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22 Setembro 2017

Deixa-se encontrar pelos que O invocam. Ainda melhor, Ele é que, com frequência, dá os primeiros passos em busca de operários que trabalhem em sua vinha. O salário a todos prometido será um salário justo, mas de uma justiça regida por sua bondade.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 25º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo A. A tradução é de Francisco O. LaraJoão Bosco Lara e José J. Lara.

 

Ouça a leitura do Evangelho:

 Eis o texto.

 

Referências bíblicas

1ª leitura: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos” (Isaías 55,6-9)

Salmo: Sl. 144(145) - R/ O Senhor está perto da pessoa que o invoca!

2ª leitura: “Para mim, o viver é Cristo” (Filipenses 1,20-24.27)

Evangelho: “Quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti Estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mateus 20,1-16)

 

O salário de Deus

Na semana passada, meditamos sobre o empregado perverso. Hoje, a Parábola dos operários da 11ª hora também nos fala da espantosa «injustiça de Deus». Em geral, de modo mais ou menos consciente, preferimos não levar muito a sério tudo isso.

Com efeito, somos entusiastas da justiça, sem levarmos em conta que, inevitavelmente, esta mesma justiça nos condena. No evangelho de hoje, a questão não é mais de empregados endividados.

Aqui, os operários são, de certo modo, até mesmo credores: é o patrão que lhes deve a retribuição por seu trabalho. E tudo também aqui se desenvolve tendo como fundo a justiça: o versículo 15 até mesmo faz alusão a um contrato concluído no momento da admissão.

De fato, se nos reportarmos ao conjunto do Novo Testamento, iremos compreender que o «salário» dado por Deus não é outro senão o próprio Deus, a sua vida, a participação em sua natureza divina (2 Pedro 1,4).

Os que, no versículo 10, «pensavam que iam receber mais» é porque imaginavam ser «mais que Deus» ou, se preferirmos, mais que a Aliança. Mas qual o trabalho a ser fornecido, para se receber o salário?

A confiança, que nada mais é que uma forma de dom e de abandono de si. Deus se dá e, em retorno, nós nos damos a Ele. Encontramos, pois, a equivalência desejada pela justiça, mas, para alcançá-la, foi preciso superar esta justiça e passar ao amor.

 

Os caminhos de Deus

"Vossos caminhos não são como os meus caminhos": são palavras da 1ª leitura, atribuídas a Deus. E o que nos querem dizer? Seria alguma reprimenda? Sim e não, como veremos. O evangelho atribui a Deus um comportamento que nada tem a ver com os nossos. E que, além disso, está em contradição com a prática da justiça.

Como tantas vezes lemos distraidamente as palavras de Cristo, deixamos de nos admirar com a enormidade de suas formulações. Aqui, nesta parábola, Jesus diz que Deus não é justo e que o "salário" que Ele nos dá não tem nada a ver com os nossos trabalhos nem com os nossos esforços.

Daí muitos irão se perguntar: por que então nos fatigarmos? Por que "fazer o bem"? Neste sentido é que devemos ler Romanos 6,1: "Que diremos? Que devemos permanecer no pecado a fim de que a graça se multiplique?" A graça, a gratuidade, o não justificado...

Entram todos em contradição com os nossos discursos sobre o "mérito". Não merecemos nada, porque fomos postos no mundo sem que tivéssemos decidido.

Tudo o que fazemos de bem, tudo vem a nós desde a fonte que nos faz existir. E o amor que Deus despeja sobre nós, amor que é o próprio Deus, não encontra em nós a sua justificação, mas n’Ele.

O "salário" que recebemos não é uma resposta por algum trabalho fornecido, mas a manifestação da "bondade" do "patrão", como diz o final da parábola. Mas vamos entender bem: as nossas sociedades não funcionam assim.

O salário dos que trabalham é um débito. A quem é devido? Aos que trabalham, é claro, mas, através deles, devido ao próprio Deus.

Deus é quem, neles e por eles, está de fato em trabalho, em operação, ao nosso favor. Em João 5,17, Jesus irá dizer: "Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho." Nada de sábado para Deus, ainda, enquanto, finalmente, a humanidade não estiver reunida no amor, o que fará dela a imagem de Deus.

 

Fazer-nos imagens de Deus 

Estas reflexões conduzem-nos a reconhecer que nada existe de "profano" em nossas vidas. Não existe isso: de um lado, o "material" e, de outro, o "espiritual". Deus está em todas as coisas e em todas as atividades.

Não existe ausência de Deus! Então, logo nos vem à mente que o nosso mundo está cheio de injustiças, violências, maldades e sofrimentos. Estará Deus presente e ativo em tudo isso de negativo?

Sim, mas não enquanto causa se assim podemos dizer, mas enquanto vítima. É a Ele que incessantemente crucificamos quando rebaixamos outros homens e mulheres, submetendo-os, explorando-os, julgando-os.

Deus é ferido cada vez que ferimos um homem, uma mulher, uma criança. Ele, em Cristo, quis desposar o destino de todas as nossas vítimas. Mas para renascer a uma vida nova, na qual somos todos integrados.

Todos nós, culpados ou não, inativos ou laboriosos, recebemos a "moeda de prata" que não representa uma quantidade, mas a plenitude. A parábola insiste em que os últimos contratados são os primeiros a receber o seu salário.

E Jesus conclui generalizando: não é mais questão de salário, mas em tudo os primeiros serão os últimos e inversamente. Compreendamos que a prioridade é dada aos que são sem-direitos.

Os relatos bíblicos estão cheios de exemplos desta escolha do último menor. Pensemos em Jacó suplantando Esaú, em José distanciando-se dos seus irmãos, em Davi sendo o preferido, ao invés de seus irmãos mais velhos...

Deus cria o valor onde ele não existe. Os teólogos sempre têm falado da criação a partir do nada. O direito erige-se aí, onde reina o não direito. Eis o que nos pode reconfortar quando tomamos consciência das nossas insuficiências.

Concluamos: esta gratuidade do dom de Deus, longe de nos instalar em nossas mediocridades, convida-nos a imitar a Deus em nossas relações com os outros. Seremos então verdadeiramente "como deuses".

 

Os pensamentos do homem perverso

O que comanda os pensamentos dos que protestam contra a identidade dos salários é a inveja (versículo 15). Como sabemos, a inveja é o contrário do louvor: equivale a entristecer-se por um bem que se vê no outro, enquanto o louvor consiste em alegrar-se com isto.

Este é um tema que é das maiores questões da Escritura. A inveja é uma das molas fundamentais da história humana, tal como ela se desenvolve, e por isso exatamente é que a Bíblia dá início a esta história pelo assassinato de Abel por Caim, o drama da inveja.

E isto continuará com a rivalidade entre Jacó e Esaú, entre José e seus irmãos, entre Saul e Davi. Estes conflitos resultarão na hostilidade recíproca entre o judeu e o pagão, de que Paulo, em Romanos 11, anuncia a superação, ou a conversão.

Se não é convertida, a inveja conduz inevitavelmente ao assassinato. Em 27,18, Mateus escreverá que foi por inveja que Jesus foi crucificado. Mas a inveja é uma consequência: ela nasce da desconfiança.

Gênesis 3 nos fala da confusão entre o bem e o mal: Aquele que é bom por excelência é tido como mentiroso e, precisamente, invejoso da sua condição divina, não se podendo assim confiar nele.

Em nosso evangelho, o olho do homem torna-se mau porque Deus é bom (versículo 15). Estaríamos nós com inveja da bondade de Deus? Sim, quando ela se exerce para com os outros.

Deus é, então, acusado de injustiça (versículo 12). Temos de aprender que, acima da justiça, há o amor.

 

O amor justifica

Pagar ao injusto o salário do justo, considerar o nosso devedor perdoado de sua dívida, aí está a justificação. No entanto, «justificar» pode ter dois sentidos.

Primeiro, é evidente que o amor justifica a quem se ama. Amar põe-nos de fato em perfeito acordo com Deus, que é amor. Mas o que significa amar senão justificar a pessoa sobre quem recai este amor? E o que significa «justificar»?

Primeiro, claro, é perdoar. Mas vai além: muitas pessoas, e provavelmente todas, em certo grau, sofrem mais ou menos conscientemente por não encontrarem razão, justificação, para a sua existência.

Temos necessidade de ser perdoados por existirmos e por sermos tão somente operários da 11ª hora. Somente o amor que nos deseja, que deseja que existamos, este amor de Deus que, passando por cada um de nós, se dirige aos outros, pode nos justificar por estarmos aqui.

Por isso Deus põe diante de nossos olhos, afixa de alguma forma, a Cruz de Cristo. Somente olhando para este a quem trespassamos é que podemos receber a revelação de «qual a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o conhecimento» (Efésios 3,18-19).

Em razão deste amor, que vai até o fim, é que somos justificados por existir. Cabe a nós fazer nossa esta justiça justificante de Deus, justiça que passa pela incomensurável injustiça da Cruz. Injustiça que é toda nossa, mas que dela Deus se utiliza, para nos justificar.

 

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