"A lei sobre Auschwitz? A Polônia fez tudo errado"

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16 Março 2018

Oswiecim-Auschwitz. "Este é um lugar que grita, chamando por cada um de nós". Piotr Cywinski é o diretor do museu Auschwitz-Birkenau, linha de frente na guerra da memória desencadeada na Polônia pela nova lei sobre a Shoah, monumento de chaminés e arame farpado que continua a interrogar a consciência da Europa e do mundo, 75 anos após a liquidação do Gueto de Cracóvia. Foi na noite entre 13 e 14 de março de 1943, a 60 quilômetros dessas linhas, oito mil pessoas foram recolhidas e enviadas para os campos de concentração. A comunidade judaica histórica desapareceu da cidade dos reis poloneses.

A entrevista é de Maria Serena Natale, publicada por Corriere della Sera, 14-03-2018. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis a entrevista.

Comunidade que lentamente se reconstitui. Agora há o medo de que a lei da Shoah alimente novo ódio naquela parte da Polônia, que se sente sob assédio.

O antissemitismo está crescendo por toda a Europa, de diferentes maneiras. Na versão mais aceita, apresenta-se como militância anti-israelense, com diversos apelos de boicote ao Estado Hebraico, mas, analisando-o melhor, sempre encontramos o antigo núcleo antissemita. É uma forma de xenofobia e, como todas as fobias, tem um fundo irracional, impossível de arrancar com as ferramentas de lógica. Quanto ao retorno dos judeus, hoje existe uma pequena comunidade em Cracóvia, entre as mais animadas do país, e seus jovens são extraordinários, mas temo que seja um fenômeno residual, porque a máquina alemã da morte fez seu trabalho e o passado não pode ser apagado.

Esta sempre foi uma terra fronteiriça atravessada por contaminações culturais. O País que diz que não à imigração, e se afasta do resto da Europa, trai a si mesmo?

Qualquer construção social que se desata de suas raízes está destinada a desmoronar. A Polônia nunca foi uma nação monocultural, como a França moderna, onde ser cidadão era o mesmo que ser francês. O fechamento atual também é resultado do veneno inoculado pelo comunismo, um efeito colateral da homogeneidade imposta no período pós-guerra.

O reclinar-se sobre identidades etnicamente conotadas é traço marcante em muitas sociedades ocidentais. Que papel o senhor vê para a História nas nossas democracias?

A História tem sempre dois objetivos possíveis, um políticos e instrumental, que visa a criação de uma identidade fundada no orgulho nacional, e o outro autenticamente científico, que visa reconhecer traços, sinais e alarmes para construir uma responsabilidade compartilhada para o futuro. As duas abordagens entram geralmente em conflito. Condenamos o silêncio e a inação de quem não se opôs ao mal em Auschwitz, mas os memoriais de amanhã denunciarão a indiferença em relação à Rohingya, Sudão do Sul, Ruanda. Na Europa reduzimos a guerra a um legado do passado, mas, desta forma, a História tornou-se um simbólico campo de batalha em que comunidades e Estados se enfrentam, muitas vezes, ainda prisioneiros de traumas não elaborados.

Neste campo de batalha se coloca a lei da Shoah, desejada pelo governo nacional-conservador, que proíbe o uso da expressão "campos de extermínio poloneses". Vista de Auschwitz, qual o significado dessa regra?

A consciência histórica não é e não pode ser uma questão de lei, ela amadurece através do estudo e do conhecimento. É por isso que a política deve ficar fora de lugares como este, e nós fora dos locais da política. Infelizmente, a fórmula "campos poloneses" tem sido amplamente utilizada pela imprensa internacional, que de outra forma tende a definir os lagers "nazistas", e não "alemães". A lógica geográfica então não vale em outros contextos. Guantánamo, para dar um exemplo recente, localiza-se em Cuba, mas é claramente "americana". Sobre o mérito, esta lei está mal escrita e está radicalmente errada. Se encararmos os direitos fundamentais, como a liberdade de expressão, é necessário sermos claros e concretos, e interpelar todos os sujeitos envolvidos. Mas não foi assim.

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