O Filho enviado à vinha

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06 Outubro 2017

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 27º Domingo do Tempo Comum, 8 de outubro (Mt 21, 33-43). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois de entrar na cidade santa de Jerusalém no meio de aclamações (cf. Mt 21, 1-11) e de ter realizado o gesto da expulsão dos comerciantes do templo (cf. Mt 21, 12-17), Jesus volta ao templo para anunciar com parábolas a vinda do reino dos céus. Hoje, escutamos a segunda dessas parábolas, na realidade, uma alegoria dirigida àqueles sacerdotes e anciãos do povo que vieram contestar Jesus, interrogando-o sobre a sua autoridade, sobre a origem da sua missão (cf. Mt 21, 23-27).

Mais uma vez, Jesus repete o convite: “Escutai!”, diz novamente esse mandamento tantas vezes gritado por Moisés e pelos profetas. Trata-se de parar de ouvir apenas, para aprender a escutar com atenção uma palavra que vem do Senhor, a acolher essa palavra no coração, a fim de operar uma mudança e realizar aquilo que o Senhor pede a quem é e quer estar em aliança com ele.

Eis-nos aqui, então, diante de outra parábola que evoca uma vinha, como aquela escutada no domingo passado (cf. Mt 21, 28-32). No Mediterrâneo, a vinha é o cultivo por excelência, que implica anos de trabalho, requer cuidado e amor, exige uma relação estável e repleta de atenção para com ela por parte do vinhateiro. Basta pensar que a vinha é uma estrutura estável, ocupa o terreno por gerações, não é como um prado ou um campo que anualmente podem ser destinados a outros cultivos. Justamente esse vínculo duradouro, essa verdadeira aliança entre a vinha e o vinhateiro geram um amor profundo e apaixonado por parte de quem trabalha pela “sua” vinha.

Essas são as razões pelas quais os profetas já entreviam no amor entre vinhateiro e vinha uma narrativa do amor entre Deus e o seu povo, e recorriam à imagem da vinha para expressar a relação de aliança: uma história atormentada, mas cheia de amor entre o Senhor e a sua propriedade, o seu tesouro (segullah: cf. Ex 19, 5; Dt 7, 6 etc.).

Isaías, em particular, cantara “o canto de amor do amante pela sua vinha” (Is 5, 1; cf. vv. 1-7), contando sobre um vinhateiro que havia lavrado a terra, a havia livrado das pedras e havia plantado nela cepos escolhidos de videira. Ele até a adornara com uma torre, onde pusera uma tina. Tendo-lhe dedicado tanto cuidado, esperava delas uvas boas e belas, mas essa vinha tornara-se selvagem, produzindo grãos de uva não comestíveis.

Essa imagem era bem conhecida de Jesus e dos seus ouvintes, por isso, assim que Jesus começa a parábola, dizendo que “certo proprietário plantou uma vinha”, os presentes imediatamente entendem do que se trata: é uma história sobre Deus e sobre Israel, a sua vinha.

Esse canto que expressa a esperança de Deus e, ao mesmo tempo, a incapacidade do povo de compreender o seu amor, portanto, um canto de acusação contra Israel, foi conservado e transmitido justamente por Israel. O povo da antiga aliança não expurgou as Escrituras das censuras e dos julgamentos de Deus em relação a si mesmo: isso deve ser levado em consideração por nós quando lemos essa parábola e, facilmente, somos tentados a apontar o dedo contra esse povo, até nos glorificarmos por sermos nós o povo do Senhor ao qual foi dada a vinha tirada de outros. Fiquemos atentos, porque essa parábola que Mateus coloca no Evangelho dirigido aos cristãos certamente diz respeito aos líderes religiosos de Israel, mas também diz respeito aos líderes que estão na Igreja e também diz respeito a nós!

Pois bem, esse proprietário da vinha, que a plantou e a dotou de todo o necessário para que frutificasse, confia-a a vinhateiros, para que a trabalhem na sua ausência: a vinha continua sendo sua propriedade, mas é confiada a outros homens durante todo o tempo do distanciamento e do afastamento dela por parte do Senhor.

Mas chega a hora da colheita, um dia preciso em que as uvas estão maduras, no início do outono, e então o proprietário manda alguns dos seus servos aos vinhateiros para retirar a colheita para produzir o vinho. Porque a colheita continua sendo sua, assim como a vinha é sua! Mas, enquanto isso, surgiu naqueles vinhateiros a tentação de ser eles os donos da vinha, porque o proprietário demorou muito tempo antes de retornar. Essa é a tentação de quem foi posto pelo Senhor como primeiro, como maior, como trabalhador na sua vinha: apossar-se da vinha, pensá-la como propriedade pessoal, substituindo-se àquele que, ao contrário, ele só deve representar no serviço.

Então, aqueles vinhateiros, na chegada dos servos enviados pelo proprietário, reagem com uma rejeição violenta. Atacam alguns e os matam, e apedrejaram outros, para fazê-los desaparecer. O Senhor, porém, tem paciência, continua esperando o fruto da vinha e envia outros servos, em número maior do que na primeira missão. Mas também estes são tratados da mesma maneira, sofrendo rejeição e recusa.

O Senhor, portanto, na sua makrothymía (“sentir grande”, paciência) faz uma última tentativa. Como ele ainda espera, decide enviar o seu filho, que tem mais autoridade do que os servos. A sua esperança profunda é de que, ao verem o seu filho amado, os vinhateiros sintam que têm diante de si o próprio senhor e, portanto, tendo respeito por ele, entreguem-no o fruto da sua vinha.

Ingenuidade desse proprietário? Não, de sua parte, há a vontade de permanecer em aliança com os vinhateiros aos quais confiou a vinha. O que acontece em vez disso? Esses vinhateiros, “ao verem o filho”, aumentam ainda mais o desejo de serem donos, de terem poder sobre a vinha, por isso dizem entre si: “Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança”.

Acima de tudo, excluem o filho da sua vinha, pegando-o e jogando-o para fora, depois o matam; antes, levam-no para “fora”, fora da vinha, fora da cidade (cf. Lc 4, 29; Mc 15, 20; Mt 27, 31; At 7, 58), depois o eliminam.

Jesus conta essa alegoria às vésperas da sua paixão, conta-a justamente para aqueles que a colocarão em prática contra ele, até rejeitá-lo para fora da cidade e crucificá-lo. Assim, Mateus nos mostra que Jesus tem consciência de ser o Filho enviado pelo Pai à vinha de Israel, sabe o que o espera como fim (télos) da sua missão neste mundo e não se subtrai a essa <<necessitas humana>> inscrita na história: em um mundo injusto, o justo só pode ser rejeitado até ser eliminado!

Jesus sabe que o Pai não o mandou ao mundo para que sofra a morte violenta; sabe que o Pai, como o proprietário da vinha, enviou-o porque esperava, porque espera ser acolhido. E, embora esse seja o fim doloroso que o espera, Jesus sabe que a última palavra, no entanto, cabe ao Pai. Conhecendo as santas Escrituras e rezando-as, ele sabe que, como está escrito, a pedra que justamente os construtores (este é o termo com o qual se chamavam os chefes religiosos do templo) descartariam, colocariam fora da construção, Deus a escolheria e colocaria como pedra angular, apoiando sobre ela toda a construção. Jesus crê, adere a esse plano de Deus profetizado e cantado no Salmo 118.

Essa parábola certamente ressoa como um julgamento de Deus: mas não sobre o povo de Israel, mas sobre aqueles chefes do povo que rejeitaram e condenaram Jesus. Mateus, de fato, registra imediatamente a reação deles: tentam capturá-lo, mas têm medo da multidão, por isso decidem adiar em alguns dias o plano deles, esperando uma situação mais propícia (na noite e no Getsêmani, onde não estará a multidão dos seus seguidores; cf. Mt 26, 47-56). De fato, eles compreenderam que essa parábola identificada justamente neles os vinhateiros homicidas.

Mas a parábola diz que esse também será o julgamento sobre a Igreja, sobretudo sobre os seus líderes. A vinha foi tirada daqueles líderes de Israel e dada a uma nova coletividade humana (éthnos): a comunidade dos pobres no espírito, dos mansos que, de acordo com a promessa do Senhor, herdarão a terra (Mt 5, 5; Sl 37, 11), para aquele povo humilde e pobre que constituído herdeiro para sempre do Senhor (cf. Sof 3, 12-13; Is 60, 21; Jr 30, 3).

É claro, em seu interior, ainda haverá pastores, chefes, primeiros, mas fiquemos atentos para não ser como os vinhateiros da parábola. A sua tentação, de fato, é a de ocupar todo o espaço eclesial, absolutizando os seus projetos e pedindo obediência para si mesmos; a sua tentação é a de se substituírem ao Senhor, talvez simplesmente permanecendo no centro, sentindo-se não “servos dos servos”, mas proprietários.

Também na Igreja pode acontecer como na parábola. E, embora nela não se manifeste a violência física nele (como aconteceu, infelizmente, porém, em outras épocas históricas!), hoje talvez se pratique a violência da não escuta, da rejeição, da marginalização, da calúnia, do desprezo, da manipulação, do abuso psicológico. Essas são as tentações dos vinhateiros pérfidos, mas também, aqui e agora, de qualquer pessoa que, no espaço eclesial, na vinha, exerce a autoridade.

Portanto, não se descarregue a acusação dessa parábola sobre Israel, mas se pense em nós, hoje, nas vinhas das Igrejas.

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