo a ti mesma e não peques mais”...

Jesus não veio entre nós para julgar e condenar – como ele diria pouco depois: “Eu não julgo ninguém” (Jo 8, 15) –, mas sim para anunciar a misericórdia, para fazer misericórdia executando fiel e pontualmente a justiça de Deus, que é justiça justificante (cf. Rm 3, 21-26). Chamado a escolher entre o castigo pela infração da Lei e a misericórdia, Jesus escolhe a misericórdia sem contradizer a Lei. Esta última é essencial como revelação da vocação humana que Deus nos dirige; mas, uma vez que o pecado infringiu a Lei, a Deus só resta a misericórdia, ensina-nos Jesus. Nada de condenação, somente misericórdia!

De fato, todas as vezes que ele se encontrou com um pecador, ele o libertou dos seus pecados e nunca praticou a justiça punitiva. Proferiu convites à conversão, advertências em vista do juízo, mas nunca castigou ninguém, porque sabia discernir a vontade de Deus que não quer a condenação do pecador, mas faz misericórdia, para que se converta e viva.

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