Qual é o número ideal de humanos sobre a Terra?

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10 Julho 2018

"Não há muitas alternativas viáveis: ou a população de 7,5 bilhões de habitantes, em 2017, abandona o modelo 'Extrai-Produz-Descarta' e constrói um sistema de produção e consumo mais amigável ao meio ambiente ou o fluxo metabólico entrópico vai reduzir as atividades antrópicas por meio de um colapso ecológico", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; em artigo publicado por EcoDebate, 09-07-2018. 

Eis o artigo.

Muitas pessoas, recorrentemente, perguntam qual é o número ideal de humanos sobre a Terra?

Contudo, em geral, a maioria fica frustrada ao saber que não existe um número mágico como resposta. Globalmente, o número ideal de humanos depende de vários condicionantes econômicos e éticos.

O primeiro condicionante econômico é o padrão de vida. O número de pessoas que a Terra pode sustentar depende do modo de produção e consumo adotado por estas pessoas. De acordo com a Global Footprint Network, em 2013, a biocapacidade global do Planeta era de 12,2 bilhões de hectares globais (gha). Como a população mundial estava em 7,2 bilhões de habitantes, a biocapacidade per capita era de 1,71 gha. Ou seja, a Terra poderia ter 7,2 bilhões de habitantes em equilíbrio com o meio ambiente se a pegada ecológica fosse de 1,71 gha. Porém, a pegada per capita estava em 2,87 gha em 2013, somando 20,6 bilhões de gha, o que provocava um déficit ambiental de 68%.

Assim, segundo os dados da Global Footprint Network, de 2013, a presença humana sobre a Terra estava gerando um excesso de demanda em relação à capacidade de oferta de serviços ecossistêmicos do Planeta. Para equilibrar oferta e demanda, ou a população mundial (com pegada de 2,87 gha) tinha de cair para 4,3 bilhões de habitantes ou os 7,2 bilhões de habitantes tinham de reduzir a pegada ecológica para 1,71 gha.

Portanto, considerando estes parâmetros, o número ideal (que garante o equilíbrio entre a oferta e a demanda de serviços ecossistêmicos) seria 7,2 bilhões de pessoas com pegada per capita de 1,71 gha ou 4,3 bilhões de pessoas com pegada de 2,87 gha. Desta forma, o número ideal de pessoas dependeria do padrão de consumo.

Vejamos um exemplo de país rico. A pegada ecológica per capita dos Estados Unidos (EUA) era de 8,6 gha em 2013, refletindo um alto padrão de consumo. Caso a população mundial adotasse o estilo de vida americano, o número ideal de humanos sobre a Terra seria de 1,4 bilhão de habitantes para caber dentro da biocapacidade global de 12,2 bilhões de gha.

Agora vejamos um exemplo de país de baixa renda e consumo. A pegada ecológica per capita da Índia era de somente 1,1 gha em 2013. Caso a população mundial adotasse o estilo de vida médio indiano, o número máximo de humanos sobre a Terra para manter o equilíbrio com a biocapacidade de 12,2 bilhões de gha, seria de 11,1 bilhões de habitantes.

Desta forma, o tamanho ideal da população mundial para manter o equilíbrio entre a pegada ecológica e a biocapacidade é de 11,1 bilhões de habitantes, no caso de uma pegada per capita de 1,1 gha, ou de 1,4 bilhão de habitantes, no caso de um pegada per capita de 8,6 gha. Portanto, o tamanho ideal da população depende do padrão de consumo e da forma de produção dos bens e serviços à serviço da humanidade, que são os fatores principais que impactam negativamente o meio ambiente.

Evidentemente, a pegada ecológica é maior nos países ricos que nos pobres e é maior, especialmente, entre as elites ricas dos países ricos. Todavia, mesmo se houvesse uma distribuição igualitária da renda e do consumo, a humanidade estaria utilizando 1,68 planeta, apesar de haver apenas 1 planeta. E o pior, mesmo se eliminarmos da contabilidade global os 1,1 bilhão de habitantes dos países ricos com uma pegada ecológica de 6,8 bilhões de gha, assim mesmo haveria déficit ambiental. Ou seja, a pegada ecológica dos países de renda média e baixa (sem os países ricos) é maior do que a biocapacidade global. Portanto, mesmo num cenário de completa igualdade social, ou de eliminação dos países ricos, o padrão médio de consumo mundial ainda seria deficitário.

Mas além dos condicionantes econômicos também existem os condicionantes éticos. Será justo manter uma enorme população humana ao mesmo tempo em que se reduz as populações das outras espécies que habitam a Terra muito antes do Homo sapiens?

Será justo manter bilhões de indivíduos da espécie humana, enquanto desaparecem os rinocerontes, os leões, os leopardos, os elefantes, as girafas, os gorilas, os tigres, os ursos polares, as abelhas, etc.? Será justo aumentar o asfalto e o cimento das cidades e do campo enquanto as áreas de floresta são transformadas em monoculturas e desertos e a defaunação se espalha pelo mundo? Será justo manter o alto padrão de vida humana enquanto os rios urbanos são enterrados vivos e transformados em esgotos e as fontes de água potável são monopolizadas por uma elite ou poluídas, sendo que o processo de acidificação e eutrofização ameaça todas as formas de vida aquática?

Não há muitas alternativas viáveis: ou a população de 7,5 bilhões de habitantes, em 2017, abandona o modelo “Extrai-Produz-Descarta” e constrói um sistema de produção e consumo mais amigável ao meio ambiente ou o fluxo metabólico entrópico vai reduzir as atividades antrópicas por meio de um colapso ecológico.

O fato é que o volume da população atual multiplicado pelo consumo médio global é incompatível com a capacidade de carga do Planeta.

A continuidade do progresso humano global tem esbarrado nos limites das fronteiras planetárias. Por exemplo, o aquecimento global (e suas consequências) pode tornar a Terra inabitável, senão nos próximos anos, nas próximas décadas.

Enfim, o número ideal de humanos sobre a Terra é aquele que não degrada os ecossistemas, mantém o equilíbrio homeostático do clima e garante a sobrevivência e convivência harmoniosa entre todos os seres vivos da comunidade biótica. Certamente, o tamanho ideal da presença humana sobre a Terra (população vezes consumo) é de uma dimensão inferior ao seu impacto atual.

Mas há quem pense diferente. O economista Julian Simon defendia a ideia bizarra de que não havia limites ao crescimento populacional. Ele afirmava que “quanto mais gente melhor”, desde que o mundo seguisse as regras do mercado e os princípios do neoliberalismo. Simon foi assessor do presidente Ronald Reagan nos EUA e um dos líderes dos negacionistas das mudanças climáticas. Ou seja, um antineomalthusiano ferrenho e ideólogo do capitalismo degradador do meio ambiente. Simon consegue enganar muitas pessoas com seu discurso que o crescimento populacional desregrado não é um problema para a sociedade e o meio ambiente (Alves, 16/05/2012). Por incrível que pareça, há demógrafos brasileiros (Greenwashing) que referendam este tipo de pensamento antiecológico (Rosa, 13/04/2018)

A escola da Economia Ecológica mostra que a economia é um subsistema da ecologia. Assim, manter o ininterrupto crescimento demoeconômico é ambientalmente insustentável. Não se trata de produzir mais com menos, mas sim produzir menos com muito menos exploração dos recursos naturais.

O número ideal de humanos sobre a Terra é aquele que garanta a sobrevivência da espécie no longo prazo e que não empobreça o meio ambiente e nem reduza a biodiversidade do Planeta. Atualmente a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga da Terra. Somente com o decrescimento das atividades antrópicas a humanidade atingirá o número ideal de indivíduos.

Se a população ficar em torno de 7 bilhões de habitantes a pegada ecológica precisa cair para 1,7 gha. Mas com a pegada ecológica de 2,87 gha o número ideal para se atingir o equilíbrio ambiental seria de 4,3 bilhões de habitantes. O fato é que o número ideal de humanos é aquele que não provoque um desequilíbrio no clima e nem uma extinção em massa dos seres vivos que compõe a rica e essencial biodiversidade da Mãe Terra.

Referências:

ALVES, JED. O positivismo e o fundamentalismo de mercado de Julian Simon e dos céticos do clima, Ecodebate, 16/05/2012 

ALVES, JED. Decrescimento demoeconômico ou pronatalismo antropocêntrico e ecocida? Ecodebate, 20/05/2015 

ROSA, Guilherme. Crescimento da população não ameaça planeta, consumo sim. Entrevista com Roberto Luiz do Carmo, Revista Galileu, republicada no LADEM, 13 de abril de 2018 

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