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23 Fevereiro 2018

Em resposta ao chamado do Senhor, Abraão deixou tudo. Admirou-se e alegrou-se com as promessas divinas. Mas teve a sua fé rudemente posta à prova, quando Deus lhe pediu um gesto que mais parecia anular o que lhe havia sido prometido. Foi grande a prova, mas maior ainda a fé do patriarca.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 2º Domingo da Quaresma, do Ciclo B. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto. 

Referências bíblicas

1ª leitura: O sacrifício de nosso pai Abraão (Gênesis 22,1-2.9-13.15-18).
Salmo: Sl. 115(116B) – R/ Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos.
2ª leitura: “Deus não poupou seu próprio Filho” (Romanos 8,31-34).
Evangelho: “Este é o meu Filho amado” (Marcos 9,2-10).

 

O rosto da glória

De repente, aquele Jesus de todos os dias, cujos traços eram mais do que conhecidos de seus discípulos, mostrou-se resplandecente de luz. Notemos que este relato -espécie de experiência mística de Pedro, Tiago e João- encontra-se inserido nos anúncios da Paixão. Compreende-se que os discípulos tivessem necessidade de ser fortalecidos, pois iriam ressentir-se com a perspectiva da crucifixão de Jesus, tomando-a como uma derrota. O mesmo se dá conosco, aliás, por via da certeza de nossa morte. Jesus já lhes teria falado por certo sobre a sua ressurreição. Eles, contudo, conforme sublinhado na última frase do evangelho, não compreendiam o que queria dizer «ressuscitar dos mortos». Nós também não, devemos confessar. A visão do Cristo radiante de luz podia fazê-los tomar consciência de que haveria uma saída positiva, feliz, para o drama que iria se produzir. Não tenhamos medo de transpor isto para os dias de hoje. Da mesma forma que todo o conjunto dos evangelhos, também este relato não fala somente de acontecimentos passados, mas refere-se ao que acontece hoje em nossas vidas. Nós também temos necessidade de ganhar altura em relação ao que a vida nos dá por viver e aos acontecimentos que afetam a humanidade atualmente. «Não tenhais medo», por detrás de tudo isso, mantém-se radiante esta luz de glória. Luz que secretamente está sempre em trabalho, no interior de tudo o que temos de atravessar. Hora virá em que ela se manifestará com todo o seu brilho, em plena luz do dia. Nada pode reduzir ao silêncio a Palavra que nos faz ser. Para sempre.

 

A religião da luz

Há momentos em nossas vidas que são de «transfiguração»: momentos nos quais vemos claro. Então, a alegria nos visita e podemos compreender, ou entrever, a verdade última de nossas existências. Mas, depois, uma névoa nos recobre e vemos apenas Jesus que está só, este Jesus de todos os dias que acreditamos conhecer e que não nos surpreende mais. É neste claro-escuro que temos de caminhar: o pão de cada dia da nossa vida cristã não é a visão, mas a fé. Importante tomar consciência de tudo isso, porque temos dificuldade em reconhecer que a mensagem evangélica é uma “boa notícia” (é este o sentido da palavra «evangelho»). Muitos de nós fabricamos uma religião masoquista, feita de prescrições exigentes, de pesadas proibições. Tristeza e abstinência generalizada... Pois invertamos a perspectiva e entreguemo-nos à alegria que nasce da certeza de sermos «salvos». Salvos de quê? Salvos da morte, bem entendido. Temos de nos persuadir de que nada de grave, de verdadeiramente grave, pode nos acontecer. O que quer que aconteça, estamos indo para a luz. Tudo o que vivemos será transfigurado, «até mesmo os nossos pecados», como escreve Santo Agostinho. Mas, sobre tal formulação, melhor será meditar após passada, e não no momento mesmo (um mau momento), da «tentação». Isto tudo nos ajuda a compreender que a última palavra da fé é a que chamamos de «ação de graças», ou seja, o reconhecimento. No vocabulário religioso, fala-se muito em «sacrifício». Não esqueçamos que o último sacrifício, aquele em sua forma perfeita, é o «sacrifício de ação de graças».

 

Para além de Moisés e de Elias

Moisés costumava frequentar as montanhas: foi na solidão do Sinai que recebeu a Lei. Também Elias, figura simbólica de todo o profetismo, era familiarizado com o monte Horeb. Por isso os evangelistas situam a Transfiguração «sobre uma alta montanha». Jesus vai substituir, vai realizar e cumprir, completar perfeitamente uma superação: «a lei e os profetas», expressão que recapitula toda a primeira Aliança. Pedro, Tiago e João, ali representantes da nova Aliança que irá se concluir na Páscoa, são tomados de terror, ainda que Pedro tenha dito: «É bom ficarmos aqui.» A sua proposta, de erguer três tendas, não é inocente. Quer não só manter-se instalado na manifestação da glória, mas põe no mesmo plano Jesus, Moisés e Elias. Ora, justamente quando chegou o momento em que a Lei foi superada e em que as profecias se cumpriram. A questão não é inventar uma religião que, ao lado da fé no Cristo, conserve o culto da Lei, fundando-se na expectativa da realização das profecias. Com Cristo, tudo já foi dado. Trata-se agora de acolher este dom e de fazê-lo nosso. A este acolhimento chamamos de fé. Vai ser preciso descer da montanha e pôr-se a caminho de Jerusalém. Assim como Moisés, antigamente, havia conduzido o seu povo na travessia do mar, do deserto e do Jordão, Jesus vai atravessar a morte para fazer-nos atravessá-la.

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