De anjos e demônios

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27 Janeiro 2012

Jornalista espanhol, tendo em vista a leitura do Evangelho que será proclamado no próximo domingo nas igrejas católicas, "pede a todos aqueles que pregarão nas missas de domingo 29, que tentem fugir do disco quebrado de uma leitura e interpretação do Evangelho "ao pé da letra".

O artigo é de Honorio Cadarso, publicada no dia 25 de janeiro de 2012, no sítio Atrio. A tradução é de Susana Rocca.

Eis o artigo.

No domingo, 29 de janeiro, os pregadores deverão explicar um texto de Marcos (Mc 1, 21-28), que conta como Jesus, na sinagoga de Cafarnaum, expulsou um demônio de um possuído e falou com autoridade.

O Novo Testamento está cheio de páginas de anjos e demônios: Miguel, Gabriel, Rafael, serafins, querubins, arcanjos.  Lúcifer, Satanás, entre outros.  O Antigo Testamento começa em Gênesis com a história do demônio que se disfarçou de serpente e enganou Eva.

Se olharmos para outras religiões, quase todas estão cheias de seres intermediários entre os deuses e os humanos e o mundo natural: a cultura greco-romana fala de ninfas, sátiras, semideuses... Das religiões indígenas talvez possa se dizer alguma coisa semelhante; e as das culturas da América; a mitologia basca está cheia de lâmias e "gentis".

A cultura galega e muitas outras povoam o universo de almas penadas. As almas dos nossos falecidos continuam a viver e, falando conosco em sonhos, elas nos abordam nos momentos em que nos sentimos sós...

A cultura moderna distanciou-se dessas imagens sacralizadas e criou seus “anjos” leigos, uns seres poderosos que substituem o “deus ex machina” como Superman, Spiderman, os pitufos ou o Bob Esponja.

Como situarmos diante desses mundos pensados, ou talvez melhor dizer “sonhados“, “fantasiados”?

Vale a pena ler ou, se nós já tivermos lido, reler a história-poema de García Lorca, onde ele conta como a Guarda Civil massacrou os ciganos de Jerez: ali Nossa Senhora leva uma capa de papel de chocolate, São José uma outra de seda, e ambos os dois se dedicam a recolher os ciganos feridos na caverna de Belém e a curá-los com salivinha de estrelas e outras pomadas maravilhosas. E logo poderíamos ler os poemas que García Lorca dedica a São Gabriel, de Granada e a São Miguel, que eu acho que é de Sevilha, e a São Rafael, que creio que é de Córdoba. E, em seguida, deveríamos ler a Ode ao Santíssimo Sacramento. Garcia Lorca aborda o tema da religião num linguajar entre sonhador e contador de histórias, no entanto, mostra um respeito e consideração muito grandes com aqueles que acreditam nisso. Não esqueçamos que, a partir da sua incredulidade e agnosticismo, Federico era um amigo íntimo do fervoroso Manuel de Falla...

Talvez os endemoniados do evangelho fossem simplesmente vítimas de ataques epiléticos... Talvez aquele episódio em que se diz que uma tropa de demônios tomou posse dos corpos de um rebanho de porcos e levaram todos eles para se afogar no mar, carece de historicidade...

A dicotomia entre anjos e demônios parece supor que no mundo governam ou lutam dois princípios opostos, o Bem e o Mal. Em qualquer caso, a superabundância de anjos em todos os cantos da vida e do universo não combina com a autonomia que nós pensamos que Deus deu ao mundo que Ele criou e que ele viu que era bom, que ficou bem feito. A gente pensa que esses seres intermediários não têm significado num mundo assim. Como entender as tentações que teve Jesus, no início da sua vida pública, quando dizemos que o diabo o levou ao pináculo do templo e a um monte muito alto?

A gente pensa que os problemas que enfrentamos neste mundo não podem ser resolvidos pela intervenção de nosso anjo da guarda ou do padroeiro dos viandantes, São Rafael. Para cada mistério e problema é preciso encontrar uma resposta e uma solução científica. A gente pensa que o mal não se cura com exorcismos, mas com tratamentos médicos ou cirúrgicos. Em lugar de pedir ao Todo-Poderoso que mande os demônios longe do Afeganistão ou do Irã ou de Wall Street e do mundo empecatado dos Mercados, do Standard um Poors e de Moodys, o que deveria ser feito é promover reformas econômicas e políticas para acabar com todas essas desordens...

Eu não me preocupei de ler no catecismo moderno o que Ele diz sobre anjos e demônios. A intenção aqui também não é de dar respostas definitivas, mas sim levantar questões, hipóteses de trabalho. E pedir a todos aqueles que pregarão nas missas de domingo 29, que tentem fugir do disco quebrado de uma leitura e interpretação do Evangelho "ao pé da letra".

A gente pensa que o famoso princípio do Mal, no qual os maniqueístas parecem acreditar, é um ser fictício, que o ser humano carrega dentro de si o seu próprio demônio que o empurra ao mal, carrega em si mesmo a limitação, a finitude e a doença.

O ser humano se depara, se encontra de cara com o mundo criado e com seus pares e com o outro lado do seu próprio ser, aquele que sustenta e dá o ser à sua própria existência... Esse que alguns chamam de Deus.

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