Opus Dei completa 90 anos com pedido de perdão a membros que se ‘sentiram incompreendidos’

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03 Outubro 2018

Foi durante um retiro na capela dos missionários de São Vicente de Paulo, em Madri, que, diz a tradição, o sacerdote espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975) teve uma visão: levar a todos os cristãos o anúncio de que não é preciso viver confinado em mosteiros, conventos ou abadias para alcançar a santidade.

"Tinha eu 26 anos, a graça de Deus e bom humor. E nada mais", resumiu Escrivá em seu diário.

Era o dia 2 de outubro de 1928, e nascia ali o Opus Dei (expressão latina que significa "Obra de Deus"), uma das mais controversas instituições da Igreja Católica.

A reportagem é de André Bernardo, publicada por BBC News Brasil, 02-10-2018.

"O Opus Dei não é uma seita religiosa, muito menos uma sociedade secreta", explica o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "É um dos pioneiros na busca por uma presença maior dos católicos na sociedade. Sua permanência se deve tanto à solidez da doutrina quanto à eficiência de seus membros no trabalho missionário cotidiano", acrescenta.

Mas a "obra" também é alvo de críticas e polêmicas. Relatos de restrições extremas, autoflagelação e humilhações foram publicados por ex-integrantes - ou ex-numerários, no jargão do Opus Dei.

"Houve pessoas que se afastaram da Obra por se sentirem incompreendidas e, algumas vezes, com razão. A essas pessoas, com toda sinceridade, pedimos perdão", afirma o jornalista Roberto Zanin, diretor do escritório de Comunicação do Opus Dei no Brasil.

"Queremos nos reconciliar com todos. Este é o espírito que Cristo quis para a sua Igreja".

'Tinha eu 26 anos, a graça de Deus e bom humor. E nada mais', resumiu Escrivá sobre sua 'visão'
(Foto: Divulgação/Escritório de Comunicação do Opus Dei)

Aos 90 anos, o Opus Dei reúne hoje 90 mil membros em 68 países. Só por aqui, são 2,5 mil leigos - 70% casados e 30% solteiros - e 100 sacerdotes. Em 1974, um ano antes de morrer, seu fundador esteve no Brasil.

Advogado e sacerdote, Escrivá foi beatificado em 1992 e canonizado dez anos depois, durante o pontificado de João Paulo II. A Opus Dei foi promovido à categoria de prelazia pessoal (a única no Vaticano), em 1982. Seu atual prelado, o teólogo francês Fernando Ocáriz Braña, assumiu o cargo, de caráter vitalício, em janeiro de 2017.

"Sua maior contribuição foi a evangelização. Conservadora ou progressista, não importa: Escrivá saiu pelo mundo pregando o Evangelho a toda criatura", afirma o teólogo Paulo Bosco, da Universidade Católica de Brasília (UCB).

"A maneira de evangelizar de uma instituição reflete o estilo de seu fundador. Escrivá está mais para Paulo que para Pedro. Paulo era um inculturador por excelência", diz.

Imitação de Cristo

O Opus Dei chegou ao Brasil em 1957. Seu primeiro centro de formação foi inaugurado em Marília, no interior de São Paulo. Hoje, são 38 pelo Brasil afora. Um deles, batizado de Centro Universitário da Tijuca, funciona no bairro de mesmo nome, na Zona Norte do Rio. Lá, vivem um capelão, nove numerários e três numerárias auxiliares. Homens e mulheres, celibatários, vivem separados.

A eles, é encorajado estudar, cursar faculdade e trabalhar fora. A elas, é destinado o serviço doméstico, como varrer a casa, lavar privadas e preparar as refeições.

"Era obrigada a fazer faxina repetindo a frase: 'Valho menos que o pó que essa vassoura varre'", recorda Pilar (nome fictício), uma ex-numerária que, para evitar represália ou perseguição, não revela nome, idade ou profissão.

"As numerárias auxiliares são a 'ralé' do Opus Dei. Entre outras obrigações, não podíamos segurar bebês no colo, assistir a comédias românticas na TV ou tomar banhos demorados. À noite, dormíamos sobre uma tábua dura e com uma lista telefônica como travesseiro", diz.

O arquiteto e urbanista João Carlos Nara Jr., de 44 anos, é um dos que residem no centro do Opus Dei, na Tijuca. Numerário há 26 anos, explica que práticas de mortificação corporal são preceitos evangélicos.

As mais recorrentes delas são usar cilício - cinto de arame com pontas - amarrado na coxa, duas horas por dia, seis dias por semana, e açoitar as nádegas com disciplinas - chicote feito de corda trançada -, uma vez por semana, ou mais, dependendo da orientação do diretor espiritual.

"Em minha tese de doutorado, procuro mostrar que os numerários não são submetidos a práticas como a mortificação corporal por líderes do Opus Dei ou pela instituição em si", observa o sociólogo Asher Brum, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Eles as praticam por sua livre vontade por entender que a imitação de Cristo pelo sofrimento é agradável a Deus."

Tudo o que o numerário ganha, de mesada a salário, é administrado pela instituição.

"Os numerários procuram viver o desprendimento dos bens materiais. Evidentemente, sobra mais dinheiro. O meu, por exemplo, está no banco. Em caso de necessidade apostólica, estou disposto a dá-lo para a Obra", admite João Carlos.

'Profunda infelicidade'

Os membros do Opus Dei não se dividem apenas em numerários e numerárias auxiliares. Há também os adscritos ou agregados, numerários que vivem em suas próprias casas ou com suas famílias, e os supernumerários, que têm permissão para casar e ter filhos - muitos filhos.

Para atrair futuros novos membros, os centros oferecem cursos, palestras e workshops sobre os mais variados assuntos, sempre voltados ao público universitário.

O site informa que "fiéis católicos adultos, homens e mulheres de qualquer cultura, nacionalidade, condição social ou nível econômico" podem pertencer ao Opus Dei. Mas, na prática, a teoria é outra. Mais do que encorajados, os membros são cobrados o tempo todo para fazer proselitismo e levar possíveis candidatos a numerários aos centros de formação.

"Eles querem a 'nata' da sociedade. Ou seja, gente de família e boa educação", garante o engenheiro eletrônico David Fernandes, de 64 anos.

Portadores de deficiência, filhos de casais separados ou adotivos, entre outros, não são bem-vindos.

A história do recrutamento de David é clássica: ele conheceu o Opus Dei - sem saber que era Opus Dei - em 1973, quando ingressou na Escola Politécnica da USP. Na ocasião, foi convidado por outro calouro, numerário, para assistir a uma palestra no Centro Universitário Pacaembu, no bairro de Perdizes, Zona Oeste de São Paulo.

"Um dia, me disseram que eu tinha vocação e, para ingressar no Opus Dei, precisava ser celibatário", recorda David, professor aposentado do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA). "Volto a dizer: foram eles que disseram que eu tinha vocação. Não eu."

Numerário de 1973 a 1989, David não se esquece da rotina de "religioso disfarçado de leigo" que era obrigado a levar: beijar o chão ao levantar da cama, tomar banho frio como penitência, assistir à missa em latim, manter-se em silêncio do horário do almoço até por volta das quatro da tarde, etc.

Na rua, era proibido de cumprimentar moças com beijo no rosto, sentar-se ao lado delas no ônibus, ficar a sós em uma mesma sala ou, ainda, chamá-las por nome diminutivo ou apelido carinhoso.

"Quando a tristeza atingiu um limite insuportável, comprei um monte de remédios e ameacei tirar a minha vida. Com medo de que eu fizesse alguma besteira, me deixaram sair. Durante muito tempo, tive pesadelos horríveis", recorda David que, em 2006, lançou o livro Opus Dei - A Santa Intransigência, A Santa Coação e a Santa Desvergonha, onde relata os 16 anos de "profunda infelicidade".

Literatura subversiva

O centro do Opus Dei na Tijuca tem sala de estar, onde os numerários se reúnem para ver televisão ou bater papo, oratório, que guarda um ostensório com uma relíquia do fundador, e biblioteca, que serve de sala de estudos e palestras. Não é todo e qualquer livro, porém, que um integrante pode ler. Os considerados imorais ou contrários à doutrina não são recomendados.

"O Escrivá costumava dizer que, quando o Vaticano resolveu suprimir seu Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos, em latim), o Opus Dei criou o dele", recorda David Fernandes.

Estima-se que o total de obras "interditadas" pela instituição gire em torno de 33,5 mil. Entre os livros de ficção, os autores mais censurados são o peruano Mario Vargas Llosa e o português José Saramago. Entre os de não-ficção, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, e o filósofo alemão Karl Marx lideram. Pelo menos três brasileiros constam da lista: Machado de Assis, Jorge Amado e Paulo Coelho.

"Quando alguma pessoa, organização, ideologia ou religião considera que alcançou a verdade, tudo o que vier a contradizer essa verdade ou a apresentar outra faceta da realidade será visto como danoso, falso e mentiroso. A literatura pode ser libertadora e, sob essa ótica, subversiva", explica Maria Amália Longo Tsuruda, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

Maria Amália é a autora do prefácio de O Opus Dei e as Mulheres (2006), organizado por Viviane Lovatti Ferreira. Dos sete depoimentos do livro, o que mais chamou sua atenção foi o da ex-numerária Rosidalva Julião, que pertenceu ao grupo por seis anos.

"Tudo no Opus Dei é chocante. No caso das mulheres, o fato de, em pleno século XXI, serem reduzidas à condição de serviçais", destaca. "Rosidalva teve um molar arrancado sem anestesia, ficou com o maxilar deslocado e uma lasca do dente encravada na garganta. Suas queixas foram encaradas como 'teatrinho' para chamar atenção."

'Macacão anti-masturbação'

Fernandes não foi o único a lançar livro relatando sua experiência. Na segunda metade dos anos 2000, pelo menos seis títulos chegaram às livrarias com relatos e depoimentos, tanto de dissidentes do Opus Dei quanto de mães de membros da instituição.
Um desses livros é Memórias Sexuais no Opus Dei (2006), escrito pelo matemático Antônio Carlos Brolezzi, de 53 anos, que foi numerário dos 20 aos 30 anos.

"Assim que entrei, já comecei a desejar sair. Aos seis meses lá dentro, pedi para sair. A partir daí, foram nove anos e meio tentando, sem conseguir", afirma Brolezzi, que dá aula no Instituto de Matemática e Estatística (IME), da Universidade de São Paulo (USP).

Vinte e três anos depois de se libertar do que chama de "ambiente asfixiante de opressão", Brolezzi não tira da cabeça as inúmeras vezes em que precisava confessar seus pecados ao diretor espiritual.

"Até os sonhos são objeto de confissão. Se eles são de natureza erótica e você pratica masturbação, comete pecado mortal", explica.

Para não "se tocar durante a noite", Brolezzi tentou de tudo: desde rezar o terço antes de dormir até aspergir água benta sobre a cama. De nada adiantou. Por fim, foi obrigado a usar um "macacão antimasturbação" como pijama. A indumentária, conta, consistia em uma calça jeans e uma camisa de flanela costuradas uma na outra e vestida com o zíper voltado para trás.

"Usei várias vezes, mas, como não conseguia dormir, me autorizaram a deixar de usar. Fiquei apenas com a autoflagelação", relata Brolezzi que, por ocasião do lançamento do livro, admite ter sido alvo de críticas e ofensas.

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