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Por: André | 11 Fevereiro 2013

Nas leituras de hoje encontramos três homens, com seus limites, suas pobrezas, suas imperfeições e sua finitude, que fazem tal experiência de Deus que são transformados para tornar-se profetas, mensageiros da esperança, missionários do evangelho: Isaías, o homem de lábios impuros (1ª leitura), Paulo o perseguidor dos cristãos (2ª leitura) e Simão Pedro, às margens do lago da Galileia, consciente de sua fraqueza. Chamado a tudo deixar para seguir a Cristo. A nós que os relemos, o que nos dizem hoje estes testemunhos de fé? A que nos levam? Qual a nossa missão?

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C. A tradução é de José Jacinto da Fonseca Lara.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Is 6, 1-2a;
2ª leitura: 1Cor 15, 1-11; 3-8
Evangelho: Lc 5, 1-11.

Eis o texto.

Nas leituras de hoje encontramos três homens, com seus limites, suas pobrezas, suas imperfeições e sua finitude, que fazem tal experiência de Deus que são transformados para tornar-se profetas, mensageiros da esperança, missionários do evangelho: Isaías, o homem de lábios impuros (1ª leitura), Paulo o perseguidor dos cristãos (2ª leitura) e Simão Pedro, às margens do lago da Galileia, consciente de sua fraqueza. Chamado a tudo deixar para seguir a Cristo. A nós que os relemos, o que nos dizem hoje estes testemunhos de fé? A que nos levam? Qual a nossa missão?



A experiência de Deus

Não nos tornamos profetas nem missionários como nos tornamos eletricistas ou mecânicos... Na fé o que precede qualquer engajamento é o encontro com Deus. Mas atenção! Há mais do que uma maneira de encontrar a Deus. Há tantas quantas experiências humanas. Existem. A experiência de Isaías, o aristocrata da corte do rei, é diferente da experiência de Paulo e, mais ainda, da experiência de Pedro. Mas os três encontram a Deus, são transformados por esta experiência, tornando-se profetas, mensageiros, missionários, apóstolos.

Na 1ª leitura de hoje, Isaías, em 140 a.C., «ano da morte do rei Osias» no pleno desenrolar de uma celebração litúrgica no templo de Jerusalém (Is 6, 1a) encontra o Deus três vezes santo, em sua majestade e em sua realeza. Mediante o rei sentado sobre o trono, o profeta reconhece o Deus de Israel: «vi o Senhor sentado num trono de grande altura;o seu manto se estendia por todo templo» (Is 6, 1b). Trata-se de uma celebração: os anjos, com trombetas, embelezam o templo: Havia serafins, de pé, a seu lado (Is 6, 1b). « E do coral elevavam-se vozes: «Eles exclamavam uns para os outros: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo. Toda a terra está cheia de sua glória». (Is 6, 3). Os instrumentos musicais fazem vibrar as portas e o incenso é abundante: «ao clamor destas vozes começaram a tremer as portas em seus gonzos e o Templo se encheu de fumaça».

Na 2ª leitura, o apóstolo Paulo nos diz que o Cristo lhe apareceu (1Cor 15, 8). Como ocorreu este encontro? É difícil descrevê-lo em sua materialidade, já que ele no-lo conta três vezes com variações importantes. Mas uma coisa é certa: é no caminho de Damasco, para onde Saulo se dirigia para prender cristãos e levá-los presos, que uma luz intensa a tal ponto o ofuscou que perdeu a vista e reconheceu o Cristo que o interpelava. Sua experiência foi súbita e derrubou-o. No filme A Última Tentação de Cristo de Martin Scorcese, o encontro de Paulo, o pregador, e Jesus envelhecido nos faz refletir acerca da realidade de todas as experiências de Deus.

Estas experiências não têm, sem dúvida, nada de material, mas isto não tira nada à verdade de sua realidade. No filme, Paulo diz mesmo a Jesus: «Pouco importa que tenhas ou não ressuscitado. Tua ressurreição é de tal sorte necessária às pessoas que, se não fosse verdadeira, seria preciso inventá-la». Compreenda quem puder compreender.

No evangelho de Lucas vemos Pedro, Tiago e João que, em meio à sua experiência, penaram toda a noite sem sucesso. Depois de escutar o ensino de Jesus, Simão respondeu com confiança a seu convite: «faze-te ao largo e lança as redes para a pesca» (Lc 5, 4). A experiência deste três homens é muito parecida com as nossas. Quantas vezes nos acontece, ao encontrarmos alguém que nos inspira confiança, ouvirmos uma palavra, escutar uma mensagem que nos transforma e muda o curso de nossa existência? Frequentemente, é no cotidiano de nossas vidas, em situações difíceis ou desesperadoras que encontramos o Cristo, que fazemos a experiência de Deus. Recordemos o ex-bispo de Recife, no Brasil, que escolheu morar não em seu palácio episcopal, mas com os pobres, por que para ele o pobre é um sacramento da presença real do Cristo da Páscoa. Conta-se a este respeito o que segue: Diante de uma comunidade escandalizada pelo roubo de um cibório, Helder exclamou um dia: Como somos todos cegos! Estamos todos chocados porque nosso irmão, este pobre ladrão, jogou as hóstias na lama. Mas na lama viveu o Cristo todos os dias junto a nós, no Nordeste. Precisamos abrir os olhos!

Nossa finitude humana

Não nos é solicitado sermos super-homens ou super-mulheres para nos tornarmos profetas, mensageiros da esperança, porta-vozes de Deus, missionários do evangelho. É na nossa humanidade lacerada, com nossas fragilidade, nossa pobreza e nossos limites que Deus nos convida a nos comprometermos numa missão que nos supera, mas missão que podemos cumprir e realizar.

Na 1ª leitura de hoje, Isaías está consciente de sua fragilidade: «Ai de mim. Estou perdido, pois sou um homem de lábios impuros» (Is 6, 5a.). O que significa na linguagem da época: Nada tenho de divino. Sou apenas um homem. É na sua humanidade que Isaías ouve o apelo e quer responder: Ouvi então a voz do Senhor que dizia: A quem enviarei? Quem será nosso mensageiro? E eu respondi: Serei teu mensageiro, envia-me» (Is 6, 8).

Na 2ª leitura, São Paulo se descreve com um aborto: Por último, apareceu também a mim, como a um aborto» (1Cor. 15, 8). Descreve-se como o menor dos Apóstolos, indigno de sê-lo por ter sido perseguidor da Igreja. 1Cor 15, 9). Mas é a ele que Deus chama para tornar-se missionário do evangelho junto às nações, aos pagãos. E São Paulo o foi até a sua morte, porque transformado pela graça de Deus (1Cor 15, 11).

No evangelho Pedro também está consciente de sua pequenez e de sua fragilidade: «Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!» (Lc 5, 8). Mas é também a ele, homem imperfeito, que o Cristo diz: «Não tenhas medo. De hoje em diante tu serás pescador de homens» (Lc 5, 10b).

Uma missão divina

Depois de ter ter encontrado a Deus, de tê-lo reconhecido, depois de ter aceitado a nossa humanidade em toda a sua fragilidade, devemos ser capazes de realizar a missão divina que nos foi confiada. Esta missão consiste em transformar o mundo, em humanizá-lo, tornando-o melhor. Ela comporta muitos malogros e muitos revezes... Mas é uma missão possível e necessária, se quisermos viver e sobreviver.

Isaías conheceu muitos revezes. Ele viveu a guerra mais terrível da época entre Israel, o Reino do Norte, aliado aos Assírios, e Judá o Reino do Sul... uma guerra entre irmãos de um mesmo país. Aliás, seu profetismo permitiu ao povo, nesta dura prova, conservar a esperança. Isto lhe permitiu sobreviver.

São Paulo também conheceu muitas dificuldades. Fundou várias comunidades e teve que, muitas vezes, enviar-lhes cartas, recordando-lhes o Evangelho, a Boa Nova da salvação: “Sereis salvos por ele se o guardardes tal como vos anunciei. De outra forma, foi em vão que acreditastes” (1Cor 15, 2). Foi também de forma trágica que pereceu. Cidadão romano, foi decapitado sob o imperador Nero, em 67, mais ou menos, de nossa era. Seu ensinamento ainda é pertinente em nossos dias, levando-nos à essência de nossa fé e ao que é essencial em nossa vida.

Pedro e seus companheiros também trabalharam em prol de um mundo melhor. Eles nos são ainda modelos de comprometimento em anunciar o evangelho a todos e a todas, sem exceção. E tendo terminado seus dias como mártires, seus testemunhos de fé, de desperança e de amor permanecem vivos na Igreja de nossos tempos.

Para nós, cristãos do século 21 há uma mensagem que o evangelho de Lucas hoje nos deixa. É uma mensagem de confiança e de esperança. No convite feito a Simão de lançar as redes, apesar de uma noite sem nada pescar, há como que um convite a não se resignar jamais e a jamais cruzar os braços. A missão é, sem dúvida, divina, mas só pode ser realizada a partir da nossa humanidade em toda a sua fragilidade.

Para terminar, eis um comentário do evangelho do dia de hoje do exegeta francês Jean Debruynne: «Não conhecestes jamais esta noite? Noite longa, solitária que não termina mais? Não vivestes jamais estas noites do coração, estas noites da vida nas quais nada vem ou não chega nunca, onde não há mais nada a se agarrar a não ser o nada, o vazio e sempre a mesma ausência? Jesus diz hoje que estas noites não são sem fim. Jesus é aquele que faz passar a noite. Só O vemos pela manhã como se chegasse por acaso, de um momento para outro, quando não O esperávamos. Jesus é o nome da esperança, quando não há mais nada Jesus é a oportunidade dos que não têm mais chance, a realização dos que não a encontram. É a vida contra a resignação. Mas atenção! Jesus não é uma corda de socorro nem um lenço para chorar. Jesus é a abundância contra a falta, o barco repleto contra o barco vazio. Jesus é o dia contra a noite. Jesus é o impossível quando não se conseguiu  tudo o que é possível. E, no entanto, Jesus não nos introduz num sonho nem nas ilusões. Ele permanece ao rés da terra de nossas realidades. A esperança verdadeira pertence apenas aos que não têm mais esperança».

 

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