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Por: André | 25 Janeiro 2013

Uma palavra que ouvimos, uma palavra com a qual nos acostumamos e que não altera em nada a situação atual do nosso mundo, as realidades vividas por nossos contemporâneos, é uma palavra morta, uma palavra que não tem mais nada a dizer.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 3º Domingo do Tempo Comum (27 de janeiro de 2013). A tradução é do Cepat.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Ne 8, 1-4a.5-6.8-10
2º leitura: 1 Cor 12, 12-30
Evangelho: Lc 1, 1-4; 4, 14-21

Neste terceiro Domingo do Tempo Comum, nós reencontramos o evangelista do ano C, São Lucas. Como bem disse o exegeta francês Jean Debruynne: "É o início do Evangelho de Lucas. Lucas o começa com uma forma literária na moda em sua época. Teófilo não é outra pessoa senão eu. É a mim que Lucas dedica seu Evangelho. Tudo começa em Nazaré e não em Jerusalém. Lucas faz partir a vida pública de Jesus deste verdadeiro buraco que tem a reputação de não produzir nada de bom. Ao contrário dos poderosos, Jesus não busca um lugar midiático para lançar sua campanha. O Evangelho só pode nascer daquele que é excluído ou desprezado”. Que belo resumo deste trecho do Evangelho de Lucas. Por outro lado, para nós, que relemos este texto do Evangelho, para nós que ouvimos esta palavra e que queremos colocá-la em prática, como interpretar e atualizar esta palavra para que origine uma Palavra de Deus hoje?

1. A palavra se fez carne. No início do Evangelho de São João, que é uma longa reflexão pós-pascal, pode-se ler: "No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus" (Jo 1, 1). Se paramos aí, o Verbo, a Palavra nos vem de outro lugar e pode ser uma boa fórmula que recitamos de vez em quando para nos lembrar que Deus falou em um determinado tempo, para uma época que pertence ao passado. É isso que parece dizer Lise Lachance em Prions en Église desta semana a partir do texto do Evangelho que temos hoje. Ela escreveu: "Quando Jesus proclama que a palavra de Deus se cumpre naquele momento, isso significa que ela é completa. Deus disse tudo o que tinha para dizer. Ele é a Palavra completa do Pai. É por isso que ele se descansa". É horrível fazer estas declarações: é negar que a Palavra é viva e que ela não pode ser dita uma vez por todas. É negar a Deus seu direito de expressão, hoje, em nossa história. É não compreender que nós, os cristãos, fazemos agir em nossa história o Cristo ressuscitado...

Depois disso, podemos nos perguntar: por que as pessoas se tornaram indiferentes à palavra dos Evangelhos e da Bíblia? Uma palavra que ouvimos, uma palavra com a qual nos acostumamos e que não altera em nada a situação atual do nosso mundo, as realidades vividas por nossos contemporâneos, é uma palavra morta, uma palavra que não tem mais nada a dizer. João prossegue: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 14a). Isso significa que a Palavra de Deus não é uma palavra abstrata que nos chega de outro lugar, mas uma palavra humana que se inscreve na história e que convida à ação. Se o Verbo se fez carne, isso quer dizer que é através das mulheres e homens de todos os tempos e não apenas no momento em que o Novo Testamento foi escrito. O teólogo francês Gérard Bessière escreve: "Podemos repetir durante séculos belas fórmulas sem nunca traduzi-las em atos. Elas acabam caindo no vazio: quem se lembra ainda, ao pronunciá-las, de seu vigor primeiro? Um exemplo? O lema francês: liberdade, igualdade, fraternidade. Suponhamos que um político queira fazer dele o seu programa e diz: ‘Hoje mesmo, mudemos de vida para nos comportarmos como seres livres e iguais, como verdadeiros irmãos. Podemos imaginar as consequências sobre o imposto de renda! Não há necessidade de fazer uma pesquisa: a carreira política deste candidato não irá longe e logo desaparecerá no meio da multidão anônima”.

Não é isso que São Lucas quer dizer a todos os Teófilos (os amigos de Deus) de seu tempo e de todos os tempos, quando escreve: "Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se passaram entre nós. Elas começaram do que nos foi transmitido por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra" (Lc 1, 1-2)? Ser ministro da Palavra não é apenas ler um texto escrito num dado momento da história; é traduzir, interpretar e atualizar o texto para que se torne a nova Palavra de Deus. Isso já se fazia na época de Esdras e de Neemias no século VI antes de Cristo, de que temos um trecho hoje: "Liam o livro da Lei de Deus, traduzindo-o e dando explicações, para que o povo entendesse a leitura" (Ne 8, 8), que significa que o texto escrito em hebraico, deve ser traduzido para o aramaico, a língua do povo falada no Exílio, interpretada e atualizada pelos especialistas da Torá, para que a Palavra de Deus possa nascer e crescer na assembleia reunida. A Palavra de Deus não pode ser desencarnada; ela se faz carne através daqueles e daquelas que a proclamam e a vivem.

2. A Palavra nos reúne e respeita a diversidade. No século V a.C., o povo de Roma começou uma greve, cansado de alimentar os senadores improdutivos (isso lembra os nossos senadores de hoje). O cônsul Menenius Agrippa resolveu o conflito contando-lhes a fábula dos membros do corpo e do estômago, que São Paulo conhecia e soube adaptar aos cristãos de Corinto. Para São Paulo, os cristãos são muitos membros, mas juntos eles formam o Corpo do Cristo ressuscitado. Sua unidade não vem de uma complementaridade social, mas do fato de que eles são diferentes e de que todos pertencem a Cristo, origem de sua igualdade e dignidade: "Se o conjunto fosse um só membro, onde estaria o corpo? Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo" (1 Cor 12, 19-20).

Cada parte do corpo desempenha o seu papel para que o corpo funcione harmoniosamente. As partes, embora diferentes, têm a sua importância, de modo que não pode haver qualquer discriminação entre eles: "O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você’; a cabeça não pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês’" (1 Cor 12, 21). E o respeito e a dignidade são essenciais para todas as partes, para o bom funcionamento do corpo: "Os membros do Corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; e aqueles membros do corpo que parecem menos dignos de honra são os que cercamos de maior honra; e os nossos membros que são menos decentes, nós os tratamos com maior decência; os que são decentes não precisam desses cuidados" (1 Cor 12, 22-24a).

Aplicado à Igreja, esta apologia do corpo humano aplicada ao corpo eclesial é de grande importância, se quisermos preservar a unidade da Igreja: "Deus quis que não houvesse divisão no corpo, mas que os diferentes membros tenham igual cuidado uns para com os outros" (1 Cor 12, 25). Mas o que dizer sobre isso hoje? Não há nenhuma divisão no Corpo de Cristo quando alguns membros se acreditam superiores aos outros? É verdade que nem todos exercem as mesmas funções; São Paulo o reconhece: "Aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres... A seguir vêm os dons dos milagres, das curas, da assistência, da direção e o dom de falar em línguas" (1 Cor 12, 28), mas quais os critérios para reservar funções para homens celibatários, heterossexuais, numa época em que a sociedade reconhece a mesma igualdade e a mesma dignidade às mulheres e aos homens, sem nenhuma discriminação sexual? Se a Palavra de Deus é viva, ela deve necessariamente levar em conta a realidade histórica das mulheres e dos homens de hoje que têm por missão o anúncio e a colocação em prática desta Palavra.

3. A palavra se cumpre hoje. Esta é a novidade evangélica que não podemos desprezar, porque é em cada geração e em cada época que se cumpre hoje a Palavra libertadora de Deus. Lucas nos diz que Jesus abre o livro do profeta Isaías e aplica a si mesmo o que está escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação dos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18-19). Gérard Bessière escreve: "Jesus retoma uma fórmula candente do passado. Ela ressoou com palavras explosivas: boa notícia para os pobres, libertação dos presos, anúncio do ano da graça que inclui o perdão das dívidas. E os cegos abrirão os olhos! Nada de novo: afinal, não ouvimos uma centena de vezes esta leitura na sinagoga de Nazaré?".

Por outro lado, o que é novo vem na sequência: "Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele" (Lc 4, 20). E Lucas acrescenta: "Então Jesus começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir" (Lc 4, 21). Acabou o sonho, as belas fórmulas que se repetem incessantemente e os votos piedosos. É hora de agir. Infelizmente, recusamos e ainda negamos que as belas palavras sejam transformadas em atos. Isso perturba a instituição e os sistemas religiosos bem estabelecidos que preferem mais falar do que agir. E, portanto, Cristo se obstinou e se obstina ainda hoje, através de seus profetas, para libertar o mundo e fazê-lo esperar, com base num único mandamento: amar verdadeiramente. O hoje de Jesus Cristo tornou-se o nosso hoje e seu combate permanece inacabado enquanto sua Palavra de Liberdade e de Amor não se tornar realidade.

Para finalizar, gostaria de citar um Padre da Igreja que soube manter-se de pé, mesmo se isso significou perder todas as chances de ser canonizado. Ele escreveu: "Quando lemos: Jesus ensinava em suas sinagogas e todos o elogiavam, livrem-se de felicitar aquelas pessoas e de se acreditarem privados de seu ensinamento. Se as Escrituras forem verdadeiras, o Senhor não falou apenas naquela época, nas assembleias dos judeus, mas ele fala também hoje em nossa assembleia. E Jesus ensina não apenas na nossa assembleia, mas em outras e no mundo inteiro. E ele procura instrumentos para difundir seus ensinamentos" (Orígenes).

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