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13 Novembro 2018

O que o evangelho anuncia não é uma catástrofe: trata-se do fim de um regime opressivo e desumano, e da vinda de um mundo melhor.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 33° Domingo do Tempo Comum - Ciclo B. A tradução é de Susana Rocca.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Daniel 12
2ª leitura: Hebreus 10,11-14.18
Evangelho: Marcos 13,24-32

No final de cada ano litúrgico, os textos bíblicos que nos são propostos nos falam do fim dos tempos. Seus autores utilizam uma forma literária que chamamos apocalipse. Mas atenção! Apocalipse não é sinônimo de catástrofe, como entendem alguns contemporâneos. Ao contrário, apocalipse significa revelação, o que quer dizer: anúncio de uma Boa Nova nos momentos difíceis da vida. Hoje, nós temos dois exemplos desses eventos trágicos que servem de trampolim para suscitar a esperança dos crentes.

Apocalipse de Daniel

O livro de Daniel foi escrito em circunstâncias dramáticas. Estamos no ano 164 a.C. O rei grego Antíoco IV, apoiado por um grupo de judeus helenizados, decretou o fim do judaísmo. Imaginem: depois do ano 176 a.C, no império grego, o Templo de Jerusalém foi consagrado a Zeus. A população judia que ficou fiel a Javé, o Deus da Aliança, foi perseguida. O sangue dos mártires se derrama. Então, o autor do livro de Daniel conta os fatos e os interpreta utilizando o estilo apocalíptico. Para ele, trata-se do fim dos tempos, do combate do final que acontecerá com a vitória final do Javé sobre as forças do mal, sobre as divindades pagãs.

A passagem que lemos hoje conta a intervenção divina por intermédio do arcanjo Miguel, o chefe das legiões celeste. No momento em que parece perdido, Israel será salvo por Deus. Porém, surgiu um grande problema. Vocês sabem que os judeus não acreditavam na ressurreição após a morte. Eles acreditavam em uma espécie de retribuição nesta vida, segundo o bem ou o mal que eles faziam, de maneira que, se alguém era bom, Deus abençoava a ele e a sua família. Ele o protegia do mal. Se ele era ruim, Deus o amaldiçoava por toda a vida. Mas eis que durante esse período grego muitos juízes foram martirizados por causa da sua fidelidade ao Deus da Aliança. O que acontecerá com esses que morreram mártires? Eis ali que nasce a ideia da ressurreição. Não é possível que os mártires tenham morrido em vão! O profeta Daniel escreve: “Muitos que dormem no pó despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a infâmia eternas” (Dn 12,22).

Para os crentes desta difícil época, trata-se de uma questão de justiça: os que ficaram fiéis a Deus devem ser recompensados e os que os martirizaram devem ser punidos. O conceito de retribuição que se aplicava só para esta vida se estendeu para além da morte até a ressurreição. Essa fé na ressurreição individual será adotada pelo judaísmo de tendência farisaica, enquanto que ela será rejeitada pelos saduceus. Podemos vê-lo no evangelho de Marcos, quando os saduceus fazem uma pergunta a Jesus sobre a mulher que morre e que teve sete maridos... Com qual ficará na outra vida? (Mc 12,18-27).

Por outro lado, para os cristãos que leem o livro de Daniel, eles reconhecem o Cristo luz e mestre da justiça no versículo seguinte: “Os sábios brilharão como brilha o firmamento, e os que ensinam a muitos a justiça brilharão para sempre como estrelas” (Dn 12,3).

Apocalipse de Marcos

O evangelista Marcos tem também seu discurso apocalíptico não para predizer uma catástrofe, mas para anunciar um mundo novo. A volta do Senhor que Marcos anuncia, justo antes de iniciar o discurso da paixão de Jesus, é já o anúncio da Páscoa, da Ressurreição. É a vitória da vida sobre a morte; é o dia que vence a noite. É como se nós assistíssemos a um segundo nascimento do mundo, a uma nova criação, a um novo começo. E todo o cosmos participa: “Nesses dias, depois da tribulação, o sol vai ficar escuro, a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados” (Mc 13,24-25), e toda a criação está implicada: “Ele (o Filho de Deus) enviará os anjos dos quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu” (Mc 13,27).

Que quer dizer tudo isso? Marcos escreve seu evangelho em Roma, por volta do ano 70 a.C. O Templo de Jerusalém foi há pouco destruído pelos romanos, os cristãos são denunciados, torturados e massacrados pelos imperadores sucessivos: Nero, Cláudio, Domiciano e os outros. O que o evangelho anuncia não é uma catástrofe: trata-se do fim de um regime opressivo e desumano, e da vinda de um mundo melhor. Os astros que são vistos como divindades pelos romanos se movimentarão, e a salvação será oferecida a todos, sem exceção, dos “quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu” (Mc 13,27). E para mostrar bem que se trata de um mundo novo, de uma vida nova que surge, a comparação com a figueira não anuncia o outono e a estação da morte, mas a primavera deste mundo novo com todas as suas promessas de vida: “Aprendam, portanto, a parábola da figueira: quando seus ramos ficam verdes, e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto” (Mc 13,28). Então, se Cristo ressuscitou, e de fato assim ocorreu, visto que Marcos escreve após a Páscoa, vejam que o verão está próximo e que o mundo novo já nasceu mesmo se ainda não parece.

E quanto à questão de saber o momento quando aparecerá, o Cristo do evangelho de Marcos responde: “Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém sabe nada, nem os anjos no céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem sabe” (Mc 13,32). Isso quer dizer para todas as testemunhas de Jeová do mundo: Chega de predizer o fim do mundo! Não acontecerá absolutamente nada. Ao contrário, participem no crescimento de um mundo novo, que começa na Páscoa e que continua ainda hoje, através de nós. E a única maneira de participar nele é pelo nosso engajamento em fazer um mundo melhor, mais bonito, restabelecendo a justiça para todos, devolvendo a dignidade àquelas e àqueles que a perderam, mantendo a esperança que nos habita.

Terminando, na segunda leitura de hoje, que é continuação da leitura de semana passada, o autor da carta aos hebreus nos diz explicitamente que o sacrifício de Cristo sobre a cruz da Sexta-Feira Santa santifica àquelas e àqueles que o reconhecem: “De fato, com uma só oferta ele tornou perfeitos para sempre os que ele santifica” (Hb 10,14), e o perdão definitivo dos seus limites e dos seus pecados: “Ora, quando os pecados já foram perdoados, não é mais preciso fazer ofertas pelos pecados” (Hb 10,18). E é porque, diz o teólogo belga Jacques Vermeylen: “A partir desse texto cristológico é possível desenvolver uma reflexão sobre as práticas cristãs. O sacerdote cristão não é um especialista do sagrado como os da primeira Aliança e das outras religiões, e é por isso que falar do sacerdote dessa maneira é, pelo menos, ambíguo. Por outro lado, se for verdade que o sacrifício eficaz foi oferecido uma vez por todas por Cristo, então falar do sacrifício da missa não pode ser feito sem precauções”.

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