"Eu esvaziaria o Vaticano. Levaria o Papa para Assis e todos os cardeais para a África". Entrevista com Antonio Mazzi

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10 Abril 2018

Antonio Mazzi nasceu em Verona, em 30 de novembro 1929, é padre e personalidade da TV italiana, comprometido com atividades de recuperação de dependentes químicos.

Antonio Mazzi pertence aos Pobres Servos da Divina Providência - PSDP  ou Opera Don Calabria (em latim Congregatio Pauperum Servorum Divinae Providentiae). PSDP é uma instituição religiosa masculina de direito pontifício.

A entrevista é de Candida Morvillo, publicada por Corriere della Sera, 09-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Dom Antonio Mazzi, aos 88 anos, qual é a sua primeira lembrança?

As lágrimas que eu derramava na escola. O sofrimento insuportável porque eu havia perdido meu pai. Ele morreu de pneumonia em 1930, eu tinha dez meses. Minha mãe vivia de bordados, não havia nenhum dinheiro. Nunca a senti próxima: sempre foi apaixonada por ele, sempre foi mais esposa que mãe. Eu odiava o colégio de Verona, onde eu cresci. Dom Calabria dizia que eu era inteligente, mas maluco. Na oitava série, acabei até rodando. Eu era rebelde.

Rebelde por quê?

Porque a religião me causava e me causa incômodo: é só regras, não é fé. Hoje, eu digo que é como um casamento que se torna um dever: se não há mais amor, o que se torna? Para a sociedade, ainda é casamento, mas para você? Pergunto-me se quem manda mais é a Igreja ou o Evangelho. Papa Francisco, pobre homem, quer que o Evangelho volte a ser Evangelho, mas ele fala isso no Vaticano, que é o lugar do poder, e sabe que vai perder.

Já se encontrou com ele?

"Em uma missa. Citei para ele a parábola do bom pastor, e disse-lhe que minha situação era melhor que a dele, porque eu podia correr atrás da ovelha perdida. O seu secretário me olhou apavorado, fiquei com medo que me mandasse embora.

De ovelhas perdidas, o senhor perseguiu milhares. Exodus, a comunidade que o senhor fundou há 34 anos, tem 40 sedes. Como decidiu dedicar-se aos dependentes químicos, prostitutas e criminosos?

Eu queria um pai e, em vez disso o Pai Eterno lá de cima me fez pai dos mais necessitados aqui embaixo. Se eu tenho fé, é porque estou convencido de que Deus é o pai e isso responde a uma necessidade profunda, que é humana, não religiosa.

Em sua autobiografia, "Amori e tradimenti di um prete di strada” (Amores e traições de um padre de rua) das Edizioni San Paolo, diz que se sente, às vezes, um herege.

Mas: o que é uma heresia? Quando eu disse que o cardeal Tarcisio Bertone era de uma riqueza revoltante, escreveu-me seu advogado para me convocar, mas eu não fui. Salva-me a popularidade. Se você não for popular, recebe uma cartinha e é proibido de falar.

Heresia também é dizer sim às uniões civis?

O amor é amor. Todos nascem para amar e serem amados. Acrescento: para desejar e serem desejados.

Desejar não é pecaminoso?

O pecado fomos nós que o colocamos no meio.

O senhor também é favorável aos padres casados?

Eu não vejo por que não.

O senhor já teve uma namorada?

Já senti simpatias, mas nunca estive apaixonado. Aconteceu nas poucas vezes que eu voltava para casa. Eu tinha uma turma de vinte primos, porém, quando os via de mãos dadas com seus pais, eu sofria ainda mais.

Como se passam os seus dias?

Eu me esqueço de mim mesmo. Eu me levanto às seis e vou para a cama quando o último dos garotos parar de gritar. Eu vivo para mudar a vida das pessoas. Quero que cada um entenda que primeiro existem os outros, depois você. Só se você aceitar isso, você perceberá que existe.

Quantos jovens acompanha, aqui, em Milão?

Fixos, 25. Durante o dia, chegam outros. Não só tóxico-dependentes, mas com diversas dificuldades, com problemas que vão de drogas ao terrorismo.

Um era Marco Donat Cattin, condenado e arrependido pelo assassinato, entre outros, do juiz Emilio Alessandrini.

Foi ele que fundou a comunidade de Verona, encontrou a casa, convenceu os dependentes a segui-lo. Ele tinha poder sobre os garotos: conseguia que fizessem o que ele queria. A situação era difícil: quando ele ficava em Milão, havia homens escondidos que nos espionavam das árvores do parque e ele tinha sido ameaçado de morte. À noite, eu o levava de volta para a prisão em Brescia.

O que mais se lembra dele?

Ele sofria muito, a relação com seu pai Carlo, o ministro da Dc, era muito difícil. Uma noite, estávamos nós três conversando e Marco teve uma crise muito forte, ele disse: "Se meu pai tivesse sido o Dom, talvez eu não fosse assim". Naquela noite, ele vomitou. Na noite de Natal, encontrei-o na missa, ministrei-lhe a comunhão.

Ele havia se confessado?

Ele trabalhou na comunidade com tal intensidade que não havia necessidade que ele pedisse perdão. Pedir perdão é fácil, é viver o perdão que é difícil.

Em seu livro, imagina São Pedro no paraíso implorando o perdão de Judas.

A primeira coisa que Deus deveria fazer para algumas pessoas é levar ao céu Judas, para que todos tenham esperança. Na prisão, eu celebrei a missa para Toto Riina e Bernardo Provenzano. Parecia uma piada, mas era a coisa certa.

O senhor também escreveu: "Eu envio Jesus para a cruz mais vezes que Judas".

Mas isso não significa fazer pecados. Eu iria queimar o Vaticano, o esvaziaria. Se eu pudesse pegar o Papa e levá-lo para Assis, eu o faria. Gostaria de ver todos os cardeais missionários na África. O Vaticano é a repetição do templo de Jerusalém.

Por que o senhor se tornou um padre?

Eu queria estudar Letras e ir para o conservatório, mas eu precisava de dinheiro para estudar. Eu fui como ajudante na "cidade dos meninos", onde o bispo de Ferrara havia recolhido os jovens dos reformatórios. Era 1951 e aconteceu a enchente do Polesine. Recebíamos desesperados às centenas. Eu, que tinha sempre sofrido com a falta de pai, deparei-me com uma multidão de órfãos e minha cabeça mudou. Se eles tinham perdido tudo em uma noite, quem era eu para sofrer? Fui até o bispo e lhe disse: vou largar tudo e ficar com eles.

E o bispo?

Ele respondeu: "Você? Desnorteado como você é?". Então eu disse a ele que aquelas crianças estavam me chamando de papai".

De seus dependentes químicos, quantos se salvam?

Cada vez menos. Antes, com a heroína e a cocaína, podiam se desintoxicar e aprender uma profissão, agora, com as drogas químicas, eles se queimam, perdem a cabeça. Precisamos mudar todo o sistema de acolhimento e atendimento. Muitos ajudantes vão embora porque nós semeamos, mas não colhemos. Então, se perde a motivação.

Qual foi, até agora, o seu método?

Se você oferecer uma aventura aos garotos, muda tudo. Na comunidade do Lago de Garda, estou fazendo a caravana dos burros. Os meninos saem em uma carruagem puxada por burros, dão a volta no lago, param, encenam uma peça de teatro. No ano passado, organizei um revezamento de ciclismo entre os centros de toda a Itália. Quando os coloco em suas bicicletas e os envio para Santiago de Compostela, eles voltam transformados, isso ocorre menos quando vão a Lourdes ou ao Padre Pio.

Por que Compostela funciona melhor que o Padre Pio?

Porque lá há a jornada e não há necessidade de aparições de Nossa Senhora ou estigmas para acreditar. Você perde a fé se está convencido de que há algo em algum lugar, porque pode acontecer que talvez você não encontre nada. Eu agradeço a Deus, que exista ou não.

O senhor se confessa?

E ia ao cardeal Carlo Maria Martini, agora ....

Agora o senhor sacode a cabeça, por quê?

Porque a confissão não tem nada a ver com os pecados: é uma conversa que liberta. Não é um ato de humildade, mas de sinceridade. Tenho dois amigos com que me confesso, mas com Martini era outra coisa. Quando havia o terrorismo e alguém se arrependia, eles vinham trazer suas armas um pouco para ele, um pouco para mim. E às vezes chegava à noite e conversávamos, ou só ficávamos em silêncio.

O que o senhor pensa do testamento biológico?

A liberdade é algo que não me sinto em condições de julgar. Eu me pergunto: quem vem primeiro, a liberdade ou a verdade? Ou estão no mesmo nível? Estas são perguntas que você carrega consigo até morrer.

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