Os novos "pacifistas"

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23 Março 2011

Pombas à direita, falcões à esquerda. Diante do ataque à Líbia, a frente dos antimilitaristas muda de eixo na Europa. Políticos e intelectuais passam a assumir papéis diferentes do passado.

A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 23-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O uso da força é legítimo, necessário". Quem fala assim não é um defensor da guerra, mas sim o chefe do governo ocidental que marchou pela primeira vez no Iraque. O discurso do socialista José Luis Zapatero ao parlamento espanhol representa bem o estranhamento do povo pacifista nestas horas.

A intervenção na Líbia foi aprovada nesta terça-feira em Madri com apenas três votos contrários e uma abstenção, contestado só por um exíguo grupo de pacifistas. O primeiro-ministro espanhol também passa a fazer parte dos novos intervencionistas de esquerda, enquanto na direita europeia, não só na Itália, avançam os pacifistas reais, de mãos dadas com o niet da Alemanha de Angela Merkel. A intervenção militar na Líbia muda as posições, inverte as partes comumente determinadas, impõe novas distinções, talvez até arquiva categorias do passado.

Como nos tempos da guerra do Kosovo, depois do Afeganistão e do Iraque, a frente no war é atravessada por proclamações, mas também por dúvidas e afrontas espalhadas dispersamente em sua quarta guerra em pouco mais de uma década. O movimento pacifista, que o New York Times definiu como a "segunda potência mundial", se descobre frágil em seu interior. Desta vez, a mobilização tem dificuldade para começar, talvez porque muitos ainda têm nos olhos as imagens da TV de Kadafi que trata os opositores como "ratos" a serem exterminados em um "banho de sangue".

O que complica o quadro hoje é o mandato da ONU, que faltava para o Iraque e de algum modo legitima a "responsabilidade de proteger" as populações civis, também com o uso da força. Hesitações que desencadearam as inevitáveis ironias dos norte-americanos, que viram os europeus sair às ruas contra as "suas" guerras. "Quem fim tiveram os pacifistas?", se pergunta a revista Atlantic Monthly.

Os pacifistas "tout court"

"Quando começa um conflito, há sempre um momento de oscilação e reflexão. Com o Iraque também foi assim", conta o militante britânico Andrew Burgin, da Stop the War Coalition, de Londres. " Mas logo as pessoas começarão a se perguntar qual é o verdadeiro motivo pelo qual estamos bombardeando a Líbia e então entenderão que as vítimas civis são só um pretexto para interesses econômicos sujos".

O pacifismo puro e duro reagiu com abaixo-assinados que circulam online. A Itália será o primeiro país a representar nas ruas a ala mais intransigente à guerra com a manifestação de sábado, liderada pela Emergency, a associação Libera do Pe. Luigi Ciotti e a Pax Christi. "O tema da paz foi apagado da política e da informação – explica Flavio Lotti, da Tavola della Pace –, mas isso não significa que não tenha se radicado na consciência de milhões de pessoas. Se a guerra tivesse que estourar a sério, estou certo de que fariam ser ouvidos".

Não é um conflito como os outros, isso é certo. E então, também entre nós, ocorrem contatos entre pessoas portadores de histórias muito diferentes entre si. "Nós que somos cidadãos de um país que porta grandes responsabilidades pela situação que historicamente se criou na Líbia, nos declaramos disponíveis para sustentar toda ação legítima que contribua para frear o derramamento de sangue e para encontrar uma solução política para a crise, enquanto declaramos a nossa firme contrariedade a toda ação bélica conduzida pelo exterior contra um país soberano".

Esse é o início de um apelo lançado por Giulietto Chiesa, jornalista e ex-deputado europeu, comunista, que não por acaso o define como "parece comum de cidadãos privados" e o intitula Unidos, mas diferentes. Porque, quem o assina, dentre outros, são pacifistas plenos como o padre Alex Zanotelli, ao lado de Angelo Del Boca, escritor e historiador do colonialismo italiano, e um ensaísta como Massimo Fini.

Como a Espanha de 1936

Em toda guerra, reproduzem-se as lacerações no povo de esquerda. Mas hoje tudo é diferente. Para alguns, o apoio aos rebeldes de Bengasi, com a esperança de um futuro democrático para a Líbia, é obrigatório. "Eles têm os nosso próprios valores, querem liberdade e democracia. É preciso impedir que um tirano despedace a revolução", diz Jean-Luc Melenchon, nova estrela da extrema esquerda da França.

E eis, portanto, o paradoxo dos pacifistas do Partido Verde alemão que criticam a chanceler por não ter participado da coalizão que está bombardeando Trípoli. "É escandaloso ser chamado para fora", diz o ex-ministro do Exterior, Joschka Fischer. Para o outro expoente de destaque do partido, Daniel Cohn-Bendit, intelectual também na França, corre-se o risco de repetir o erro de 1936, quando a Madri democrática foi deixada sozinha contra o putsch de Franco. O exemplo dos novos intervencionistas de esquerda vem justamente da Espanha, com Zapatero, o ex-pacifista, convertido à guerra na Líbia.

A direita não belicista

Por conveniência, porque em primeiro lugar vêm os interesses nacionais. É a verdadeira novidade dessa guerra. A abstenção da Alemanha na ONU durante a votação da resolução sobre a Líbia fez escola. Angela Merkel dividiu a seu própria formação. "A nossa discussão sobre o voto sobre a Líbia me entristece", comentou a chanceler ao longo de um encontro da CDU. "Foi uma escolha feita com argumentos ponderados". Mais do que um pacifismo ético, é uma escolha ditada por interesses materiais e não ideológicos, aos quais a Lega e também alguns jornais de direita também fazem referência. Não é uma oposição à guerra "tout court", mas sim a recusa a essa guerra.

Intervencionistas diferentes

É o pacifismo "realista", que prevê a intervenção humanitária para frear mais massacres de civis e libertar o povo líbio do Nero de Trípoli. A condição para todos é o mandato da ONU, que cunhou propositalmente um novo princípio, inaugurado com essa guerra: a responsabilidade de proteger os civis. É uma posição à qual diversas associações humanitárias estrangeiras fazem referência, dentre as quais a Medecins du Monde.

É uma escolha sem "se" e com alguns "mas", como a do presidente das ACLI, Andrea Olivero. "O comando das operações na Líbia deve passar o antes possível para a ONU: só as Nações Unidas podem garantir a transparência e a legitimidade internacional de uma intervenção que tenha verdadeiramente e somente objetivos humanitários".

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