O anúncio do Evangelho a toda a criação

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11 Maio 2018

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho da Ascensão do Senhor, 13 de maio (Mc 16, 15-20). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O trecho evangélico que a Igreja nos propõe para a solenidade da Ascensão do Senhor é tirado da conclusão adicionada mais tarde ao Evangelho segundo Marcos, por parte de “escribas cristãos”, que o completaram com um encerramento menos brusco do que a do relato original (cf. Mc 16, 1-8). São versículos que não se encontram nos manuscritos mais antigos e são desconhecidos de muitos Padres da Igreja. Contudo, a Igreja os acolheu como inspirados, isto é, que contêm a palavra de Deus, tanto quanto o resto do evangelho e, de fato, estão em conformidade com as Escrituras (secundum Scripturas: 1Cor 15, 3.4); são até uma síntese dos finais dos outros evangelhos (especialmente dos sinóticos), que relatam os eventos referentes ao Jesus ressuscitado, que ascendeu ao céu e foi glorificado pelo Pai.

De acordo com essa conclusão, Jesus aparece ao grupo dos Doze sem Judas, aos Onze, portanto, enquanto estão à mesa. Aqueles que, chamados por Jesus ao seu seguimento, estiveram envolvidos na sua vida e haviam aprendido dele um ensinamento de autoridade por pelo menos três anos, mas que, na hora da paixão, haviam fugido e o abandonaram (cf. Mc 14, 50), na aurora pascal, tinham ouvido de Maria de Magdala o anúncio da ressurreição de Jesus (cf. Mc 16, 9-10), mas “não acreditaram” nela (epístesan: Mc 16, 11); os dois discípulos de Emaús também tinham contado como o Ressuscitado havia se manifestado na estrada “com outra aparência” (cf. Mc 16, 12-13), “mas não acreditaram (epísteusan) nem mesmo neles” (v. 13).

Por isso, quando Jesus finalmente “apareceu aos Onze discípulos enquanto estavam comendo. Jesus os repreendeu por causa da falta de fé (apistía) e pela dureza de coração (sklerokardía), porque não tinham acreditado (epísteusan) naqueles que o tinham visto ressuscitado” (Mc 16, 14).

Essa é a verdade que deve ser dita e foi dita na Igreja (este texto é a prova disso) quando o triunfalismo e a adulação das autoridades ainda não eram dominantes. Os Onze estavam tomados pela dúvida profunda, estavam incrédulos após a morte de Jesus, assim como tinham estado durante seu seguimento, quando ele havia sido obrigado a se voltar para a sua comunidade, dizendo: “Vocês ainda não entendem e nem compreendem? Estão com o coração endurecido? Vocês têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem?” (Mc 8, 17-18). Os Onze, na verdade, ainda estão na situação de incredulidade que Jesus havia repreendido aos seus opositores, escribas e fariseus (cf. Mc 10, 5), e aos habitantes do seu vilarejo de Nazaré (cf. Mc 6, 6). Uma situação, portanto, desesperadora, a das futuras testemunhas, assaltadas pela incredulidade! Como poderão anunciar a boa notícia, se nem eles acreditam?

Nesse encerramento – preste-se atenção – depois das repreensões, Jesus não mostra sinais para levar seus discípulos a acreditar, como a perfuração das mãos e dos pés (cf. Lc 24, 39-40) ou a do lado (cf. Jo 20, 20.27), mas, apesar da persistência dessa pouca fé, ele envia justamente eles para uma missão sem fronteiras, verdadeiramente universal. Uma missão cósmica, até se poderia dizer: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura”.

Onde quer que vão, em todas as terras e em todas as culturas, os discípulos de Jesus devem anunciar a boa notícia, proclamar o Evangelho a toda a criação. Desse modo, Jesus certamente indica a orientação universal da pregação, mas também esclarece que a boa notícia diz respeito a toda criatura, animada e inanimada, portanto também aos animais, aos anjos e aos demônios. Não há mais as barreiras do povo eleito de Israel, não há mais as fronteiras da terra santa: diante daqueles pobres discípulos hesitantes, há toda a criação e toda criatura!

O Evangelho não pode ser contido nem em um povo, nem em uma cultura, nem mesmo em um modo religioso de viver fé no Deus único e verdadeiro: os enviados devem deixar para trás terra, família, laços e cultura, para olhar para novas terras, novas culturas, nas quais o simples Evangelho poderá ser semeado e dar frutos abundantes.

O que se pede é uma obra de despojamento bem mais difícil do que a dos simples meios econômicos: trata-se, de fato, abandonar as certezas, os apoios intelectuais e culturais, as estruturas religiosas praticadas até aquele momento e mergulhar entre os povos. Certamente, para fazer isso, é preciso fé no Evangelho, no seu “poder divino” (dýnamis theoû: Rm 1, 16), e, por outro lado, também é necessário deixar de depositar a fé na própria elaboração ou nos próprios projetos culturais. Quanto mais despojados vamos, mais o Evangelho é anunciado com franqueza e, como semente não revestida caída na terra, germina imediatamente e mais facilmente.

Quantos erros cometemos na evangelização, confiando nos nossos meios, nas nossas “ideologias” e, paralelamente, desprezando as culturas dos outros, que muitas vezes mortificamos para impor a nossa! E a esterilidade da semente do Evangelho, especialmente na Ásia, onde existiam culturas que podiam concorrer com a nossa, ocidental, é um sinal evidente do erro cometido. O Evangelho caiu na terra como uma semente, mas, sendo uma semente revestida demais, por nossa causa, não pôde apodrecer nem, consequentemente, germinar.

Eis a tarefa dos cristãos: sem febre “proselitista”, sem tentar ganhar fiéis a todo o custo, percorrendo os mares e terras como os fariseus (cf. Mt 23, 15) e onde quer que se encontrem, que os cristãos anunciem o Evangelho acima de tudo com a vida; depois, se Deus o conceder, com as palavras. São palavras de Francisco de Assis, retomadas pelo Papa Francisco...

Jesus não pede para convencer nem para impor, mas para viver o Evangelho com alegria, porque esse é o testemunho. Hoje, há muitos cristãos que passam de palco em palco “para dar testemunho”, acabando por contar a própria história ou o sucesso de sua comunidade. Devemos apenas corar ao chamar esse comportamento de “testemunho”! Melhor aqueles cristãos cotidianos, às vezes duvidosos, como os Onze, que simples e humildemente tentam, a cada dia, ser cristãos onde se encontram, vivendo o Evangelho e amando a Jesus Cristo acima de tudo e de todos. É desses cristãos e cristãs que precisamos, de discípulos e discípulas, não de militantes!

Certamente, diante do anúncio do Evangelho, é possível “crer” ou “não crer”, aderir ao Senhor Jesus ou rejeitá-lo: para nós, o mistério é grande e não somos capazes de lê-lo completamente... Jesus diz: “Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado”, mas somente ele, o Senhor, pode ver e julgar quem crê e quem não crê; nós, de nossa parte, não podemos nem nos apropriar do seu juízo nem participar dele.

De fato, acreditar em Jesus, aderir a ele, é uma resposta que só pode ser dada pelo coração inescrutável de cada pessoa. Nós devemos aceitar permanecer no limiar do encontro entre o Senhor e o outro, sabendo que o anúncio do Evangelho opera um juízo e pede conversão e fé em Jesus. Continua sendo verdade que o compromisso da fé, sancionado na imersão da morte de Cristo para ressurgir com ele (cf. Rm 6, 1-6), torna os cristãos partícipes das energias da ressurreição, habilitando-os a realizar aqueles sinais que o próprio Jesus operava na sua vida: “sinais” (semeîa), que, em nome de Jesus, significarão o recuo do demônio e das potências do mal, significarão possibilidades de comunicação entre povos e línguas diferentes, significarão saúde e vida plena para os doentes.

Depois desse mandato aos Onze, “o Senhor Jesus foi levado ao céu e sentou-se à direita de Deus”. Essa é a conclusão do Evangelho segundo Marcos: como Elias, o profeta escatológico (cf. 2Re 2, 9-18), e como os homens justos e santos que caminharam com Deus (cf. Gn 5, 24), Jesus foi elevado pelo poder de Deus ao céu, ao lado dele, e se sentou à sua direita como Messias e Senhor profetizado por Davi no Salmo 110.

Jesus ressuscitado está vivo para sempre em Deus; é o Filho que reina com Deus, partícipe do seu poder e da sua glória, porque é vencedor da morte; é o Senhor do cosmos, proclamado como tal por toda criatura à qual foi anunciado; é o Juiz que virá no fim dos tempos.

Os discípulos, não mais incrédulos, mas sempre homens e mulheres frágeis e tentados pela incredulidade, desde então, vão pelo mundo para pregar em todos os lugares, conscientes de que todas as terras podem acolher o Evangelho e podem ser para eles terra de missão: eles não estão sozinhos, mas o Senhor ressuscitado está com eles, age com eles e confirma a palavra do Evangelho com sinais capazes de indicar sua autoridade e verdade.

Entre a ascensão e a parusia final, porém, o Senhor Jesus não está ausente, mas está presente mais do que nunca, como sujeito da missão da Igreja entre os povos. Cabe à Igreja crer e ser sempre evangelizada: então, ela será capaz de evangelizar eficazmente, mostrando com sinais e palavras que Jesus age nela e com ela, oferecendo salvação a toda a humanidade.

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