O mistério de Jesus

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13 Setembro 2012

O mistério de Jesus contém estes mistérios todos que somos cada um de nós e os ultrapassa. Ao mesmo tempo, põe às claras o sentido último de nossas vidas.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 24° Domingo do Tempo Comum - Ciclo B. A tradução é de Francisco O. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Isaías 50,5-9
Salmo 114
2ª leitura: Tiago 2,14-18
Evangelho: Marcos 8,27-35

Quem é este homem?

Pergunta estranha esta, mas que sempre fazemos, quando encontramos algum desconhecido. Para respondê-la, temos que passar por várias outras: de onde ele vem? De que país? De que meio social? Logo a seguir, vem a pergunta sobre o lugar e a origem: filho ou filha de quem? Seus pais vivem de fazer o quê? É a questão do ofício ou da profissão. E pode-se chegar até à posição política. Bom, depois de responder a todas estas perguntas, achamos que conhecemos tudo sobre aquele sujeito. Só que não é nada disto: o outro permanece sempre um mistério. Indo mais longe: até eu sou um mistério para mim mesmo. Acho que me conheço? Pura ilusão: afinal, nem mesmo os outros me veem da mesma forma como me vejo. E, seja para o bem, seja para o mal, ainda me pego dizendo: “veja só!”, não me achava capaz distol. Quase sempre, no que se refere aos outros, contentamo-nos com etiquetas: “é um padre” - ouço as pessoas dizerem de mim - vai, portanto, reagir deste ou daquele modo, vai dizer isto ou aquilo. De fato, todos sabem como nos portamos. As etiquetas nos dão segurança. Neste contexto é que devemos colocar a pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” A pluralidade das respostas - João Batista, Elias, um dos profetas - manifesta que os contemporâneos de Jesus não chegaram a classificá-lo. De Nazaré? Filho de José e de Maria? Carpinteiro? Mas nada disto corresponde ao que ele diz e faz. E, de novo, vamos encontrar a famosa questão da identidade que atravessa todos os evangelhos, até ao pé da Cruz. Jesus escapa a qualquer definição, a qualquer “classificação”.

“Tu és o Messias”

“E vós, quem dizeis que eu sou?” pergunta Jesus a seus discípulos. É evidente que estes que deixaram tudo para segui-lo não verão o seu Mestre do mesmo modo que os outros. Em Marcos, a resposta de Pedro em nome de seus companheiros é mais concisa do que em Mateus. Neste, Simão chega até a declarar Jesus como “o Filho do Deus vivo” (16,16). O que quer dizer a palavra “Messias”? Em primeiro lugar, Messias é aquele que recebeu a unção real ou sacerdotal. Um personagem de alguma forma “consagrado”. No tempo de Jesus, esperava-se a vinda de um “filho de Davi”, um herdeiro da realeza davídica que viria restituir aos israelitas a sua autonomia. Um libertador, portanto, mas também um soberano. Nos Atos dos Apóstolos (1,6), depois da crucifixão e da Ressurreição, os futuros Apóstolos perguntam a Jesus se é “agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?” Mal entendido que aparecia cada vez com maior facilidade, na medida em que Jesus falava do “Reino de Deus”. Não tinham chegado ainda a compreender o sentido desta expressão. Por outro lado, foi-se aos poucos concebendo o Messias como um personagem sobrenatural. De fato, com o passar do tempo, o “Filho de Davi” tinha herdado características do “Filho do homem”, nome que Jesus se dá com muita frequência, em particular no v. 31 de nossa leitura. Encontra-se esta expressão em vários outros textos bíblicos, mas aqui é preciso, sobretudo, lembrar Daniel 7,13-14: após a destruição de feras monstruosas que provocaram catástrofes - pensemos nos diversos impérios que oprimiram Israel, mas também nos “potentados e dominações” de que fala São Paulo - aparece nas nuvens do céu “um como Filho do homem” a quem “foi outorgado o poder, a honra e o reino”. Sendo, todas estas, palavras que surtem seus efeitos.

A verdade do Filho do homem

Falamos acima, do mistério que cada um de nós representa. O mistério de Jesus contém estes mistérios todos que somos cada um de nós e os ultrapassa. Ao mesmo tempo, põe às claras o sentido último de nossas vidas. Assim que Pedro declarou que Jesus é o “Messias” (o “Cristo”, em nossa linguagem herdada do grego), põe-se Ele a anunciar-lhes os seus sofrimentos, a sua morte e sua ressurreição. Porque o “de onde ele vem” (Nazaré, sua família, sua profissão) não é suficiente para revelar “quem ele é”. Só o “para onde vai” dirá a última palavra; última palavra que irá, enfim, permanecer um mistério. Última palavra igualmente sobre Deus: aprendemos que não somente Ele dá a vida. Mais ainda, que dá a Sua vida para nos fazer viver. Ser “Filho”, “imagem do Deus invisível”, Messias, Filho do homem, é isto. “Cristo” quer dizer rei, certo; mas seu poder real não se exerce sobre nós que, com Ele, somos “herdeiros do Reino” (cf. entre outros Romanos 8,17), mas sobre a morte e sobre tudo que nos é contrário, sobre tudo o que vai em direção à decadência. No fundo, aí está a nossa criação à imagem e semelhança de Deus, quer dizer, a nossa gestação como filhos que prossegue e atravessa todos os obstáculos destrutivos. Jesus compara o que vai se passar na Cruz com as dores do parto (João 16,21 e Romanos 8,22). Mas, no fim, temos sempre a vida. Jesus não quer que seus discípulos repitam que Ele é o Messias porque não estão ainda à altura de compreender estas coisas. É preciso que o Espírito Santo venha sobre eles.

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