Que felicidade? Para quando?

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16 Fevereiro 2019

Jeremias, o autor do Salmo 1, e Jesus, em seu Discurso Inaugural, falam de uma felicidade paradoxal: uma felicidade ou bem-aventurança que não está nas riquezas materiais, mas nas escolhas de vida que fazemos, se conformes ou não aos projetos e promessas de Deus.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire , comentando o evangelho do 6º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo C (17 de fevereiro de 2019). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto

Referências Bíblicas:

1ª leitura: «Bendito o homem que confia no Senhor» (Jeremias 17,5-8).
Salmo: Sl. 1 - R/ É feliz quem a Deus se confia!
2ªleitura: «Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé não tem nenhum valor» (1 Coríntios 15,12.16-20)
Evangelho: Discurso inaugural de Jesus: as Bem-aventuranças (Lucas 6,17.20-26)

A montanha

Seja em Lucas seja em Mateus, as Bem-aventuranças estão sempre ligadas à montanha. Por quê? Porque, segundo o Êxodo, Moisés recebeu a Lei na solidão da montanha. Só depois desceu à planície, para comunicá-la ao povo. Em Mateus, Jesus, vendo as multidões, subiu a montanha somente com os discípulos. Já em Lucas, pelo contrário, Jesus desceu à planície para aí encontrar a multidão. Na Bíblia, a montanha é o lugar das manifestações divinas, com certeza por causa da solidão e da proximidade do céu, símbolo da transcendência divina. Nuvens e tempestades… Lucas faz-nos compreender que, agora, esta transcendência faz-se imanência, proximidade. Em Mateus, os discípulos receberam a missão de transmitir a mensagem para o povo. Já em Lucas, mesmo que esta tenha sido endereçada diretamente aos discípulos, a mensagem foi-lhes entregue na presença da multidão. Nos dois casos, é Deus quem fala: até mesmo a palavra de Cristo só chega a nós através dos intermediários. Uma observação, contudo, se impõe: Moisés desceu da montanha empunhando uma Lei, enquanto que, com os evangelistas, esta Lei torna-se uma Boa Nova. Não se trata mais de um conjunto de exigências, mas de um dom. A recompensa que estava prometida à perfeição moral, cede lugar agora à compensação dos males todos que atingem os homens. Teria Deus mudado de ideia? Não, é claro. Mas, primeiro, era preciso que aprendêssemos que somos pecadores e que, por consequência, o amor com o qual Deus nos ama é totalmente gratuito. O «odiaram-me sem motivo» de João 15,25 provoca uma consequência: Deus que nos ama, sem ter motivo nenhum para isso.

A felicidade "agora"

Lucas insiste no «agora». Trata-se do agora, momento de provação; o fim de todos os males é para o futuro. Significa que a alegria anunciada só pode chegar a nós, «agora», através da fé e da esperança. E isto nos permite usar tudo o que temos de suportar como meio para atingir o amor, que é a única Lei que permanece. Assim podemos ser felizes mesmo quando somos atormentados pela fome e pelas lágrimas. A nossa compensação está no futuro, mas a felicidade é imediata. Só que isto não nos parece evidente. Exatamente por isso Jesus faz questão de revelá-lo, repetindo “felizes” ou “bem-aventurados” quatro vezes em Lucas e oito vezes em Mateus. Uma insistência significativa, pois é difícil fazer passar esta Boa Nova. A fé sempre exige que se vá além das aparências. Depositemos nossa fé neste que nos fala, sabendo que ela começa por reconhecer nele a Palavra de Deus. Resulta daí que nada verdadeiramente pode nos fazer mal. Paulo diz que nem a vida nem a morte podem nos separar de Cristo. Ora, fazermo-nos um só com Cristo é fazermo-nos um só com o Ressuscitado. Devemos compreender que podemos sofrer o que há de pior neste mundo sem que sejamos infelizes por causa disso. A verdadeira felicidade se confunde com a certeza de sermos amados, desejados e esperados. Ela deve se conjugar com a paciência. Nossa fé, que obviamente pode muito bem estar presente quando tudo vai bem, estará sendo verificada quando tudo vai mal. Por ela, já estamos na posse do Reino de Deus. Isto não significa que devamos nos entristecer se, no momento, nada temos de sofrer. As nossas alegrias também são imagem e antecipação do Reino, desde que não caiamos na idolatria do que elas nos proporcionam.

A Boa Nova

Jesus nos vem revelar que nem a riqueza nem o sucesso nem o poder nem a celebridade e nem mesmo a saúde podem fazer-nos entrar na Vida. Todos estes bens podem até mesmo provocar em nós comportamentos idolátricos, e devotar-lhes um culto equivale a adorar-nos a nós mesmos. Uma adoração sutil e secreta. Ela se manifesta quando frustramos outro ser humano para obter alguma vantagem, quando alteramos a qualidade da nossa relação com quem quer que seja, para dela tirarmos proveito. Esta qualidade tem o nome de amor. Ela manifesta a presença e o Reino de Deus que é Ele mesmo, amor. O que chega até ao dom da própria vida, para que o outro viva. Jesus viveu este dom, por isso pode nos falar dele. Isto explica a menção em nosso texto da perseguição aos crentes «por causa do Filho do homem». Mesmo se não fazem barulho nas mídias, estas perseguições acontecem em nossos dias. Em geral, as pessoas contentam-se com dar de ombros ao ouvirem a mensagem de Cristo. Eis que chegou o tempo do desprezo, tal como assinala a nossa leitura. Será que temos fé bastante para ficarmos felizes com isso e exultarmos de alegria (versículo 23)? Mas não devemos esquecer que estas palavras de Jesus são uma revelação: ensinam-nos algo que à primeira vista não aparece. Os que sofrem com a pobreza, que têm fome e que choram têm necessidade de alguém que lhes diga não perderem por isso as razões de ser feliz. Mas podemos acaso dizer-lhes isto sem que venhamos em sua ajuda? Jesus mesmo dirigiu-lhes estas palavras somente após ter curado as doenças daquela multidão de toda proveniência, judeus e não judeus. Sua mensagem diz respeito a todos, homens e mulheres: não se trata de nenhuma religião, qualquer que seja ela, mas da nossa adesão ao Filho do homem.

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