Se a questão do século 20 foi 'quem sou eu?', a do 21 é 'quem é você?', propõe filósofo

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17 Outubro 2018

Roman Krznaric é um militante internacional da empatia, habilidade que, segundo defende, pode ser aprendida e é capaz de unir povos de todas as cores, origens, religiões e culturas

A reportagem é de Juliana Diógenes, publicada por O Estado de S.Paulo, 15-10-18.

Filósofo e membro fundador da The School of Life, Krznaric foi professor de Sociologia e Política na Universidade de Cambridge e na City University. Autor dos best selleres Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, O Poder da Empatia, e Sobre a Arte de Viver, ele está no Brasil para lançar o novo livro Carpe Diem – resgatando a arte de aproveitar a vida.

Na entrevista deu dicas sobre como a empatia é um antídoto para combater preconceitos e superar divergências sociais. Krznaric também comentou o momento de polarização político-ideológica no País, sugerindo que famílias e amigos ouçam para serem ouvidos. "Seja qual for o resultado no segundo turno das eleições, o Brasil será uma sociedade dividida. E as famílias serão divididas. A pergunta é: como você cria e constrói tolerância e respeito?".

Eis a entrevista.

De que forma a empatia pode ajudar a criar mudança social, combatendo preconceitos e superando divergências sociais?

Empatia é a habilidade de se colocar no lugar de alguém e ver o mundo através desses olhos. Sempre foi uma ferramenta poderosa para superar os estereótipos e preconceito. Todos nós sabemos que julgamos as pessoas a partir da aparência. Quando dirigi a organização Oxford Muse, uma das coisas que fizemos foi estabelecer uma conversa durante refeições. Convidamos pessoas de muitas origens diferentes, ricos e pobres, negros e brancos, judeus e muçulmanos, para almoçar. Em vez de darmos um cardápio de comida, demos um cardápio de conversa, com discussões sobre a vida. Por exemplo: o que você aprendeu sobre as diferentes variedades de amor em sua vida? Ou: você gostaria de ser mais corajoso? Ou: como suas prioridades mudaram ao longo dos anos? A ideia era fazer o oposto a um encontro rápido. Você fala por uma hora, não por um minuto e, dessa forma, você descobre a humanidade em comum. Você vê um pouco de si mesmo na outra pessoa, falando sobre essas grandes questões sobre as quais todos nós pensamos. Todo mundo pensa em amor e morte. É humano. Sempre achei que era muito importante fazer esses tipos de projetos nas comunidades, porque são formas de saltar sobre as divisões sociais.

Outro projeto que me envolvi chama Museu da Empatia, onde desenvolvemos o "uma milha no meu lugar". Cada pessoa era convidada a caminhar com um par de sapatos do seu número, mas que tinha pertencido a um estranho. Talvez fosse de alguém que tinha ficado preso 40 anos atrás, ou de alguém que vivia em uma favela desde criança, ou alguém com problemas de saúde mental, ou uma profissional do sexo. A pessoa então andava por uma milha (cerca de 1,6 km) ouvindo um áudio do dono do sapato contando sobre sua vida, com suas próprias palavras. É muito simples, mas é muito poderoso. É divertido. Mesmo que faça você chorar, isso pode fazê-lo rir. É tudo sobre tentar desafiar os estereótipos que temos sobre as pessoas. Precisamos fazer um grande esforço para criar uma comunidade. Não é fácil fazer isso quando grande parte da nossa cultura nos faz não conhecer pessoas que são diferentes ou até mesmo odiar pessoas que são diferentes de nós. Precisamos criar essas situações. Você também pode dizer às pessoas: vá e converse com um estranho uma vez por semana. Isso é uma boa ideia para a empatia. Fale com alguém. Pode ser o cara que vende pão para você cada manhã ou a mulher que está limpando sua casa. Deixe sua zona de conforto. Fale sobre as vidas dos outros e sobre sua vida. Partilhem algo. Como indivíduos, podemos fazer isso.

Como colocar em prática o estilo de vida carpe diem – assunto do seu novo livro – em meio a uma sociedade sobrecarregada de informações a todo momento, 100% conectada e cada vez mais ansiosa?

Carpe diem é essa antiga frase latina que vem do poeta romano Horácio. Ele disse: "Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós. Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã". O que ele está realmente dizendo é que a vida é curta. O tempo está passando. Não vamos ser para sempre. É por isso que minha camiseta tem morte e liberdade (aponta para a blusa). Se houvesse apenas uma resposta, eu diria: para praticar carpe diem, pense sobre a morte. Precisamos ser criativos na maneira como pensamos sobre a morte. Não tenha medo disso. Gosto da ideia de fazer o que chamo de uma pausa diária para a morte. Em um momento no dia, você para por alguns minutos e pensa na sua própria morte. Com isso não quero dizer se imaginar no leito de morte. Imagine-se em experiências, situações em que você pensa sobre a falta de vida e o que você quer fazer com esse tempo.

Por exemplo, imagine que você está morto e é convidado para um jantar. Você entra na sala e há todos os outros "vocês" que você poderia ter sido se tivesse feito escolhas diferentes em sua vida. Tem aquele "você" que realmente estudou muito e seguiu seus sonhos para se tornar um médico. Aquele é o "você" que começou a beber, tornou-se um alcoólatra e nunca se recuperou. Aquele outro é o "você" que quase morreu em um acidente de carro e mudou sua vida radicalmente depois. Aquele é "você" que não se incomodou em se relacionar com o seu parceiro de trabalho. E você pode olhar para esses "vocês" alternativos e perguntar-se: qual desses muitos autores eu gostaria de ser? Qual destes muitos eu gostaria de me tornar? Talvez eu possa fazer escolhas diferentes na minha vida. Acho que esta é uma maneira divertida de pensar sobre a morte. Pode ser útil se fizermos disso um hábito.

Outra coisa que você pode fazer é colocar um lembrete na tela do seu computador com quatro palavras: aja primeiro, pense depois. Isso, de certa forma, é um carpe diem. Apenas vá e faça primeiro. É assim que aprendemos. Requer muita coragem e é difícil porque os seres humanos, por natureza, gostam de segurança, e não de liberdade. Gostamos de ficar onde conhecemos, em vez de fazer mudanças. Mas quando você assume esses riscos, você não sabe o que está embaixo do seu pé. Normalmente, isso não é tão ruim quanto você acha que seria. Sim, você pode falar: pode ser um desastre. Mas então você só terá que aprender com o fracasso. Isso pode ser trágico e difícil. Mas também é como aprendemos sobre nós mesmos. Claro que correr riscos não é para todos. Carpe diem não é para todo mundo. Mas acho que todos deveríamos pensar sobre a morte e fazer isso de forma natural. Porque, no fim das contas, quem quer chegar no fim da vida e olhar para trás com pesar, desejando ter feito algo diferente?

Muitos teóricos estudam e propagam em todo o mundo diferentes formas de encontrar a própria paz e uma relação saudável com o outro. Por que você acredita que empatia e carpe diem, por exemplo, podem ser bons antídotos hoje?

O século 20 foi uma era de individualismo – hiper individualismo, extremo individualismo – e nos disse que a questão da vida era: o que eu ganho com isso? A indústria de auto-ajuda nos disse: "Olhe dentro de si para as respostas para a vida". A publicidade disse: "Preocupe-se com você mesmo. Você tem prazeres, necessidades e desejos". O que está acontecendo agora é que estamos cada vez mais percebendo que para encontrar um significado na vida, a paz e um senso seguro de si, não é suficiente apenas olhar para dentro de si mesmo. Se a questão do século 20 foi "quem sou eu?", a questão do século 21 é "quem é você?". E que aprender sobre nós mesmos não é só sobre olhar para dentro de nós mesmos, mas descobrir outras pessoas e suas culturas, pessoas com visões de mundo diferentes da nossa, mudando nossas mentes.

A empatia é uma forma de criar esta nova era de quem é você. É sobre 'extrospecção' em vez de introspecção. Nós fizemos muita introspecção. Podemos fazer muitos cursos de mindfulness, tudo bem. Isso pode ser útil para lidar com ansiedade e estresse. Mas também não acho que seja suficiente. Os seres humanos são sociais. Não gostamos de jantar sozinhos todas as noites. Queremos estar com outras pessoas. Coloque alguém em uma cela preso sozinho. Essa pessoa enlouquece. Empatia é sobre nos conectarmos com outras pessoas, é sobre relacionamentos humanos. Empatia e carpe diem são as únicas soluções que dão significado para a vida.

Gosto de pensar que há ainda um terceiro elemento, que é ter um propósito, um objetivo, algo maior do que você mesmo. É o que os filósofos às vezes chamam de "chamados transcendentais". Não é sobre estar se importando com o presente. É sobre pensar no futuro, o tipo de coisa que tira você da cama todas as manhãs. Por exemplo: vou encontrar a cura do câncer. Ou: vou ser jornalista e divulgar as ideias que considero importantes para a minha sociedade ou para as futuras gerações. Acho que é onde encontramos significado. Isso não significa que sempre estaremos rindo e tendo uma vida alegre e feliz. Eu não estou interessado em felicidade, estou interessado em significado. Acho que temos três coisas: a qualidade de nossos relacionamentos é empatia, sua liberdade e autonomia são o carpe diem e o senso de propósito. Então, há uma boa chance de você achar que a vida é boa. Ela pode ser cheia de lutas, dor e sofrimento, mas espero que tudo corra bem.

A empatia é uma habilidade que se ensina e se desenvolve? Ou nascemos com ela?

Em parte, é genética. Pesquisadores dizem que 50% de nossa habilidade empática é inerente – o que nos deixa outros 50%. Isso é uma boa notícia, porque você pode aprender empatia, como andar de bicicleta ou dirigir um carro. Ela naturalmente se desenvolve em todas as pessoas, quase todo mundo. Por exemplo, com a idade de 2 ou 3 anos, você é capaz de assumir o papel de outra pessoa. Para dar um exemplo, vou falar dos meus filhos. Tenho gêmeos. Um menino e uma menina. Quando eles estavam com 1 ano e meio, antes de a empatia se desenvolver, se meu filho estava chorando, sua irmã tentava fazê-lo se sentir melhor, tentando confortá-lo dando a ele seu cachorro favorito, o que é um gesto gentil, mas não adianta. Ele não se importava com o cachorro. Quando eles estavam com cerca de 2 anos e meio para 3 anos, quando meu filho estava chorando, sua irmã passou a lhe dar um gatinho, que era o brinquedo favorito dele. Esse é o salto mental de empatia. É entender que alguém pode precisar de algo diferente do que você precisa, é ser capaz de entrar em sapatos de outra pessoa, em suas mentes. Nós desenvolvemos isso. E podemos aprender e melhorar. Isso é incrível. Na vida cotidiana podemos fazer isso. Como eu disse: tenha uma conversa com um estranho uma vez por semana. Reconheça seus próprios preconceitos e suposições. É assim que aprendemos, começamos a mudar a nós mesmos e abrimos nossa mente empática.

Como podemos promover empatia na nossa família e no nosso ambiente de trabalho?

Parte da habilidade empática está em ouvir. Todos nós sabemos que, se você está discutindo com seu marido, esposa, namorado, namorada, parceiro, às vezes você só pensa: "Oh Deus, eu gostaria que eles pudessem ver isso do meu ponto de vista". Se você perguntar por que a maioria das pessoas se divorcia, o principal motivo vai ser: meu parceiro não me escuta, ele não me entende. Então, como criar conversas e ouvir bem em um relacionamento, na família, no trabalho, mesmo com pessoas com as quais podemos discordar?

Acho que há três aspectos, três caminhos para a boa escuta empática. Um deles é: seja presente para a outra pessoa. Procure olhá-la no olho. Não o interrompa, não fique mexendo no celular. É por isso que quando recebemos pessoas na nossa casa, pedimos que deixem seus telefones na porta. Não quero almoçar com alguém que fica verificando o telefone e não olha nos olhos.

A segunda é: em conversas, especialmente as difíceis, ouça duas coisas. Ouça os sentimentos e as necessidades do outro. Você pode até perguntar a alguém: o que você está sentindo? Do que você precisa? Mesmo que você não concorde. Você pode começar a encarar situações difíceis. O que estou falando aqui são ideias que pertencem a um psicólogo chamado Marshall Rosenberg, que inventou a comunicação não-violenta. Ele morreu alguns anos atrás. Mas ele falou muito sobre a escuta empática. Mas ao mesmo tempo, assim como ouvir outra pessoa com quem você tem que conversar, você tem que se tornar vulnerável. Você tem que estar aberto. Tem que ser um diálogo de via de mão dupla.

A sociedade brasileira tem vivido momentos de polarização na política, causando tensão entre familiares, amigos e até anônimos nas redes sociais, que não se entendem, brigam entre si, xingam-se e até cortam relações. Qual é a saída para essa situação? Como ser empático com quem pensa diferente?

É extraordinário estar no Brasil nesse momento político. Quase se pode sentir a polarização no ar. Isso é incrível. Não sou especialista em política brasileira. Mas seja qual for o resultado no segundo turno das eleições, o Brasil será uma sociedade dividida. E as famílias serão divididas porque seu cunhado, sua cunhada, qualquer parente votou em um candidato diferente. Então, essa é a pergunta: como você cria e constrói tolerância e respeito? Acredito que a sociedade não funciona bem quando se baseia no ódio. Sociedades funcionam bem quando se baseiam no entendimento mútuo. Nem sempre chegamos a concordar com tudo sobre religião, política, economia. Mas pelo menos podemos nos tratar como seres humanos. É aí que a empatia é importante. A questão é como você constrói empatia nessas situações difíceis, especialmente com pessoas com quem você não concorda.

Acho que há uma resposta em dois níveis. No nível político, deixe-me contar-lhe um pouco sobre um projeto em Israel e na Palestina. É o Hello Peace! É uma linha telefônica que foi colocada em todo o país, e qualquer israelense poderia ligar para um número e se conectar por telefone com um desconhecido palestino. Eles poderiam conversar sobre qualquer coisa por 30 minutos. Também os palestinos poderiam ligar para um número e se conectar com um israelense, conversando por meia hora. Nos primeiros cinco anos, houve mais de um milhão de ligações telefônicas feitas. Alguns desses telefones eram pessoas gritando umas com as outras. Mas a maior parte deles não era. Muitos fizeram amizades.

Acho que, de certa forma, o Brasil pode olhar para esse projeto agora e dizer: como podemos fazer isso no Brasil? Depois do segundo turno, aconteça o que acontecer, como poderíamos criar esse tipo de conversa entre as divisões? Talvez possamos fazer isso online, talvez possamos configurar projetos incríveis usando o Skype ou outras formas de vídeo, fazendo com que pessoas de ambos os lados conversem entre si. E ouvir um ao outro. Talvez haja gritos. Isso faz parte da vida. Mas precisamos criar os espaços para um tipo de reconciliação. Acho que você precisa ser criativo sobre maneiras de fazer isso. Convide as pessoas da sua comunidade ou da sua rua para uma refeição. E vamos falar sobre a vida. Isso pode ser misturado com um pouco de política. Mas não fale somente sobre política, porque você vai querer se matar. Vamos falar sobre família, medo, o que realmente está nas entrelinhas das diferentes posições na política. Talvez, na verdade, não sejamos tão diferentes quanto pensamos. Talvez sejamos. Mas vamos pelo menos tentar falar sobre isso.

Nas famílias é mais difícil. Às vezes, a solução mais obvia é: não vamos falar sobre isso. Mas se você não fala sobre um relacionamento, o que acontece no final? Você desmorona. É difícil manter relacionamentos se você não fala. É saudável encontrar maneiras de conversar. Na Grã-Bretanha, tivemos este problema após o referendo para deixar a União Europeia. E é muito importante encontrar esse caminho de ouvir o que os outros têm a dizer. Talvez seja apenas ouvir o outro em uma mesa de jantar e não interromper. Apenas ouça o que a outra pessoa tem a dizer e então diga "Ok, eu te ouvi. Agora, você pode me ouvir?".

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