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26 Maio 2017

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre as leituras deste domingo, festa da Ascensão do Senhor.

No tempo da Páscoa, como as outras leituras escolhidas pelo lecionário romano não são paralelas ao Evangelho, comenta-se apenas o trecho evangélico (Mt 28, 16-20).

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Infelizmente, na Itália, festejamos a Ascensão do Senhor Jesus Cristo não no 40º dia depois da ressurreição (cf. At 1, 3) – como previsto pelo calendário da Igreja Romana –, mas no domingo seguinte, o sétimo Domingo da Páscoa, aquele que antecede o Domingo de Pentecostes, 50º dia pós-pascal.

A solenidade da Ascensão, mesmo assim, é sempre memória de uma cristofania pascal, de uma manifestação do Cristo ressuscitado, glorificado pelo Pai no poder do Espírito Santo. A ascensão ou assunção de Jesus ao céu, o seu êxodo deste mundo ao Pai (cf. Jo 13, 1), é narrada como uma separação de Jesus dos seus, um ser levado para o céu.

Encontramos esse relato na conclusão do Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 24, 50-51) e no início de Atos dos Apóstolos (At 1, 6-11), enquanto que, em Mateus, Marcos (exceto o encerramento canônico, posterior; cf. Mc 16, 19-20) e João, narram-se aparições do Ressuscitado, mas não se fala explicitamente de uma partida, de um deixar a terra para o céu.

No Evangelho segundo Mateus é testemunhada uma única e mesma aparição do Ressuscitado na Galileia, em uma montanha, como última e definitiva saudação testamentária aos discípulos. Se Mateus tinha aberto o seu Evangelho com as palavras “livro da gênese de Jesus Cristo... o Emanuel, o Deus-conosco” (Mt 1, 1.23), agora ele o encerra com uma alusão ao último versículo das Escrituras hebraicas que ele conhecia, lá onde se lê: “O Senhor, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra” (2Cr 26, 23); e aqui o Ressuscitado, aquele que é o Deus-conosco para sempre, diz: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Assim, o Evangelho leva a cumprimento toda a história da salvação.

Mas leiamos o texto de Mateus com atenção e humildade. Na noite da sua Paixão, durante a ceia pascal, depois de ter partido o pão e de ter dado graças sobre o cálice, enquanto com os seus ele saía para o Monte das Oliveiras, Jesus tinha predito o escândalo de todos e a negação de Pedro, situando, porém, a sua ocorrência depois da sua ressurreição na Galileia (cf. Mt 26, 30-35). Depois, viera a hora da prisão e da fuga de todos os discípulos, na noite da paixão, o dia da morte e do sepultamento. Mas Mateus conta que, ao alvorecer do dia depois do sábado, Maria Madalena e a outra Maria encontraram o túmulo vazio e escutaram de um mensageiro o anúncio da ressurreição de Jesus. E, enquanto iam levar esse evangelho aos discípulos, encontraram o Ressuscitado, que lhes renovou o convite, a ser dirigido aos próprios discípulos, de ir à Galileia, onde ele os precedia e onde o veriam (cf. Mt 28, 1-10).

E eis que os discípulos, 11 e não mais 12, por causa da traição de Judas, “foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado”. Eles não são chamados de apóstolos, enviados, mas sim de discípulos, porque ainda devem ser iniciados pelo seu grande rabi, Jesus, e estão novamente na Galileia, a terra em que foram chamados e permaneceram durante anos no seu seguimento.

Para Mateus, a Galileia não é tanto a terra da infância de Jesus, a partir da qual ele recebeu o apelido de “galileu”, mas sim a terra desejada por Deus como lugar da evangelização, a “Galileia dos gentios, dos pagãos” (cf. Mt 4, 12-16; Is 8, 23-9,1), terra considerada impura, da qual “não podia sair nada de bom” (cf. Jo 1, 46), terra de mistura de povos, longe do centro da fé e do culto, a cidade santa de Jerusalém. A Galileia, portanto, como terra por excelência de evangelização e de missão: aqui os discípulos são novamente chamados, quase como que para recomeçar aquele seguimento que se concluiu com o abandono de Jesus.

O lugar do encontro é a montanha, local teológico para Mateus, lá onde Deus várias vezes se revelou e quis ser encontrado, lá onde Jesus tinha pronunciado o longo discurso que continha também as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-7, 29), lá onde Pedro, Tiago e João tinham completado a sua transfiguração (cf. Mt 17, 1-8). Ao verem Jesus, os 11 discípulos, que o tinham visto pela última vez capturado pelos seus inimigos, não podem deixar de se prostrar em adoração. O que aconteceu? Mateus não nos falou da reação dos discípulos ao anúncio das mulheres nem de outros sinais dados por Jesus; mas agora, diante dessa cristofania, eles o adoram, sem dizer nada.

Alguns deles chegam à fé na ressurreição, mas outros ainda alimentam dúvidas, porque hesitam a reconhecê-lo: a fé nunca é visão, mas é uma contínua vitória sobre as dúvidas, vitória que só se obtém adorando e, acima de tudo, amando. Nos Evangelhos, não há nenhum traço de exaltação irracional diante de Jesus ressuscitado, mas há um fatigante reconhecimento que só se realiza em uma relação amorosa, cheia de confiança e de abandono ao Senhor.

Assim, Jesus se aproxima dos 11, não os repreende pela fuga (cf. Mt 26, 56), não os faz corar pela sua pouca fé (cf. Mt 14, 31), mas se revela na glória recebida do Pai, que o chamou de volta da morte: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”, palavras que nos abalam e que só podemos acolher na fé. Quem é este? São palavras que só podem ser ditas pelo Kýrios, o Senhor do céu e da terra. Jesus possui uma exousía, um poder: ele não o deu sozinho a si mesmo e nem o quis, porque o rejeitou quando lhe foi oferecido pelo tentador, o diabo (cf. Mt 4 ,8-10), mas o recebeu de Deus, o Pai. De fato, ele é “o Filho de homem que chegou de junto de Deus, que lhe deu poder, glória e reino... um poder eterno, que nunca lhe será tirado, um reino que jamais será destruído”  (cf. Dn 7, 13-14).

No Antigo Testamento, só Deus é o Senhor do céu e da terra, Senhor do mundo visível e do invisível, Rei de todo o cosmos, e na glória Jesus nos revela que esse poder divino é compartilhado por ele. Assim, Mateus, mesmo sem nos descrever uma ascensão de Jesus em termos visuais, óticos, revela-nos onde devemos buscar e encontrar o Ressuscitado: em Deus, igual a Deus no seu senhorio, “no seio do Pai” (Jo 1, 18), diria o quarto Evangelho.

A Igreja adora e confessa Jesus como aquele que está sentado à direita do Pai, aquele que intercede por nós junto dele. Essas e outras formulações semelhantes frequentemente são incapazes de nos revelar o mistério, mas o decisivo não é o nosso exercício imaginativo para ler a ascensão, mas sim para fazer com que o Senhor Jesus realmente reine em nós, que ele seja o centro da nossa história, que ele seja aquele em que acreditamos e esperamos como único Salvador.

E como Deus revestiu Jesus de tal autoridade, ele pode dizer: “Portanto (oûn), indo, fazei discípulos meus todos os povos”, em que a ênfase não recai sobre o verbo “ir” (não está escrito: “Ide”), sobre uma missão de conquista, de ocupação de terras e espaços, mas sobre a abertura a todos os povos, a todas as culturas, a todos os homens e mulheres que fazem parte da humanidade. Chegou a hora do anúncio aos gentios: Jesus viera sobretudo para o povo de Israel, ao qual havia sido prometido como Messias e Salvador, e a essa missão que lhe foi conferida pelo Pai ele tinha obedecido; mas, depois da sua morte e ressurreição, o Evangelho deve chegar a todos os povos da terra. Caem todos os muros: aquele entre Israel e os pagãos, aqueles entre os povos, todos os muros edificados na história. Agora, todos os seres humanos são destinatários do Evangelho,

que deve ser proposto, não imposto,

que deve ser oferecido como testemunho, não propagandeado em palavras,

que deve ser vivido para ser eventualmente anunciado.

De fato, não se pode ensinar e transmitir o Evangelho sem vivê-lo e sem viver dele! Eis a tarefa dos discípulos, que, naquela hora, na Galileia, são realmente pequena comunidade, “pequeno rebanho” (Lc 12, 32): uma tarefa que não olha para a pouqueza de quem a desenvolve, mas para a promessa daqueles que pediram para vivê-la e anunciá-la.

Aqui é novamente delineado por Jesus quem é o discípulo: é alguém que se torna o que é graças à escuta de Jesus, estando com ele; é alguém que está imerso na vida da comunhão divina entre o Pai, Filho e Espírito Santo; é alguém que, vivendo dessa vida doada, acolhe o ensinamento dos enviados, dos apóstolos, da Igreja, para viver aquilo que Jesus pediu, para viver o Evangelho.

A promessa de Jesus em que devemos pôr fé e esperança é: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. Eis a nova e definitiva aliança com a qual Deus se uniu ao seu povo: “Eu serei o vosso Deus, eu serei o Deus-convosco”. Essa é a última palavra do Evangelho, essa é a nossa fé: o Senhor Jesus Cristo está conosco sempre.

Ao enviá-lo ao mundo, o Pai tinha revelado através do seu mensageiro: “Ele será chamado Emanuel, Deus-conosco” (Mt 1, 23; Is 7, 14); agora Jesus assume plena e definitivamente esse nome recebido do Pai pela eternidade. Deus dissera a Moisés: “Eu estarei contigo” (Ex 3, 12), e Jesus Cristo diz isso a cada um de nós, batizados no seu nome, cristãos que levam o seu nome e tentam viver, observar o seu Evangelho.

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