De "autoritário" a "fraternal": os desafios do papado no século XXI. Entrevista especial com Hermann Häring

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17 Janeiro 2010

Monocrático, antimodernista, proselitista, conservador, autoritário... Se nos deixássemos levar apenas pelos adjetivos dados por Hermann Häring ao atual Papa Bento XVI, poderíamos pensar que sua avaliação do atual pontificado é, pelo menos, parcial. Mas o teólogo alemão também reconhece que o Papa publicou "documentos respeitáveis", que são reconhecidos "dentro e fora da Igreja". E também estima a "coragem" de Bento XVI ao falar sobre os vários temas pendentes atualmente.

Porém, Häring não se deixa levar por aquilo que o Papa faz, mas questiona, no fundo, aquilo que o Papa, como figura histórica, é. "A Escritura Sagrada não entende o serviço de Pedro como sistema absolutista", afirma. É por isso que ele também critica as concepções teológicas e ideológicas centrais de Ratzinger, que, segundo ele, "continuam presas aos anos dos seus estudos acadêmicos", afirma ele em entrevista, por email, à IHU On-Line.

No início deste ano, Häring causou polêmica ao afirmar, depois do escândalo Wiliamson, que o Papa deveria renunciar. Mesmo que a renúncia de um Papa continue sendo um tabu, o teólogo afirma que ela é "possível em princípio". E afirma que se deveria discutir abertamente sobre essa questão. "Afinal – explica –, regras comparáveis vigoram também para bispos e para os cardeais da Cúria".

Hermann Häring é teólogo e diretor do Instituto para Religião, Ciência e Cultura da Universidade de Nijmegen, Holanda. É também um dos colaboradores externos da Fundação de Ética Mundial, em Tübingen, na Alemanha, exercendo o cargo de conselheiro científico. Graduado em Filosofia pelo Pulach de Munique, especialista em Hegel, é diplomado em Teologia pela Universidade de Tübigen. Algumas de suas obras são "Zum Problem des Bösen in der Theologie" (Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1985), "Hans Küng. Grenzen durchbrechen" (Matthias-Grünewald-Verlag, 1998) e "Theologie und Ideologie bei Joseph Ratzinger" (Patmos Verlag, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre o papado de Bento XVI, após seus primeiros cinco anos? Para onde ele está conduzindo a Igreja Católica?

Hermann Häring – Bento XVI conduz a Igreja de forma autoritária e segundo critérios eurocêntricos, conservadores. Seu objetivo é o retorno para uma Igreja pré-moderna e de orientação helenística. O Concilio Vaticano II, para ele, não é um começo para reformas mais amplas, mas o limite máximo que de forma alguma deve ser ultrapassado. Isso se mostra nas seguintes características:

  1. Suas sérias reservas diante de iniciativas ecumênicas (as igrejas da Reforma, para ele, não são Igreja);
  2. Sua crítica maciça à exegese científica (seu livro sobre Jesus estagna no estado [da pesquisa] do início dos anos 60);
  3. Ele demonstra grande simpatia pela liturgia latina (com o que ele apresenta grande afinidade com os lefebvrianos);
  4. Sua crítica teológica às religiões não-cristãs;
  5. E seu distanciamento da democracia moderna.

Se a Igreja seguisse seus objetivos, ela acabaria novamente num gueto anti-modernista.

IHU On-Line – O que o senhor pensa sobre as ideias teológicas e ideológicas de Ratzinger? Suas ideias são adequadas ao século XXI?

Hermann Häring – As concepções teológicas e ideológicas centrais de Ratzinger até hoje continuam presas aos anos dos seus estudos acadêmicos (1946-1957). Os Padres da Igreja, com sua concepção de Igreja sacramental e concentrada no ministério episcopal, constituem a fonte principal da sua inspiração. Para ele, a Igreja europeia continua sendo o centro e a medida da Igreja universal. Além disso, ele considera a história da Europa uma história de decadência, com as seguintes etapas funestas: Reforma, Iluminismo, Revolução Francesa, democratização, ditadura do relativismo, separação entre Igreja e Estado. Com essa perspectiva, o Papa não conduz a Igreja para dentro do século XXI, porque os problemas políticos e sociais, inter-religiosos e interculturais deste século deixam de ser levados em consideração. Ele não orienta para o futuro de uma humanidade livre da violência, socialmente justa e reconciliada na paz.

"Se a Igreja seguisse os objetivos de Bento XVI, ela acabaria novamente num gueto anti-modernista"

IHU On-Line – Como o senhor analisa a relação da Igreja com os lefebvrianos, anglicanos e ortodoxos? O que isso indica para o futuro do ecumenismo do séc. XXI?

Hermann Häring – Já como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger passou anos negociando com os adeptos de Lefèbvre. Sua atenção estava estritamente voltada para a obediência formal à verdadeira fé, ao Papa e ao Concilio, mas nunca se falou concretamente sobre as posições antissemitas e anti-ecumênicas, antimodernistas e antidemocráticas desse grupo, nem sobre sua rejeição da liberdade religiosa. Isso mostra quão formal e egocêntrico é o pensamento que vigora em Roma.


Marcel Lefèbvre
A oferta de acolher sacerdotes e bispos anglicanos dissidentes num estatuto próprio na Igreja Católica não só denota extrema insolência e falta de sensibilidade frente a Canterbury [sede da Comunhão Anglicana], mas também mostra o ideal proselitista do Papa em termos de "ecumene", qual seja: volta de todos os cristãos para a casa paterna católica, que continua rejeitando por princípio a ordenação de mulheres ao sacerdócio, bem como o homossexualismo.

Também frente às Igrejas ortodoxas o Papa vê nas concepções católico-romanas o único critério a ser adotado por elas. Bento XVI continua sustentando, sem concessões, o primado jurídico do Papa sobre todos os demais chefes de Igreja. Com base nisso, ficam impossíveis diálogos que mereçam a qualificação de abertos e fraternais.

IHU On-Line – Como Ratzinger lida com seu papel monocrático à frente da Igreja? Podemos esperar um sistema de governo diferente para a Igreja nas próximas décadas?

Hermann Häring – Jamais a Igreja Católica foi conduzida de forma tão monocrática como hoje. Dando continuidade a João Paulo II, Bento XVI continuou intensificando o papel monocrático de Roma por meio de modificações no direito canônico e forte sistema de informações. Sob as condições antirreformadoras da Era Moderna, esse sistema talvez ainda tenha sido eficiente. Considerando um mundo pluralizado e a autoconfiança cada vez maior das outras igrejas, essa monocracia ficará inócua nas próximas décadas. Para o futuro, precisamos de um sistema plural: é preciso conceder ampla autonomia às demais Igrejas, extremamente distintas em termos históricos, culturais e sociais. Seus lideres (patriarcas ou presidentes das respectivas conferências episcopais e sínodos) precisam receber poder de decisão bem dosado no seio de sistemas participativos. O modelo da Igreja antiga, estruturada em cinco patriarcados, poderia servir de modelo. O ministério de Pedro, do bispo de Roma, então, poderia ganhar autoridade e força integradora.

"A oferta de acolher anglicanos dissidentes não só denota extrema insolência e falta de sensibilidade, mas também o ideal proselitista do Papa em termos de `ecumene`"

IHU On-Line – A Igreja parece teológica e liturgicamente confusa na cultura e sociedade de hoje. Como Bento XVI dialoga com ideias diferentes e inovadoras de teólogos e pensadores?

Hermann Häring – Um problema considerável do atual pontificado está em sua condução monologal e teologicamente inflexível. Via de regra, o Papa rejeita novas ideias teológicas por considerá-las fonte de crises da Igreja e de fé, ideologizando suas próprias concepções conservadoras como verdadeira doutrina, legitimada pela Tradição. Ele não se entende como árbitro a proteger a discussão objetiva de ideias teológicas. Antes, ele se enxerga como sumo-teólogo, ao qual outras teologias precisam se subordinar; portanto ele confunde a doutrina eclesial com posições teológicas, um catecismo abrangente com compêndios teológicos; desse jeito não há como se formar um diálogo real.

Praticamente fica impossível, também, discutir abertamente sobre as imbricações teológicas (e litúrgicas) da Igreja com a cultura, ou elaborar novas liturgias, adaptadas às culturas. Entre muitos teólogos, instalou-se novamente um clima de medo e de autocensura. Isso lembra muito os últimos anos de pontificado extremamente autoritário de Pio XII, falecido em 1958, e cujo regime mostrou a necessidade de um Concilio (1962-1965). Há muitas evidências de que atualmente esse ritmo se repete.

IHU On-Line – Quais são os principais "sinais dos tempos" que estão esperando por uma resposta da Igreja hoje? Como a Igreja pode lidar com o mundo e a sociedade contemporânea numa época de fluidez e incertezas?

Hermann Häring – Os mais importantes "sinais dos tempos" hoje são:

  1. O equilíbrio ecológico da Terra;
  2. As consequências políticas dos processos de globalização industrial e econômica;
  3. Os consequentes problemas de justiça e participação global;
  4. O risco de explosão da violência entre grupos concorrentes (culturas, religiões, continentes); e
  5. O chamado para uma orientação ética conjunta, sustentada pelas religiões e por outros sistemas cosmovisivos.

A Igreja somente poderá participar efetivamente da solução de problemas se ela cooperar com as outras religiões universais e buscar a competência ética comum. A Igreja Católica também precisa abandonar a noção de possuir uma ética concluída, que possa ser aplicada ao mundo inteiro. Mas no diálogo universal ela pode dinamizar suas regras fundamentais (não-violência, justiça, veracidade e fidelidade recíproca) de maneira tal que seus membros possam desenvolver novas experiências e competências com outras pessoas de boa vontade em nível local. O mundo não espera por um sistema ético universal, mas sim por redes e raízes de um engajamento solidário e humanitário, sustentado por uma inabalável confiança na solidariedade e no humanitarismo de Deus. Só que essa meta pressupõe o abandono de todas as pretensões autoritárias de liderança.

"Jamais a Igreja Católica foi conduzida de forma tão monocrática como hoje. Bento XVI intensificou o papel monocrático de Roma por meio de modificações no direito canônico e forte sistema de informações"

IHU On-Line – Depois do escândalo do bispo lefebvriano Richard Wiliamson, o senhor disse que o papa deveria renunciar: "Se o papa quiser fazer algo de bom para a Igreja, ele deveria renunciar". O senhor continua pensando assim, passados os desdobramentos do caso? Por quê?

Hermann Häring – Os inúmeros protestos contra a reconciliação oficial de Roma com um bispo antissemita infelizmente de nada adiantaram. Em vez de revogar a infeliz decisão, Bento XVI interpretou a onda de protestos como agressividade malévola contra ele. Para mim, como teólogo alemão, esse comportamento continua sendo indigno do cargo de Papa. Continuo achando insuportável e nefasta a situação atual. Bento XVI deveria saber que prejudicou muitíssimo o prestigio do seu próprio cargo e da Igreja Católica, e continua fazendo isso. A rigor, seus críticos argumentam não contra ele, mas a seu favor. A próxima crise pode ser prevista para quando se agilizar a beatificação de Pio XII. O mundo judaico mais uma vez se sentirá humilhado, desacatado.

Sou realista e naturalmente sei que o clamor de alguns católicos sem maior importância no sentido de que o Papa renuncie não terá êxito. A renúncia de um Papa continua sendo tabu, embora seja possível em princípio. Por diversas razões (saúde, idade, condução adequada do ofício), se deveria discutir abertamente sobre a questão, sob quais condições um Papa pode ou deve renunciar. Afinal, regras comparáveis vigoram também para bispos e para os cardeais da Cúria; além disso, dogmáticos e juristas eclesiásticos de séculos anteriores inclusive refletiram intensivamente e sem inibições sobre a deposição do Papa. A Escritura Sagrada não entende o serviço de Pedro como sistema absolutista.

"Outras encíclicas deveriam ser preparadas por meio de consultas mundiais. Dessa forma, poderiam ganhar visibilidade as vozes de diferentes culturas e continentes"

IHU On-Line – Até agora o papa publicou três encíclicas: "Deus caritas est" (2005), "Spe salvi" (2007) e "Caritas in veritate" (2009). Como o senhor analisa seus textos pontificais diante das necessidades contemporâneas do povo católico?

Hermann Häring – Com suas três encíclicas, o Papa publicou documentos respeitáveis, que gozam de amplo reconhecimento dentro e fora da Igreja. Particularmente estimo a coragem com que Bento XVI, em "Caritas in Veritate" falou sobre numerosos temas simplesmente pela razão de estarem pendentes atualmente. Entretanto, os teores das três encíclicas, em principio, eram previsíveis e ficaram presos, em grande parte, às limitações do seu pensamento eurocêntrico. Infelizmente, abordagens contextuais e de política emancipatória praticamente não são lembradas. Assim, [essas encíclicas] não trouxeram avanço real em nosso encontro com o mundo.

Por isso, outras encíclicas deveriam ser preparadas por meio de consultas mundiais (abertas ou confidenciais). Dessa forma, poderiam ganhar visibilidade as vozes de diferentes culturas e continentes. Assim, se iniciaria um diálogo autêntico, no seio da Igreja, e a autoridade do Papa sairia fortalecida. Então ficaria claro, pela primeira vez, que, correspondendo às exigências do século XXI, esse Papa escuta as vozes de todas as demais Igrejas e fá-las entrar em diálogo. Esse seria o início de uma troca de paradigmas de um serviço de Pedro autoritário para um fraternal.

(Entrevista de Moisés Sbardelotto. Tradução de Walter O. Schlupp)

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