Caso McCarrick. Holofote crescente aumenta a sensibilidade ou o apagamento?

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21 Julho 2018

No início deste mês, a Fordham University anunciou que seu Conselho de Administração havia votado pela rescisão de um doutorado honorário concedido ao cardeal Theodore McCarrick após revelações de que o ex-arcebispo de Washington havia molestado um coroinha há quase 50 anos, quando era padre na Catedral de St. Patrick, em Nova York.

A reportagem é de Christopher White, publicada por Crux, 20-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Na quinta-feira, o New York Times publicou outra alegação de envolvimento de McCarrick com o abuso sexual de um menor. A pessoa que faz a acusação é identificada apenas pelo seu primeiro nome, mas a história também indica que ele registrou um relatório policial no condado de Loudon, na Virgínia.

Fordham não é a única instituição a ter concedido um título honorário ao cardeal aposentado de 88 anos, que agora foi suspenso do exercício do ministério público pelo Vaticano. A Universidade Católica da América, Universidade de Notre Dame, Universidade de Georgetown, o Sienna College, a St. Peter's University, o College of New Rochelle e a Universidade de Portland, são algumas das instituições que outorgaram títulos honorários a um homem que, nos 50 anos de ministério, foi conhecido como um gigante da justiça social dentro do catolicismo americano.

Muitos sobreviventes de abusos enalteceram a decisão da Fordham. Isso também provocou perguntas sobre quais protocolos deveriam existir em casos de despojamento de cardeais de honrarias, títulos e prêmios após revelações de abuso sexual ou apagamento. McCarrick foi nomeado cardeal em 2001. Entretanto, a atitude da Fordham levantou preocupações sobre se esse tipo de ação seria de interesse particular ou se corria o risco de fazer esquecer da história.

Precedentes

Em maio de 2002, o cardeal Bernard Law recusou um doutorado honorário no Hellenic College em Brookline, em Massachusetts, no meio da cobertura devastadora do Boston Globe sobre seu envolvimento nos casos de encobrimento de abuso sexual clerical. Enquanto os curadores da instituição ortodoxa grega resistiam aos protestos do corpo docente e a uma petição estudantil contra a honraria a Law, o cardeal acabou por se retirar espontaneamente. "É o desejo do cardeal Law que os formandos e suas famílias desfrutem da alegre ocasião, livre de distrações", disse Donna Morrissey, porta-voz do Law na época.

Embora a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB, na sigla em inglês) tenha diretivas específicas quando se trata de conceder “prêmios e honrarias” para oradores do campus e outras instituições católicas, não há políticas para rescindir as honrarias já conferidas.

De acordo com Deanna Howes Spiro, diretora de Comunicação da Associação de Faculdades e Universidades Jesuítas, essas ações são deixadas para instituições individuais.

Da mesma forma, a Associação de Faculdades e Universidades Católicas, que serve como “uma voz coletiva do ensino superior católico dos Estados Unidos”, representando quase 200 instituições no país, não possui políticas específicas.

Em 2015, tanto a Fordham quanto a Marquette University, rescindiram doutorados honorários ao comediante Bill Cosby após revelações de agressão sexual. Ambas as instituições disseram que foi a primeira vez em suas respectivas histórias que rescindiram um diploma honorário.

Embora a revogação de títulos tenha sido um passo raro, há, no entanto, várias instâncias em que nomes de padres foram removidos de prédios que antes pretendiam honrar seu legado.

Em 2005, em Baton Rouge, na Louisiana, a Bishop Sullivan High School anunciou que voltaria ao seu nome original de “St. Michael the Archangel Diocesan Regional High School”, e não mais prestaria homenagem ao bispo Joseph Sullivan, que foi acusado de abuso sexual após sua morte.

Da mesma forma, o bispo Anthony J. O'Connell - que serviu em Knoxville, Tennessee e Palm Beach, na Flórida - foi alvo de um esforço coordenado que, após uma batalha de um ano, conseguiu com que seu nome fosse removido de um centro de vida familiar após a revelação de que ele havia abusado de adolescentes.

No entanto, embora os exemplos forneçam um ponto de referência histórica, resta saber se o McCarrick Family Center em Montgomery County, Maryland - administrado pela Catholic Charities de Washington, e que fornece uma gama de serviços desde apoio legal a imigrantes, e até serviços para mulheres grávidas, irá enfrentar um destino semelhante.

Confrontando o passado, enfrentando o futuro

Embora a decisão de revogar títulos honoríficos de McCarrick e outros prêmios anteriores tenha sido aplaudida por sobreviventes de abusos, outros especialistas católicos advertiram que isso correria o risco de apagar um período doloroso dentro da Igreja, que não pode ser esquecido.

Terence McKiernan, Presidente da bishopaccountability.org, um site dedicado a rastrear e registrar o histórico público da Igreja sobre abuso sexual, disse ao Crux que alguns esforços para remover nomes rapidamente de prédios ou para revogar prêmios, poderiam ser "egoístas" e vistos como uma rápida tentativa dos administradores de se distanciarem de alguém que era inegavelmente associado à instituição.

"Eu certamente entendo que os sobreviventes querem que isso seja feito, mas eu não necessariamente acho que é uma boa ideia ‘encobrir’ essas histórias negativas", disse McKiernan.

Enquanto isso, o Presidente da Liga Católica para os Direitos Civis e Religiosos, Bill Donohue, disse ao Crux que estava menos preocupado com faculdades e universidades que rescindiram honras do que com o governo forçando a remoção de estátuas controversas de lugares públicos.

"Em geral, é um grande erro encobrir a história. Em vez disso, devemos usar isso como um momento de ensino", afirmou.

Ele acrescentou que acredita que essas coisas devem ser tratadas caso a caso, e que, com relação aos diplomas honorários, a decisão deve ser deixada para os administradores com a contribuição de professores e ex-alunos.

"Eu certamente não gostaria de dizer a eles que não podem um grande bem, mas ao mesmo tempo, também fez um grande mal”, disse Donohue.

Por causa disso, no entanto, Francis Beckwith, professor de Filosofia e Estudos da Igreja na Universidade Baylor e ex-aluno da Fordham University, acredita que sua alma mater estava certa em rescindir o doutorado honorário de McCarrick - e ele mesmo contatou as mídias sociais para convocar outras instituições a seguirem o exemplo.

Ele disse ao Crux que primeiramente é necessário analisar a razão dos doutorados honorários serem concedidos para depois avaliar qual deveria ser a resposta apropriada.

Em alguns casos, observou ele, as honras são dadas na esperança de recompensa financeira, com a aspiração de que a instituição receba uma doação do indivíduo que está sendo homenageado. Na maioria deles, no entanto, ele disse que é uma ocasião para honrar as conquistas ou influências que um indivíduo teve.

"Neste caso, se fosse conhecido sobre os abusos na época, a Universidade não teria concedido o título", disse Beckwith.

O jornalista investigativo Jason Berry - que escreveu o primeiro grande livro sobre abuso sexual clerical nos Estados Unidos - acredita que lembrar do passado, com todas as suas cicatrizes e manchas, é o único caminho a seguir.

"Esse longo e doloroso escândalo forçou uma psicologia revisionista sobre a Igreja. Temos que enfrentar honestamente as realidades", disse Berryao Crux.

Por essa razão, Berry afirma que o pecado do abuso deve continuar a ser discutido e ensinado - não simplesmente apagado.

"Não se trata de questionar dogmas ou algo assim. A questão, tanto para as vítimas quanto para os bispos, deve ser sobre o confronto com o passado - e parte disso é essa realidade contínua que precisa ser tratada e não ignorada”, ressaltou.

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