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27 Outubro 2018

Chega às livrarias a terceira parte da trilogia moral da pensadora húngara: "O mal nunca pode ser tolerado. Minha reflexão reelabora os pensamentos de Nietzsche, Kant e Kierkegaard”.

A entrevista é de Alessandro Zaccuri, publicada por Avvenire, 25-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Enquanto espera o entrevistador no saguão de um hotel em Milão, Ágnes Heller responde alguns e-mails. Quando a conversa terminar, ela retornará ao computador para trocar mais algumas mensagens. Este é provavelmente o comportamento de uma decent person: cumprir o próprio dever e fazê-lo livremente, no momento adequado. A noção de decent person é um dos elementos centrais de reflexão sobre ética e moral que a filósofa húngara (nascida em Budapeste em 1929, há tempo dividindo seu tempo entre os Estados Unidos e seu país de origem) começou nos anos 1980.

Da trilogia completa intitulada A Theory of Moral, até agora eram conhecidos na Itália os primeiros volumes, Etica Generale e Filosofia Morale, publicados pela editora Mulino, respectivamente em 1994 e 1997. Agora sai pela Mimesis a terceira e última parte, Una ética della personalità (Uma ética da personalidade, p. 438, € 30,00: a edição original remonta a 1996), onde os curadores Laura Boella, Andrea Vestrucci e Chiara Zancan concordam na tradução de decent person como "pessoa de bem". "Sempre existiram e sempre existirão, mesmo nos momentos mais sombrios da história", comenta Ágnes Heller.

Tendo sobrevivido ao Holocausto e discípula de György Lukács, é uma das pensadoras mais importantes do nosso tempo, capaz de enfrentar questões extremamente complexas com os instrumentos de uma afiada simplicidade. Através da narrativa, por exemplo. "Das três seções das quais é composta Uma ética da personalidade - ela explica - somente a primeira adota a linguagem da argumentação filosófica. Nas outras duas utilizei o diálogo teatral e o romance epistolar".

Eis a entrevista.

Por quê?

Nos volumes anteriores, forneci uma minha interpretação dos principais conceitos éticos e havia investigado a dimensão moral do pensamento contemporâneo. Em essência, eu ainda não havia enfrentado a filosofia moral propriamente entendida. Quando tentei fazê-lo, percebi como as diferentes posições não poderiam ser expostas de maneira abstrata. Pelo contrário, era necessário destacar o conflito que emerge entre as afirmações de diferentes autores. Uma dimensão dramática que, no final, desemboca a uma história de amor.

Como assim?

Sim, porque o amor é a manifestação mais evidente da tensão que pretendo investigar. Algo semelhante, aliás, também acontece na primeira seção do livro, que analisa a obsessão que Friedrich Nietzsche desenvolveu contra Richard Wagner movendo-se da quase incondicional admiração inicial. O ponto mais alto da crise foi marcado pelo Parsifal, a obra em que Nietzsche mais poderia ter se reconhecido e que, ao contrário, recusou com determinação.

Nietzsche é um dos protagonistas do livro.

Juntamente com Immanuel Kant e Søren Kierkegaard, exatamente. No centro de Uma ética da personalidade está o conflito entre dois estudantes de filosofia: o primeiro, Joachim, adere à visão kantiana da moral, fundada em princípios universais, enquanto Lawrence, na esteira de Nietzsche, remete toda escolha à liberdade de cada indivíduo. Seu debate está destinado a mudar de intensidade com a chegada de um terceiro personagem, Vera, uma jovem pela qual ambos se sentem atraídos e que personifica a concepção existencial da moral segundo Kierkegaard.

Posso perguntar de que lado a senhora está?

Pode perguntar, mas responder é impossível. O que tentei demonstrar é que, independente de quais forem as convicções iniciais, as escolhas morais sempre ocorrem em condições particulares, que podem até contradizer as premissas teóricas. No ato prático, o kantiano Joachim assume uma atitude coerente com os pressupostos de Nietzsche e o mesmo acontece, com uma perfeita inversão dos termos, no caso de Lawrence. Quanto a Vera, desde o nome parece reivindicar a sua ligação com a verdade, mas não podemos esquecer que no pensamento de Kierkegaard a ironia desempenha um papel decisivo.

Isso significa que uma escolha é equivalente a outra?

Não, este não é o ponto. A questão é que não podemos apreciar o valor de uma escolha até que ela entre em contato com a realidade, até que se torne concreta e, consequentemente, dramática. As teorias, portanto, têm a mesma função que uma bengala ou de uma muleta em que nos apoiamos enquanto nos deslocamos por terrenos acidentados.

Por isso a importância da história de amor?

A seção final do livro é, como mencionei, um pequeno romance epistolar. Há Fifi, uma garota de quinze anos, que escreve a avó Sophie para lhe contar o que está acontecendo: ela está apaixonada por um jovem filósofo, que acaba sendo o Lawrence que já conhecemos, mas não consegue aceitar suas ideias. Como deveria se comportar?

Qual é o conselho da vovó?

O mesmo que teria dado a minha avó, Sophie Meller, de quem a personagem é o retrato. Eu também, quando garota, era apelidada de Fifi, mas meus quinze anos foram diferentes dos dela. Você vê, minha avó era uma mulher muito inteligente, muito compreensiva. Ao redor dela girava uma família numerosa, dentro da qual era inevitável que surgissem conflitos. A sua casa, no entanto, estava sempre aberta a todos e todos eram convidados, quaisquer fossem suas convicções e suas condições da vida. Com ela aprendi que não há nada sobre o qual não se possa dialogar, exceto pelas ações evidentemente imorais. O mal nunca pode ser tolerado, muito menos justificado.

Esta é uma lição que também se aplica à Europa de hoje?

Mais que a moral, aqui é a história que deve ser chamada em causa. A crise que estamos enfrentando não pode deixar de recordar as tragédias do século XX, que por sua vez descendem daquele que, na minha opinião, continua a ser o pecado original da Europa moderna.

E que seria?

A Primeira Guerra Mundial, na qual explodem em toda a sua violência os nacionalismos que haviam começado a se aninhar no final do século XIX. Os totalitarismos, os genocídios, os milhões e milhões de mortes causadas pelas guerras e perseguições são o resultado de políticas nacionalistas terrivelmente semelhantes àquelas que estão se reorganizando agora em muitos países. A própria Hungria, infelizmente, está na vanguarda desse processo.

O que a senhora espera?

Sou sempre muito relutante em falar sobre o futuro. Certamente, olhando para a situação atual, posso dizer que a União Europeia representa a última oportunidade de manter vivo o legado mais precioso do continente. A Europa deve escolher: ou se transforma em um museu, nostalgicamente dedicado à contemplação de um passado cultural e artístico há muito deixado para trás, ou assume para si a responsabilidade de promover e defender a democracia liberal, que é a única forma de governo capaz de harmonizar entre si justiça, ética e beleza.

Por que beleza?

Porque uma decisão eticamente justa é sempre bela, no sentido mais autêntico do termo: diz respeito à substância da realidade, não o seu aspecto exterior, que pode inclusive ser enganoso.

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