'A extrema direita, antes de ganhar o parlamento, ganhou corações e mentes e espalhou sua mensagem para todos os cantos do país'. Entrevista especial com Henrique Costa

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30 Outubro 2018

O país elegeu ontem, 28-10-2018, Jair Bolsonaro (PSL) presidente do Brasil. Ele será o 38º presidente, o oitavo eleito após a redemocratização. Com 55,14% dos votos válidos, Bolsonaro venceu Fernando Haddad (PT), com 44,86% da preferência, no segundo turno. Pelo menos 37 milhões de brasileiros se abstiveram, anularam ou votaram em branco, algo como 29% de todo o contingente de eleitores.

Na avaliação de Henrique Costa, o resultado das eleições já era “esperado”, mas “traz desalento”. “A esquerda, nos últimos anos, acreditou que a política se resumia à gestão da precariedade, enquanto a economia permitia. A direita, por sua vez, fez dela novamente guerra social, apelando aos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa de seus valores conservadores”, comenta.

A entrevista foi publicada durante o dia de ontem em Eleições 2018: Um pleito que revelou muito da sociedade e do Estado. Primeiras análises.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que avaliação faz do resultado das eleições presidenciais e qual é o seu significado político?


Henrique Costa | Foto: Arquivo Pessoal

Henrique Costa é doutorando em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestre em Ciência Política e graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP.

Henrique Costa – O resultado, apesar de esperado, traz desalento. Todos aqueles que acreditam na democracia, mesmo que divergindo quanto ao seu conteúdo substantivo, e que se engajaram na campanha de Haddad, devem refletir sobre como chegamos ate aqui. É um choque para todos nós, mas a verdade é que este resultado vem sendo construído há pelo menos cinco anos, e não nos preparamos para esse momento, diferentemente daqueles que venceram agora.

Há dois movimentos que explicam o resultado.

Primeiro, os militares concluíram que o projeto geiselista, de modernização conservadora, perdeu sua base material com a desindustrialização do país e desde a missão no Haiti vem se preparando para lidar com o colapso econômico e institucional, usando o Rio de Janeiro como laboratório. Atentos à crise econômica e à devastação do mundo do trabalho que se converte em violência, tanto nas redes sociais como em episódios isolados espalhados pelo país, seus aliados no mundo político, desde junho de 2013, vêm se conectando com a agonia dessa classe trabalhadora e que teve seu ponto de máxima visibilidade na greve dos caminhoneiros.

Evidentemente, resgatam um velho ressentimento contra o intelectualismo, identificado na classe artística, nos estudantes de universidade pública e, sobretudo, no ativismo LGBT, vistos como vencedores da guerra pelos melhores postos do capitalismo contemporâneo e, portanto, adversários a serem abatidos. Então, o significado político não pode ser minimizado, pois não se trata apenas de uma derrota eleitoral, mas a consagração eleitoral de uma vitória social. A esquerda, nos últimos anos, acreditou que a política se resumia à gestão da precariedade, enquanto a economia permitia. A direita, por sua vez, fez dela novamente guerra social, apelando aos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa de seus valores conservadores.

Enfim, Bolsonaro não enganou ninguém. Ele prometeu a barbárie, e quase 60 milhões de pessoas escolheram acompanhá-lo. Seu discurso de ódio, recalcado na alma do país, teve uma adesão que nossa visão otimista do Brasil, cuja última manifestação foi o lulismo, não estava preparada para ver. Teremos que resistir agora, como minoria.

IHU On-Line – Quais serão os desafios de governabilidade do presidente eleito?

Henrique Costa – Num primeiro momento, o governo Bolsonaro não deve ter problemas de governabilidade. Pelo contrário. Já se anunciava antes mesmo do 2º turno a adesão do centrão e de outras legendas dispostas a colaborar, como o MDB e o DEM. Além disso, o PSL deve inchar com a filiação de parlamentares eleitos por partidos impedidos pela cláusula de barreira. É natural que o partido do governante eleito cresça pelo interesse do parlamentar em se manter próximo ao poder. Também favorece Bolsonaro o fato de que a grande maioria dos eleitos tem um perfil conservador e, diferentemente da atual legislatura, mais fisiológica, haverá grande alinhamento ideológico.

Evidentemente, essa adesão cobrará seu preço, como sempre. E no médio prazo, o aprofundamento da crise econômica, acompanhado da persistência do desemprego e do endividamento, podem rever esse apoio, como aconteceu com Michel Temer, que também tinha muito apoio parlamentar quando assumiu e que foi corroído pela impopularidade. Bolsonaro deve conseguir, nos primeiros meses, manter um significativo apoio social por conta da expectativa de mudança que ele ensejou, mas o sucesso de seu governo e a manutenção da governabilidade dependerão de como a economia e a violência responderão às suas ações.

IHU On-Line – O que esperar do governo eleito?

Henrique Costa - De início, há uma expectativa por parte do eleitorado do capitão reformado de que ele rompa com esse perfil de negociações por cargos e verbas, mas ele deve equilibrar essa frustração com medidas razoavelmente fáceis de serem aprovadas e de muito apelo, como leis e emendas constitucionais de grande impacto simbólico (e também prático), como o Escola Sem Partido, a redução da maioridade penal, mudanças na Lei Rouanet etc. Será necessário muita resistência para que a legislação sobre o aborto não seja destroçada pelo apetite da bancada evangélica, que deve tentar aproveitar a onda conservadora para impor um retrocesso imenso em temas caros ao valores cristãos e da família.

Ainda é duvidoso se Bolsonaro aplicará uma agenda ultraliberal como prega seu guru Paulo Guedes. Após vários recuos em relação a privatizações de estatais, é provável, por outro lado, que seu governo aprofunde uma agenda de flexibilização e desregulamentação da legislação trabalhista, e crie obstáculos para a fiscalização, com consequências para o combate ao trabalho escravo. A uberização já é uma realidade em diversos setores da economia, e deve ser ainda mais estimulada por essas mudanças e pelo apelo que o discurso do empreendedorismo teve durante a campanha.

Na área ambiental, a fronteira agrícola terá ainda menos obstáculos, e só uma regulação em âmbito internacional pode colocar algum limite à devastação. Como boa parte dos biomas brasileiros vem sendo profundamente afetados tanto pelas mudanças climáticas quanto pela exploração predatória, e é a agenda do agronegócio que saiu vitoriosa nesse domingo, não é razoável esperar que tenhamos qualquer boa notícia nesse campo por parte do governo eleito.

O retorno do recalcado fará sua arena no Congresso Nacional. Infelizmente, a extrema direita, antes de ganhar o parlamento, ganhou corações e mentes e espalhou sua mensagem para todos os cantos do país. A repressão policial deve se acentuar ainda mais, atingindo agora setores da sociedade que, por questões de classe, estavam ainda protegidos nas grandes cidades, autorizada pela votação de Bolsonaro e de muitos com seus perfis em todo o Brasil. Preocupa especialmente a população LGBT, cujas bandeiras estiveram na linha de frente da esquerda nos últimos anos e se tornaram alvo prioritário da ira da massa conservadora. A primeira tarefa da esquerda será criar uma rede de proteção aos mais vulneráveis, pois a retórica bolsonarista estimulou a violência sem medo de punição – é preciso lembrar que a principal base de Bolsonaro ao longo de toda a sua carreira foram os policiais militares.

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