"O lado de esquerda de Macron ficou absorvido pelos seus traços de direita". Entrevista com Eric Maigret

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11 Dezembro 2018

Por essas horas a França está revirada. A mobilização dos “coletes amarelos” contra o aumento dos combustíveis segue em pé apesar de o governo ter voltado atrás. E isso ocorre porque, ainda que tenha sido um ponto de ruptura, o mal-estar da sociedade francesa não começou este mês. Emmanuel Macron, apontado hoje como o principal responsável pela situação, foi também um emergente desse mal-estar dos franceses sobre o estado das coisas. Há um ano e meio ele chegou à Presidência como um outsider do sistema partidário, embora não do sistema econômico, que logo obteve maioria absoluta inédita no Parlamento. Foram tempos em que se anunciou o final da representação política tradicional, mas também uma nova era em torno de um presidente com ares monárquicos. Agora que a governabilidade de Macron está nas suas horas mais críticas, o sociólogo Eric Maigret, pesquisador da Universidade Sorbonne Nouvelle de Paris, contextualiza o fenômeno Macron desde sua irrupção até sua crise atual.

Eric Maigret, pesquisador da Universidade de Sorbonne Nouvelle de Paris e principal referência dos estudos culturais na França. Desde que Emmanuel Macron apareceu na política do seu país, estuda suas características e as dificuldades para defini-lo.

A entrevista é de Iván Schulianguer e Natalia Aruguete, publicada por Página/12, 10-12-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Meios, cultura e política

Em um mundo cada vez mais difícil de compreender através dos relatos globais, Eric Maigret é especialista em mover-se entre as fronteiras da sociologia, da ciência política e da comunicação. Principal referência na França sobre estudos culturais, autor de livros ineludíveis em sua disciplina, visitou a Argentina no marco de uma investigação sobre meios de comunicação e política que realiza com a Universidad Nacional de Geral Sarmiento - UNGS. Desde a irrupção de Emmanuel Macron na política francesa, Maigret estuda as características do presidente francês, assim como as dificuldades que os setores políticos e jornalísticos encontram para defini-lo. Macron é um centrista de direita e de esquerda como foi Giscard d’Estaing? Éle é o Tony Blair da França? Ele é filho de François Hollande, um homem sem decisão, que é socialista e neoliberal ao mesmo tempo? Um Sarkozy light, autoritário e apaixonado por si mesmo? O novo general de Gaulle, a figura que chega sem partido e restabelece as instituições? Ou é o presidente da uberização e do capitalismo de plataformas? Com um país mobilizado e sem horizonte claro sobre quais serão as consequências políticas, Maigret mostra como as ações de Macron permitem dar algumas respostas.

Eis a entrevista.

Como surge Emmanuel Macron no panorama francês e em função das clivagens entre esquerda e direita?

Há distintas maneiras de pensar na irrupção de Emanuel Macron em vários planos. Por um lado, é um homem muito jovem, tem 40 anos. Foi, de certa forma, uma maneira de refrescar a política francesa, e, ainda que estivesse ligado fortemente ao Partido Socialista, é alguém que não vem dos partidos políticos. De toda maneira, seu discurso mudou várias vezes. Por exemplo, durante a campanha, no início ele dizia: “eu não sou nem de esquerda, nem de direita”, em parte porque a esquerda e o socialismo estavam muito associados à crise do governo de Hollande e porque a direita estava desacreditada também por questões ligadas à moral. Dessa primeira identificação ele passou a dizer, antes de ser eleito: “eu sou de esquerda e de direita ao mesmo tempo”. Essa mescla que propunha mostrava a efetividade do seu pragmatismo. Não obstante, à medida que vemos seu agir, alguém pode dizer que suas políticas recaem para a direita, sobretudo de uma direita liberal. E seu lado de esquerda – tomou algumas medidas de esquerda – ficou subordinado e absorvido por seus traços de direita de modo cada vez mais pronunciado.

Por que esse pragmatismo se torna um posicionamento de direita com decisões neoliberais como as que vimos recentemente? Quais aspectos desse lado de esquerda ficaram subordinados?

Até agora se tratou de um melhor acomodamento a um discurso neoliberal, e dentro desse discurso neoliberal, tem a ideia de que a França tem que ser um país mais competitivo e libertar suas forças criativas. As medidas principais são supressão do imposto às grandes fortunas, mudanças na maneira de contratar, maior facilidade para tirar os empregados de parte das empresas. As medidas de esquerda que tomou se relacionam com uma política focalizada em certos setores, com políticas específicas para escolas primárias com maior dificuldade e uma promessa para as classes populares de reduzir o imposto à moradia – que é especialmente importante para esse setor –, um imposto que todos pagam independentemente de serem proprietários ou locatários. As medidas para as empresas e para as pessoas das classes mais altas foram tomadas de imediato, enquanto a eliminação do imposto de moradia demora.

Como convive a “efetividade do pragmatismo” ao que você se refere com o surgimento dos chamados “coletes amarelos” e que efeitos têm os recentes acontecimentos na França sobre a popularidade de Macron?

A recente acentuação da inscrição neoliberal observada nas últimas medidas políticas tomadas por Macron se baseia em uma dupla aposta: a de uma mutação thatcheriana da população francesa, que estaria cada vez mais disposta a recorrer à livre empresa e ao regime de desigualdades sociais, e a ausência de uma reação forte e estruturada daqueles que seriam hostis a esse giro. Entretanto, como mostra o movimento dos coletes amarelos, Macron rapidamente encontrou um freio no país que segue ferozmente apegado ao imperativo – ou ao mito – da igualdade. De composição tipicamente laclausiana, a onda dos coletes amarelos se reúne por meio das redes sociais, isto é, anonimamente, fracamente coordenada e sem unidade ideológica, a indivíduos e grupos que vão da extrema esquerda à extrema direita que reivindicam o freio a impostos espoliadores, um aumento do poder de compra, que se ponham impostos à GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon), o restabelecimento dos serviços públicos nos espaços que não aparecem (sobretudo a zona rural), um controle mais estrito da imigração... Essa resistência social não prevista por Macron toma por surpresa um poder pouco experimentado e, ao contrário do que se pode ter pensado, pouco pragmático, ao que custa fazer o que fizeram os poderes anteriores, de Miterrand a Hollande, passando por Chirac e Sarkozy: ceder e conservar intacto, em parte, o modelo social francês. O certo é que não houve nunca dentro da população francesa uma maioria que apoiara as políticas neoliberais. E tampouco existe hoje, ao menos não na sociedade, nem na opinião pública, tal como mostram as pesquisas.

O que mostram essas pesquisas, concretamente?

Bem, há algumas coisas contraditórias. Pela primeira vez se observa que a população prefere as empresas ao Estado, isso é algo novo na França. Agora, em relação a questões como a seguridade social ou o envolvimento do Estado nas escolas, uma enorme maioria concorda em sustentar a participação estatal. Ninguém duvida de que o Estado deve seguir investindo fortemente na escola, se vê claramente como uma atividade do Estado. Bem, Macron até agora era um equilibrista porque estava todo o tempo vendo até onde podia ir.

Até o freio concreto imposto pelos coletes amarelos...

Sim. Não obstante, faz vinte anos que na França avançam lentamente as políticas neoliberais. Uma flexibilização neoliberal muito mais paulatina que nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, mas avança. As reações hostis a Macron vêm de um populismo de extrema direita que propõe certo isolamento e uma saída da Europa, ainda que também da esquerda, como a que se observa por parte de Jean Luc Mélénchon, e da sociedade civil: uma parte dos aposentados se opõe à desregulamentação e à perda de privilégios. Macron disse que prefere priorizar “os ativos” sob a premissa de que os que trabalham geram renda que depois serão redistribuídas para os aposentados, as crianças, as pessoas enfermas, os desocupados. Paralelamente, propõe liberalizar as atividades para que sejam mais produtivas. Isso levou certos segmentos sociais a se mobilizar e resistir contra esse tipo de liberalismo, cuja maior expressão vimos nas recentes manifestações dos coletes amarelos.

Como Macron se credencia no atual cenário europeu?

Macron quis propor um novo cenário europeu, deu um discurso muito forte na Sorbonne, onde claramente propôs outro tipo de vínculo com a Europa. Começou pelo final. Ele propunha uma maior integração dentro do grupo Europeu, mas ao avesso do que foi antes, ou seja, ao contrário do que derivou no empobrecimento da Grécia, da Espanha, de Portugal. Seu objetivo foi criar um Ministério de Orçamento que dê lugar a uma Europa solidária, onde haja aproximação, ajuda, e colaboração entre distintos atores e a União Europeia. Com o mesmo espírito propôs um Ministério da Defesa comum. Ou seja, à diferença de outros, propôs uma agenda geral. Contudo, sua ideia de mudar a estrutura da União Europeia foi um fracasso, não conseguiu nada.

Há uma intenção de assumir o lugar ocupado pela Alemanha?

A Alemanha não tem possibilidade de se mover, Merkel está totalmente imobilizada, jogada pela direita dura, enquanto os sociais-democratas não conseguem se afirmar em um cenário no qual os pró-europeus estão mais fracos que antes. Sem uma maioria alemã que sustente Macron, não há possibilidade de incidir sobre a realidade europeia. Então, assunto encerrado. Na Europa, ademais, o apoio dos países do Sul desaparecem com a situação política da Itália, que era um aliado histórico importante. O que mantém Macron no nível europeu, além dos discursos, é que aparenta encarnar um social-liberalismo frente ao crescimento da extrema direita. E eleitoralmente isso rende. De fato, está em um conflito linguístico ante os que buscam armar um polo de extrema direita na Europa.

No marco do Brexit e de uma nova possível desagregação da União Europeia, quanto Alemanha e França necessitam da permanência da União Europeia, tanto em termos econômicos como políticos?

Dependem enormemente disso. De fato, dependem em termos agrícolas por meio do PAC (Política Agrícola Comum), da estabilidade econômica, da moeda, da taxa de juros... de tudo isso dependem. De fato, Macron diz que, em termos históricos, a União Europeia foi um êxito econômico. E foi até 2008 pelo menos. E ainda depois, sobretudo até 2011, quando assistimos à uma crise autoinfligida pela União Europeia no marco do Tratado de Maastricht, referida à ideia de que não houvesse déficit fiscal por parte dos governos. Essa crise criada a partir dos imaginários – a ideia do déficit não maior que 3% - gerou também na opinião pública uma situação de instabilidade e de preocupação que ainda não se resolveu, uma crise de confiança muito grande. Em relação ao êxito da economia, é preciso esclarecer que, quando todos os economistas mostram o êxito econômico da Europa, apontam para esses primeiros anos. Sabe como foram definidos esses 3% que os governos não podem ultrapassar? Não houve um comitê de especialistas, nem grandes acadêmicos que disseram: “esse nível não há que passar por tal ou qual coisa...”. Mas sim que Helmut Kohl e François Miterrand se sentaram para comer em uma mesa e disseram: “estaria bom ter um número para definir até onde podemos deixar que cresça o déficit”... e então lhes ocorreu esses 3%. Não foi mais que isso, e se trata de uma cifra muito baixa.

Macron, no início, se autodefinia como de direita por sua proposta de livre comércio e de esquerda pela sua ideia de viver com outros que vêm de outras culturas e não têm um olhar xenófobo. O que passou com esse segundo olhar a partir do endurecimento das políticas migratórias?

Macron retomou o discurso universalista da França, um antirracismo universalista. Porém teve um desvio cada vez mais marcado para a direita. Direita neoliberal, mas também direita identitária em função do vínculo com os migrantes na Europa. Se bem que desde o início sustentou a necessidade de controlar a imigração, nisso não havia uma ruptura nem com a postura de Hollande, nem com a de Sarkozy. Essa ideia vem de Sarkozy e alcançou bastante consenso dentro das elites políticas francesas, tanto da esquerda como da direita. De fato tomou uma frase de Michel Rocard, que vem da esquerda, para dizer “não podemos receber toda a miséria do mundo”. Era como dizer: “eu sigo sendo de esquerda, mas não fica outra alternativa que reduzir de alguma maneira a imigração que chega à França”. Isso confluiu com uma política migratória cada vez mais restritiva, apesar de a França receber poucos migrantes e refugiados, diferente de países como a Alemanha, por exemplo. No plano econômico, Macron é fundamentalmente neoliberal, dado que seu discurso sugere que os indivíduos são todos empreendedores e que basta cruzar a rua para obter um trabalho. Essa forma de apresentar a política econômica francesa esconde um plano econômico consagrado principalmente a favor das empresas por meio da “política da oferta”. Ainda que tudo conduza a uma liberalização econômica que progride, Macron não representa a direita neoliberal da França.

O que mudou para a sociedade francesa em relação ao sentimento para com a imigração, a abertura e a hospitalidade, a partir dos atentados em Paris, em 2015?

Houve uma “histerização do debate”. Essa “histerização do debate” conduziu a uma confusão. Embora havia muitos anos que se distinguia entre o Islamismo e o Islã, os atentados fizeram com que muita gente deixasse de estabelecer essa distinção ao tempo que começou a se mesclar também o árabe com o Islã, com o Islamismo, com o muçulmano. E isso, que se mantém até hoje, é o que levou Marine Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial. Nisso tem que se reconhecer que Macron foi original, porque foi o único candidato que se mostrou pró-europeu, e naquele tempo não tinha nenhum discurso contrário aos imigrantes. Foi o único candidato com esse traço. Isso não causou uma mudança favorável nas políticas migratórias quando esteve no governo, mas pelo contrário, as endureceu. E a isso se soma agora uma medida que o governo pretende impor, e contra ele há fortes manifestações, que implica cobrar dos estrangeiros dez vezes mais para que estudem nas universidades.

Por que afirma que o discurso de Le Pen sobre a imigração permitiu que alcançasse o segundo turno?

O voto de Marine Le Pen está muito identificado e correlacionado com o rechaço à imigração. Le Pen esteve à frente de todas as pesquisas realizadas durante o primeiro turno, à frente de François Fillon e de Macron, até pouco tempo antes das eleições. Nos últimos meses baixou em intenção de votos a partir de algo relacionado às questões morais de Fillon. Foi então que Macron passou a ser o primeiro candidato nas pesquisas, que era o único que não aceitava a agenda do racismo.

E diante do panorama atual quais são os apoios com que Macron conta?

Sem dúvidas perdeu popularidade entre os que haviam votado nele, mas segue localizado hoje em um espaço político onde aparece como o representeante de um liberalismo corrigido contra a extrema direita populista. Nessa clivagem, a direita e a esquerda clássica francesa têm muitas dificuldades para existir. Então, não há uma grande mudança de fundo nesse sentido. É certo que há pessoas que deixam de apoiar Macron e que hoje estão mais próximas de Jean Luc Mélénchon, que vem da esquerda clássica, mas Macron insiste em dizer: “sou o guardião, sou o que protege a república de Le Pen”. Um e outro se co-constroem como adversários nessa medida. Nesse plano, segundo dizem, a esquerda de Mélénchon, no fim, não é importante. Isto é, há um esforço para definir qual é a disputa principal e tanto Macron como o Front National fazem o possível para colocar a disputa que se dá entre pró-liberais e antieuropeus.

No marco da multiculturalidade que há na França, como se ressignificam as hierarquias culturais e a imagem que os franceses fazem de si mesmos?

O crescimento da multiculturalidade na França se dá desde baixo. Isso quer dizer que há práticas culturais das populações que estão abaixo na cotidianidade que nos impedem de falar de certa universalidade. A imagem de uma França universal não necessariamente condiz com o que passa por baixo. O Estado e as instituições, mais além do que se disse, não contam com ações afirmativas para modificar essa maneira em que se dão os vínculos. A legitimidade cultural é posta em questão desde abaixo, mas ainda vivemos com a ilusão, na França, de que existem formas de grandes culturas universais, quando na realidade há uma diversidade cultural muito grande, assim como em outras partes do mundo. Macron, nesse contexto, produziu algo surpreendente durante sua campanha. Era o único que tinha um discurso para a juventude de origem imigrante, sobretudo os árabes. Ele lhes dizia que se expandam culturalmente, que também teria algum plano de trabalho para eles. No entanto, na medida que passava o tempo, vimos que o que lhes propunha concretamente era uma uberização: se inserir no capitalismo de plataformas, cujo paradigma é o dos jovens que dividem comida em bicicletas. Ao final, a proposta é que se insiram em trabalhos por conta própria, que são ultraflexíveis e precários.

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