Jesus, a videira verdadeira

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27 Abril 2018

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 5º Domingo de Páscoa, 29 de abril (Jo 15, 1-8). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No Evangelho segundo João, há palavras de Jesus com as quais infelizmente estamos acostumados e que, portanto, escutamos ou lemos de modo superficial. Na verdade, confesso que essas palavras me parecem loucas, me parecem pretensões absurdas, que um homem equilibrado não pode levantar. Somente quando as leio ou as escuto como palavras do Ressuscitado vivo, do Kýrios, do Senhor no meio de sua Igreja (cf. Jo 20, 19.26), é que me sinto apto a acolhê-las como palavras de verdade e de vida. Mas, então, elas quase me dão vertigem e fazem me sentir inadequado diante da revelação do mistério...

Os trechos joaninos que escutamos no Tempo Pascal e que, acima de tudo, testemunham – como se via no domingo passado – as afirmações de Jesus “Eu sou...” podem nos ferir, podem parecer incompreensíveis... mas são palavras do Senhor!

A página deste domingo é extraída dos chamados “discursos de despedida” (cf. Jo 13, 31-16,33), palavras que o Ressuscitado glorioso e vivo dirige à sua Igreja. Jesus afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor”. Para um judeu religioso, a videira é uma planta familiar, que, junto com o trigo e a oliveira, marca a terra de Israel; é a planta da qual se extrai “o vinho que alegra o coração humano” (Sl 104, 15); é a planta cultivada desde sempre na terra da Palestina, símbolo de uma vida sedentária e de uma cultura atestada, símbolo da vida abundante e alegre.

Justamente a videira havia sido assumida pelos profetas como imagem do povo de Israel, da comunidade do Senhor: videira escolha, arrancada do Egito e transplantada na terra prometida pelo próprio Deus (cf. Sl 80, 9-12), cultivada com cuidado e amor pelo Senhor, que dela espera frutos (cf. Is 5, 4).

Jesus, revelando que ser ele a videira verdadeira (alethiné) – como Jeremias proclama sobre Israel: “Eu te plantei como videira verdadeira (alethiné)” (Jr 2, 21 LXX) –, define-se como o Israel autêntico, plantado por Deus, portanto, pretende representar em si mesmo todo o seu povo, propriedade do Senhor. Ele é a videira verdadeira, e Deus – chamado por Jesus com audácia de “Pai” – é o agricultor, aquele que a cultiva.

Na sua pregação, os profetas haviam se servido várias vezes dessa imagem para falar dos fiéis: Deus é o vinhateiro que ama a sua vinha, mas é frustrado por ela (cf. Is 5, 1-7; Jr 2, 21; 5, 10; 6, 9; 8, 13); Deus é o vinhateiro que chora pela sua vinha, outrora exuberante, mas agora queimada e desolada (cf. Os 10, 1, Ez 15, 1-8); Deus é o vinhateiro invocado em socorro da sua vinha devastada e cortada (cf. Sl 80, 13-17).

Sim, Jesus, o Messias de Israel, é a vinha que recapitula em si toda a história do povo de Deus, assumindo seus fracassos, suas quedas e seus sofrimentos. É, ao mesmo tempo, a testemunha do amor fiel de Deus que, na sua misericórdia inesgotável, renova a aliança com o seu povo.

Jesus é também a vinha que é a sua comunidade, a Igreja, e – como diz Paulo, servindo-se da metáfora do corpo que, embora formado pela cabeça e pelos membros, é um só (cf. Rm 12, 4-8; 1Cor 12, 12-27) – ele é a planta, e os fiéis nele são os ramos: mas a planta da videira é sempre uma, e uma só seiva a faz viver!

O Pai agricultor, cuidando dessa vida e desejando que dê frutos abundantes, intervém não só trabalhando a terra e cultivando-a, mas também com a poda, operação que o agricultor faz no inverno, quando a videira não tem folhas e parece morta.

Conhecemos bem a poda necessária para que a videira consiga não dispersar a seiva e, assim, produzir não folhagem, nem ramos frondosos mas sem frutos: uma videira deve dar cachos formados e grandes, nutridos até a maturação. Quando o agricultor poda, então a videira “chora” onde é cortada, até que a ferida cure e cicatrize. A pode tão necessária é sempre uma operação dolorosa para a videira, e muitos ramos são cortados e, jogados fora da vinha, secam e são destinados ao fogo...

Jesus não tem medo de dizer que seu Pai, Deus, também deve fazer essa poda, que a vida que ele é, deve ser purificada e que, portanto, deve sentir em seu próprio corpo as feridas dos ramos cortados e arrancados dele. É a própria palavra de Deus que realiza essa poda, porque ela também é juízo que separa; afinal, não havia sido justamente a palavra de Deus que purificou a comunidade de Jesus, com a saída do cenáculo de Judas, o traidor, na noite anterior à paixão (cf. Jo 13, 30)? Para os discípulos de Jesus, há a necessidade de permanecer como ramos da videira que ele é, de permanecer (verbo méno) em Jesus (fazendo permanecer neles as suas palavras) assim como ele permanece neles.

Permanecer não é apenas ficar, habitar, mas significa ser comunicantes em e com Jesus, a ponto de poder viver pela mesma seiva, de uma mesma vida. Permanecer não é simplesmente continuar sendo o que se é, em uma passividade paralisante, mas é uma dinâmica através da qual o vínculo com Jesus na adesão a ele (a fé) e no amor por ele (a caridade) cresce e se desenvolve como comunhão perseverante e fiel.

Ao permanecer em Jesus, há o seguimento como dimensão interiorizada, como partilha de vida com ele, viver juntos! Precisamente esse permanecer em Jesus é condição necessária e absoluta para estar em comunhão com o Pai, com Deus. Assim como Jesus havia declarado: “O Filho não pode fazer nada por si mesmo, senão aquilo que vê o Pai fazer” (Jo 5, 19; cf. também 5, 30), assim também seu discípulo não pode fazer nada sem ele: “Sem mim, vocês não podem fazer nada”.

Mas, como ramo que recebe a vida dele, pode produzir muito fruto. Cada um de nós, discípulos de Jesus, é um ramo que, se não der frutos, é separado da videira e só pode secar e ser lançado ao fogo; mas, se permanece como um ramo da videira, se se alimenta da sua seiva vital, então dá frutos e, pela poda recebida do Pai, dará fruto bom e abundante!

Nessa palavra de Jesus, também somos lembrados de que não cabe a ninguém podar e, portanto, separar, remover os ramos, senão a Deus, porque só ele pode fazer isso, não a Igreja, vinha do Senhor, nem os ramos. E não se deve esquecer que, embora a vinha às vezes possa se tornar exuberante e luxuriante, ela, porém, sempre permanece exposta ao risco de fazer folhagem e não dar fruto.

Por isso, é absolutamente necessário que, na vida dos fiéis, esteja presente a palavra de Deus com todo o seu poder e seu senhorio: a Palavra que limpa, purifica (verbo kathaíro) Igreja e comunidade; a Palavra que, como espada de dois gumes (cf. Hb 4, 12), corta o ramo estéril, corta o ramo exuberante e prepara uma colheita abundante e boa; a Palavra que é a seiva da videira.

Muitas vezes, assistimos a podas na comunidade do Senhor, conhecemos essas horas dolorosas nas quais podemos dizer que ocorre uma separação, e alguns ramos não permanecem mais ligados à videira, mas, separados dela, acabam secando e não fazendo mais parte da vinha fecunda e viva. Quando isso ocorre? Quando os fiéis em Cristo, enxertados na videira pelo batismo, não creem mais no amor (cf. 1Jo 4, 16) e escolhem viver não no amor, mas na inimizade, na philautía, na idolatria de si mesmos. Isso ocorre quando nos separamos da comunidade dos fiéis, não reconhecendo mais quem pertence ao corpo de Cristo; isso ocorre quando não se capta mais o dom da hospitalidade eucarística de Jesus que nos oferece seu corpo e seu sangue para que sua vida esteja em nós. Além disso, Jesus havia dito: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56).

Ao término da leitura dessa autoproclamação de Jesus – “Eu sou a verdadeira videira” – só resta confirmar a nossa fé nele, vivendo junto com ele uma única vida e aceitando por graça, sem voluntarismo, dar frutos abundantes nele. A seiva da videira que somos com Cristo é o Espírito Santo, e o corpo e o sangue de Cristo na eucaristia nos dão essa seiva para a vida eterna.

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