Obama no túmulo de Romero: uma "oportunidade perdida"

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23 Março 2011

A visita do presidente norte-americano Obama ao túmulo do arcebispo salvadorenho Oscar Romero, nesta terça-feira, tem sido descrita como "uma das paradas mais simbólicas" e como "o gesto mais dramático" dos seus cinco dias de viagem pela América Latina.

O comentário é de Linda Cooper e James Hodge, autores de Disturbing the Peace: The Story of Father Roy Bourgeois and the Movement to Close the School of the Americas [Perturbando a Paz: A História do Padre Roy Bourgeois e o Movimento para Fechar a Escola das Américas]. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 23-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

O presidente salvadorenho, Mauricio Funes, que acendeu velas com Obama no túmulo, no interior da Catedral de San Salvador, elogiou o seu homólogo norte-americano por prestar sua homenagem a Romero, cujas denúncias públicas dos militares salvadorenhos resultaram em seu assassinato no dia 24 de março de 1980.

A grande imprensa dos EUA caracterizou a visita como um tributo ao prelado, enquanto o atual arcebispo salvadorenho, José Luis Escobar, que acompanhou Obama a pedido da Embaixada dos EUA, chamou-lhe de "um evento global" e não um gesto político.

Mas para o padre maryknoll Roy Bourgeois, a visita foi, na melhor das hipóteses, uma oportunidade perdida. Sua organização, o SOA Watch [Observatório da Escola das Américas, na sigla em inglês], revelou que os assassinos de Romero foram treinados na Escola das Américas do Exército dos EUA, hoje chamada de Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança - WHINSEC.

"Eu e muitos outros ativistas dos direitos humanos estávamos esperançosos", disse, de que Obama reconheceria "que Romero e milhares de pessoas foram mortas, torturadas e desapareceram pelos graduados da escola".

O Relatório da Comissão da Verdade das Nações Unidas de 1993 sobre o El Salvador descobriu que os militares salvadorenhos armados e treinados pelos EUA mataram dezenas de milhares de civis em uma tentativa sistemática para eliminar os seus adversários políticos. Quarenta e sete dos 66 oficiais citados como autores das maiores atrocidades haviam se graduado na SOA (Escola das Américas), incluindo os assassinos de quatro religiosas norte-americanas, seis padres jesuítas e centenas de civis, a maioria mulheres e crianças, no vilarejo de El Mozote.

A visita de Obama "poderia ter sido um momento histórico", disse Bourgeois, semelhante ao raro pedido de desculpas do ex-presidente Clinton pelo papel dos EUA no treinamento e no armamento das forças de segurança guatemaltecas que mataram mais de 200 mil civis.

"Obama nem sequer reconheceu e muito menos se desculpou pelo papel dos EUA no El Salvador", disse Bourgeois.

Antes de chegar a El Salvador, Obama visitou o Chile, onde se recusou a fazer um pedido de desculpas pelo golpe de Estado apoiado pelos EUA que levou Augusto Pinochet ao poder. Há muito tempo, um comitê do Senado dos EUA confirmou que a CIA havia orquestrado o golpe, e os arquivos da SOA mostram que centenas de oficiais chilenos passaram pela escola nos 24 meses anteriores ao golpe de 1973.

Obama se recusou a pedir desculpas, apesar do fato de ter dito aos chilenos que um ingrediente necessário para criar uma democracia é a "responsabilização por erros do passado".

Essa afirmação deixou Bourgeois perplexo, assim como outra afirmação de Robert White, o embaixador dos EUA em El Salvador no tempo dos assassinatos das religiosas norte-americanas. White qualificou a visita de Obama ao túmulo de Romero como "uma declaração de que os Estados Unidos não está mais identificado com os governos oligárquicos".

Por mais que ele quisesse acreditar nisso, Bourgeois disse que os fatos mostram o contrário.

De fato, no verão de 2009, Obama apoiou e assistiu aos militares hondurenhos que derrubaram o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya, o primeiro golpe militar de sucesso na América Latina no século XXI.

Embora Obama tenha denunciado o golpe como ilegal, sua administração permitiu que oficiais de Honduras continuassem treinando na SOA/WHINSEC – apesar do fato de que o Foreign Operations Appropriations Act [lei de alocações em territórios estrangeiros] exija que o treinamento norte-americano seja suspenso quando um país sofre um golpe militar.

O general que derrubou Zelaya – Romeo Orlando Vásquez Velásquez – e vários de seus cúmplices foram formados na SOA, apelidada pelos seus críticos de "escola dos golpes".

A visita de Obama ao túmulo de Romero conseguiu irritar a direita salvadorenha. Mario Valente, ex-membro do partido direitista Arena, disse ao jornal El Mundo que "metade dos salvadorenhos não acreditam Romero seja digno de santificação" e que Obama "também deveria visitar o túmulo do major Roberto d`Aubuisson".

D`Aubuisson, um graduado da SOA, foi citado pela Comissão da Verdade da ONU como o oficial que ordenou o assassinato de Romero.

A conservadora agência Fox News indicou uma razão pela qual Obama estava inclinado a visitar El Salvador e seu presidente de esquerda. Obama, disse a agência, precisa de um parceiro na região, e formar uma aliança com o pragmático Funes isolaria o presidente venezuelano Hugo Chávez e diminuiria sua influência na América Latina.

Seja quais forem as razões de Obama, Bourgeois espera que a sua visita torne-o mais inclinado a fechar o centro de treinamento militar. O SOA Watch programou uma manifestação em frente à Casa Branca no dia 10 de abril para apelar para que Obama feche a escola por uma ordem executiva.

"Dom Romero disse que aqueles que tem voz devem usá-la", disse Bourgeois. "Obama tem uma voz poderosa". Se a tentativa não foi a de tirar proveito da proeminência internacional de Romero, não haverá melhor maneira de mostrar isso do que "fechando a escola que treinou os seus assassinos".

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