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Por: André | 19 Outubro 2013

A oração deve nos tornar responsáveis pelo que pedimos; caso contrário, ela não passa de magia e de superstição. (...) Deus não pode fazer nada sem a nossa participação, o que explica a sua ausência e sua impotência quando a oração não comporta nenhum compromisso.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 29º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico. A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Segunda leitura: 2 Tm 3,14-4,2
Evangelho: Lc 18,1-8

Eis o texto.

Quem está no caminho do Reino? No domingo passado, vimos que é aquele que voltou no caminho, que voltou atrás, para tomar e abrir novos caminhos, que se encontra no caminho do Reino. Hoje, vemos que é aquela que reza com insistência e perseverança que se encontra no caminho do Reino. Por outro lado, a oração deve nos tornar responsáveis pelo que pedimos; caso contrário, não passa de magia e de superstição: “A oração não nos dispensa de lutar, mas ela deve permitir que as armas da nossa luta sejam aquelas do Evangelho. Nós, talvez, resolveríamos os problemas da nossa comunidade e da Igreja em geral com maior serenidade, se soubéssemos rezar com efetividade e sem jamais nos cansar” (A.-M. Bernard). Mas o que devemos compreender da Palavra de Deus que nós proclamamos hoje?

1. A oração como expressão da fé

No evangelho de hoje, através de uma parábola que coloca em cena um juiz iníquo e uma mulher completamente privada, primeiramente porque ela é mulher e também viúva, portanto, sem recursos, o Cristo do Evangelho de Lucas nos diz que é preciso rezar com insistência e perseverança. Eu teria vontade de dizer: dize-me como tu rezas e eu te direi em que tipo de Deus tu acreditas! O que me faz dizer isso é a resposta de Jesus, no final do evangelho, traduzida em uma pergunta: “Mas, o Filho do Homem, quando voltar, encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18,8b).

Com efeito, no momento em que Lucas escreve, muitos haviam perdido toda esperança. Eles acreditavam que Jesus voltaria logo para inaugurar o Reino que ele havia anunciado. Mas não veio nada, nem o Senhor, nem os tempos novos. Eles continuam suplicando. E nada! Por que, então, os fazia esperar assim? Teria Deus ficado surdo aos seus apelos assim como o juiz iníquo implorado com insistência por esta pobre viúva. Não parece ser esta, de certa forma, a nossa atitude em relação a Deus, que parece estar ausente da nossa vida e surdo às nossas orações? Pessoalmente, é exatamente isso que estou vivendo atualmente, diante desta terrível doença que me atinge e que me tira todas as minhas energias. Quando rezamos, em que Deus acreditamos? O que lhe pedimos? Recordemos aquilo que dizia o cardeal francês Etchegaray em relação à oração: “A oração não é nem refúgio, nem fuga, nem apelo ao milagre. A verdadeira oração exige que nós procuremos fazer aquilo que pedimos para Deus fazer”.

Esta é uma coisa mais do que difícil de fazer! Por outro lado, se a viúva do evangelho obtém justiça, não é por causa desse juiz iníquo. Foi simplesmente por sua tenacidade, por sua perseverança e por seu compromisso que ela obteve justiça. O mesmo vale para cada um de nós; não é porque Deus se pareça a esse juiz iníquo. Não! Simplesmente porque Deus não pode fazer nada sem a nossa participação, o que explica a sua ausência e sua impotência quando a oração não comporta nenhum compromisso. O cardeal Etchegaray continua: “Se eu peço o pão nosso de cada dia, devo eu mesmo dar esse pão para quem ele falta. Se eu rezo pela paz, devo eu mesmo me comprometer com o estabelecimento da paz. A oração não é feita de palavras ao vento: nós só podemos rezar quando estamos inteiramente comprometidos com o que pedimos”.

Assim, diremos, Deus é paciente e foi o que disse o religioso francês, André Rebré: “Em relação à paciência de Deus, o que significa a nossa impaciência? Ela desqualifica os homens chamados a serem parceiros de Deus para tornarem a terra mais humana, e aumentar a paz, a justiça e a liberdade. Para isso é necessário tempo, todo o tempo da história, mas também o trabalho, as iniciativas e as lutas dos homens, o testemunho de fé dos crentes. Porque o tempo da paciência de Deus reclama a nossa atividade, como aquela da viúva que multiplica as tratativas. Teremos nós a mesma obstinação, a mesma confiança, a mesma fé que ela? É a pergunta que Jesus nos faz: O Filho do Homem quando vier, encontrará fé sobre a terra?”.

2. A fé como compromisso

Mas, qual é o fundamento da nossa fé? Os dogmas? A regras? As leis? Não! A nossa fé se fundamenta sobre a Palavra de Deus. Uma Palavra que nós encontramos, em primeiro lugar, nos textos sagrados e que nos fala de justiça, paz, liberdade. Mas também uma Palavra que deve ser dita hoje, para o mundo de hoje. É por isso que a Palavra não pode ficar fechada nos textos sagrados; ela precisa ser atualizada. Se a Palavra é viva e pode ainda falar de justiça, de paz e de liberdade às mulheres e aos homens do nosso tempo, ela necessita desta liberdade de palavra para exprimir uma Palavra nova de Deus; caso contrário, que paremos de afirmar que a Palavra de Deus é viva.

Na segunda leitura a Timóteo, Paulo nos diz: “Proclama a palavra, insiste, no tempo oportuno e no inoportuno, refuta, ameaça, exorta com toda a paciência e doutrina” (2 Tm 4,2). Existe um risco de dizer e proclamar a Palavra, porque a Palavra deve necessariamente perturbar, porque ela fala de justiça, de paz e de liberdade; o que perturba todo o mundo. É e por isso que Paulo acrescenta: “Pois virá um tempo em que alguns não suportarão a sã doutrina... Desviarão os seus ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas” (2 Tm 4,3-4). O que isto quer dizer? Ao interpretar, muitas vezes, os textos bíblicos de maneira literal, não fizemos destes relatos fábulas que afastaram e que ainda afastam mais de um crente? Como, então, exprimir uma Palavra nova de Deus, uma Palavra que liberta e que dá esperança a pessoas que já não querem mais ouvir a Palavra, porque se desiludiram com as interpretações fundamentalistas que fizemos? Os missionários do Evangelho necessitam, pois, de honestidade para reconhecer seus erros e a humildade de não pretender deter a verdade sobre Deus e sobre o mundo.

A fé não pode ser uma certeza; ela só pode ser uma esperança. Foi, sem dúvida, o que fez Bernanos dizer: “Minha fé é 24 horas de dúvida, menos um minuto de esperança”. A fé cristã não é um saber, nem uma ideologia; ela é o encontro com alguém, com Cristo, com o Filho de Deus, que João chama de Palavra: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Comprometer-se a segui-lo é tornar-se Palavra e Verbo de Deus: “Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). E mais ainda: “Ele, que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1,13). A fé como compromisso nos torna, pois, filhos e filhas de Deus, dos Cristos ressuscitados, dos Cristos vivos.

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