O cardeal convertido pelos índios. Reflexões com o purpurado peruano Pedro Barreto sobre o próximo Sínodo da Amazônia. E também sobre o amigo Francisco…

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05 Outubro 2018

Sua mãe Elvira, filha de espanhóis, nasceu no mesmo bairro de Buenos Aires que Bergoglio, o bairro de Flores. Curiosamente, essa área começou a ser povoada com o peruano Mateo Leal de Ayala, que adquiriu as terras no século XVII. “Isso mesmo, no bairro de Flores, como o Papa”, confirma o cardeal Pedro Barreto, que se encontra na capital Argentina para participar do Fórum inter-religioso G20. “Eu disse há quase 40 anos quando vim para cá, e ele teve a delicadeza de me levar durante toda uma manhã para conhecer o bairro onde minha mãe esteve até os 9 anos. Depois, dona Elvira foi viver no Peru. “Meus avós, que eram espanhóis, foram para o Peru e ali ficaram. Minha mãe sempre falava da Argentina. Meu pai era peruano e os dois já faleceram”. Pedro Ricardo Barreto Jimeno nasceu no Peru, onde vive há 73 anos. É jesuíta, arcebispo de uma diocese amazônica, Huancayo, vice-presidente da Conferência Episcopal Peruana e, desde junho de 2018, cardeal por decisão pessoal do Papa Francisco.

A entrevista é de Virginia Bonard, publicada por Tierras de America, 01-10-2018. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis a entrevista.

Voltando aos temas propostos para este diálogo, padre, a Amazônia…

A Amazônia, para mim, é uma descoberta. Eu nasci em pleno deserto limenho, uma faixa costeira muito árida do Peru, e desde pequeno, no Colégio da Imaculada onde eu estudava, os jesuítas levavam de vez em quando alguns indígenas amazônicos com os quais trabalhavam no nordeste do Peru, no departamento de Cajamarca, e também na Amazônia, assim se chama a região. E ali eu via meus irmãos indígenas. De alguma forma, fui descobrindo algo que minha ignorância, que era grande, não me permitia ver e me levava a pensar que eram indígenas com os quais não tínhamos nada para aprender. No Peru nós os chamávamos de “chunchos”: alguém que está aí, relegado. Conforme fui descobrindo minha vocação de jesuíta ao serviço da Igreja, ficava muito claro que eu devia servir a esses irmãos que, para mim, eram desconhecidos e ignorados. Efetivamente, durante meus primeiros anos de formação – chamado “tempo de Magistério”, entre Filosofia e Teologia – pude trabalhar no Vicariato Apostólico de Xaém (uma região extensa que abarca 28 paróquias na Amazônia peruana, N.d.A.).

E quando começou a ver os “chunchos” de modo diferente?

Quando fui bispo dessa mesma região. Tinha 30 anos de sacerdócio e o Papa João Paulo II me nomeou bispo de Xaém e para mim foi a resposta de Deus a meus desejos de jovem.

Podemos dizer que houve uma conversão em você ao conhecê-los melhor?

Evidentemente. Eu via neles um cuidado muito grande com a água porque viviam da pesca, cuidavam também dos animais porque viviam deles. De Xaém se via a bacia do rio Amazonas, que ali é o rio Marañón. A geografia é de selva. Nessa região vive uma etnia que se chama awajún-wampis. Fiquei somente 2 anos e meio. Deus me deu esse consolo, essa alegria de poder servir aqueles que eu havia conhecido desde pequeno. Minha satisfação é que nos 3 natais que passei como bispo da região fui visitar a comunidade awajún-wampis de Villa Gonzalo, que está na parte mais afastada do Vicariato Apostólico de Xaém. Estive com um jesuíta, o padre Manolo García Rendueles, já falecido, que vivia com os indígenas amazônicos. Eu não entendia nada, mas vivia uma experiência inédita para mim. Deixava-me guiar por este jesuíta que estava lá há anos.

O que chamou sua atenção neste povo amazônico?

Primeiro que viviam em comunidade. Segundo que eram pessoas que, se cometiam algum erro, eles mesmos iam onde estava o “apu”, que é o chefe, e lhe diziam: “eu roubei uma galinha e mereço ficar preso durante um dia”. Não havia uma polícia. Havia uma profunda atitude de respeito. Terceiro: viviam sobriamente. Eles não pescavam para uma semana, nem para dois dias: pescavam o suficiente para viver. Ali, o papel do homem era caçar durante a noite. Quando se aproximava a celebração do Natal, voltavam de madrugada trazendo javalis ou outros animais. As mulheres recolhiam o fruto do trabalho dos homens e preparavam os alimentos. Ao meio-dia, depois da missa, nos sentávamos em torno de uma mesa muito grande, não havia distinção entre uns e outros, embora, é verdade, o grupo de mulheres estava a serviço dos homens; a toalha de mesa era muito bonita: folhas de bananeira, e só colocavam um pouco de sal, porque a elaboração dos alimentos era muito pura e simples. Eu aprendi muito com eles e continuo aprendendo. Isso não significa que sejam perfeitos. Também têm seus problemas, suas dificuldades. Mas sua cultura, sua sabedoria, expressava uma transcendência que, para mim, era Deus.

Voltemos ao Sínodo de 2019, convocado pelo Papa Francisco. Quem compreende hoje, em nosso mundo, que é preciso cuidar da Amazônia?

Ninguém pode amar o que não conhece. É fundamental o encontro com seus habitantes. Se não os conhecem, dificilmente podem entender o que estou dizendo. A Amazônia não é somente um território privilegiado pela biodiversidade, mas um território privilegiado pelas culturas ancestrais. Estamos falando de 340 comunidades indígenas, de mais de 200 línguas aborígenes; entre eles não podem se comunicar, mas têm um eixo transversal que é o respeito à vida, à água, ao ar e ao solo, porque estão em harmonia com eles.

Estas comunidades de que você fala terão representatividade no Sínodo da Amazônia em outubro de 2019, em Roma?

Sim, logicamente o Sínodo está em um processo de preparação que começou em 19 de janeiro de 2018 em Puerto Maldonado – no sudeste do Peru – onde o Papa Francisco iniciou sua visita pastoral. Seu primeiro encontro foi precisamente com os indígenas amazônicos. Ele foi para escutá-los e também para lhes transmitir uma mensagem muito clara e muito comprometedora; foi lhes dizer que eles são os principais interlocutores válidos para a Igreja e para a sociedade no que se refere à Amazônia. E são eles que devem nos ensinar sobre uma vida sóbria, com o cuidado da água, do ar e do solo. O mais importante desta etapa de preparação não é somente dar as respostas que vão enriquecer o documento base da reflexão, mas o fato de que, além disso, estão sendo realizadas Assembleias Territoriais em toda a Amazônia. São cerca de 40 espaços onde eles podem expressar tudo o que vivem, mas também o que sofrem e o que esperam da Igreja. Estas contribuições das assembleias territoriais, que acontecem até o final do ano, serão o aporte mais significativo das comunidades indígenas para o Sínodo da Amazônia.

A Amazônia é um território disputado pelos grandes interesses comerciais. Como pode ser gerado um espaço de diálogo de forma que quem encarna esses interesses chegue a compreender que a Amazônia é indispensável para a vida de todos? Que nos fornece 20% do ar que respiramos em nosso planeta…

E também possui 20% da reserva de toda a água doce do mundo. É impressionante. A Igreja chegou à Amazônia faz somente 500 anos, quando começou a evangelização, mas esta terra foi maltratada tanto em seu território, como nas pessoas, desde um tempo imemorável. Neste sentido, podemos dizer que tem sido uma luta constante. O Papa Francisco tem uma frase muito bonita: “A Igreja chegou à Amazônia e não foi embora depois de encher as malas”. Há pessoas que vão à Amazônia para encher suas malas com dinheiro, mas a Igreja não. Há uma disputa entre o bem e o mal. Não significa que todas as Igrejas sejam perfeitas: não somos perfeitos. O ser único perfeito é Jesus e os 12 apóstolos demonstraram a corrupção que havia no interior daqueles que o próprio Jesus havia escolhido. Por que há uma disputa na Amazônia? Porque o território amazônico tem imensos recursos naturais, tem uma biodiversidade impressionante.

Deve ser fascinante conhecer essa maravilhosa e multivariada expressão da natureza.

Sim! Eu continuo aprendendo cada vez mais com os que vivem na região. Acabo de estar com Dom Cláudio Hummes, cardeal emérito de São Paulo, Brasil, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM). A REPAM é uma inspiração de Deus que aconteceu antes que aparecesse a Laudato Si’ do Papa Francisco. Eu digo sempre que o fundador da REPAM é o Papa Francisco.

Por quê?

Porque eu era presidente da Comissão de Justiça e Solidariedade do Conselho Episcopal latino-americano (CELAM) e fomos à Brasília com a missão de decidir se iria ou não ser criada a REPAM. Estamos falando de 7 milhões e meio de km2, estamos falando de 67 bispos do Brasil, estamos falando de outros 30 bispos-vigários apostólicos dos 8 países que compõem a região amazônica. Era uma loucura. Na mensagem inicial que o Papa nos mandou, praticamente nos felicitou pela criação da REPAM. Então Dom Cláudio, eu e todos nos olhamos e dissemos: o que estamos esperando? Queremos perguntar a Deus, e o Papa, o bispo de Roma, que é vínculo de comunhão com todos os bispos e os fiéis católicos, nos diz isto? “Ao trabalho”, foi dito. Isso foi em setembro de 2014. Em 3 de março de 2015, tivemos a apresentação da REPAM em Roma, e em 19 de março participamos como Igreja latino-americana, pela primeira vez na história, em uma assembleia plenária da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, falamos do extrativismo e também apresentamos a nova REPAM. Isto é de Deus, absolutamente.

Concorda que a Laudato Si’ foi desvalorizada por alguns setores, inclusive católicos, em sua essência, no sentido de promover uma melhor qualidade de vida para toda a humanidade?

Houve alguns que pensaram desde o princípio, poucos, embora com muita força. E agora estão pondo em jogo todo o poder de seu dinheiro. Mas o dinheiro não deve mandar na vida social, como diz o Papa Francisco. Por isso a Laudato Si’ desconcertou a muitos… para melhor. Porque é a primeira encíclica da Igreja Católica, ao longo de todo seu magistério, que está dedicada a um só tema: o cuidado com a casa comum, e dirigida a todos, católicos, crentes e pessoas de boa vontade que habitam este mundo. A Laudato tirou o chão de todos nós.

Falando de tirar o chão, você foi criado cardeal em 28 de junho deste ano e esteve bem pertinho do Papa Francisco naqueles dias. O que pode nos contar desses dias e como está vendo seu pontificado?

De maneira inesperada e não merecida fui designado cardeal da Igreja Católica. Eu não sou cardeal do Peru. Sou cardeal da Igreja Católica, arcebispo de Huancayo, no Peru. Na realidade, nós, jesuítas, fazemos um voto de servir a Cristo, de servir à Igreja, sob as orientações do Papa. É algo que eu já vivia de maneira muito forte por minha vocação de jesuíta. Aconteceu a coincidência de que o Papa é jesuíta. Mas eu não apoio o Papa Francisco porque é latino-americano, argentino, jesuíta, ou amigo, poderíamos dizer. Minha vida está centrada em Cristo, na Igreja, e sob as orientações do Papa. Neste sentido vejo que para mim foi como uma espécie de começo de ressurreição, de esperança, de alegria, de compromisso com a justiça e com a paz de maneira muito prática, pisando na terra, pisando na Amazônia, pisando em toda a realidade da família, pisando na realidade dos jovens como ela se coloca hoje, pisando também este Evangelho da alegria que nos devolveu a esperança e, sobretudo, esta carta encíclica Laudato Si’. Estou convencido de que o Papa Francisco não inventa nada. Alguns, muito poucos, dizem “não, o Papa Francisco, não sei o quê…”. A grande maioria está o apoiando. O que ele está fazendo é colocar em prática o desejo de Deus que inspirou em João XXIII o Concílio Vaticano II, e que a Igreja latino-americana desde Medellín em 1968 – este ano se completam 50 anos dessa histórica conferência – desemboca em algo que ninguém poderia ter imaginado: o primeiro Papa latino-americano, Francisco.

Mas não nos disse nada que o Papa lhe falou…

(Risos). Quando estive com ele cinco dias antes da criação [de seu cardinalato], lhe agradeci a designação e começamos a falar de outra coisa. Não me disse “cardeal”, não me disse o que deveria fazer, nem me disse por que me nomeou. Foi algo como: “Ouça, estamos juntos. Eu sou o bispo de Roma, tu és o bispo de Huancayo, no Peru; tu sabes o que tens que fazer, adiante!”. E passamos a falar de outros assuntos.

O Papa recebe diariamente ataques de várias frentes. O que você pensa sobre estas situações?

Ele está vivendo a páscoa de Jesus. A Igreja está vivendo a páscoa de Jesus. Era uma Igreja, como dizia Bergoglio antes do conclave, que olhava para si mesma, que se preocupava com sua própria imagem. E por isso queria ocultar os gravíssimos pecados de abusos sexuais, de abusos de poder, de manipulação de consciências e, sobretudo, a defesa da doutrina, mas não da verdadeira moral. Isso é gravíssimo. Já o Papa Bento XVI mostrou valentia e coragem ao assinalar isso em Aparecida, em 2007, e pude dizer-lhe porque eu estava ali. Como cardeal da Igreja e como bispo latino-americano penso, e muitos pensam como eu, que o Papa Bento ajudou muitíssimo a Igreja latino-americana em Aparecida. Ele disse que a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica. Quando escutamos isso lhe demos um forte aplauso e assim se fechou uma ferida que certamente era grande.

Você é latino-americano. Há países que estão muito mal em nosso continente. Sofrem violência institucional e política, diversas instabilidades de vários tipos e angústias que repercutem gravemente nas vidas dos povos. Qual é a sua opinião?

É muito clara. Há duas vertentes: uma vertente econômica que é este sistema atual tecnocrático que o Papa Francisco, tanto na Laudato Si’ como na Evangelii Gaudium, define como um sistema que mata, que fracassou, que põe o dinheiro acima da pessoa. E a outra vertente é um problema ético. Afirmo sempre e creio que todos nós concordamos que é preciso reconhecer que a tecnologia avançou muitíssimo. A tecnologia transforma coisas, matérias primas, fabricamos aviões, automóveis… Mas a ética transforma pessoas, e isso temos relegado. Este sistema nos afundou em um consumismo irracional que não nos deixa pensar além do que estamos vivendo. Há uma urgente necessidade de conversão que nos permita pensar nos outros como em nós mesmos. Cristo não pensou em si mesmo, pensou nos demais. Há mais felicidade em dar do que em receber. Temos que apoiar decididamente a reforma da Igreja porque é agora ou nunca.

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