O Papa pintado como “super-herói” que convida para não acreditar em “super-heróis”

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15 Março 2018

Cinco anos após a eleição de Francisco, pode-se dar como concluída a longa “lua de mel” midiática que acompanhou o Pontífice argentino? A resposta pode ser afirmativa se considerarmos os comentários severos que em muitos meios de comunicação internacionais cobrem o quinto aniversário: eles contêm decepção, especialmente em relação à gestão dos casos de pedofilia entre o clero ou pela falta de algumas reformas históricas, que sempre estiveram na agenda de algumas frentes “progressistas”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 13-03-2018. A tradução é de André Langer.

Ao mesmo tempo, a grande onda de comentários na galáxia da mídia tradicionalista ou conservadora (não tão consistente em termos numéricos, mas presente na internet e nas redes sociais) segue atribuindo ao Papa Francisco tudo e mais um pouco, como se até cinco anos atrás na Igreja todos sempre estiveram de acordo e não tivesse havido discussões ou confusões, como se nunca tivesse havido qualquer crítica teológica e como se a sociedade ocidental vivesse na plena observância dos mandamentos da moral católica. A crítica corrosiva, a chacota, a linguagem do ódio por parte daqueles que escrevem e muitas vezes comentam antes de se terem informado sobre o que aconteceu ou sobre o que o Papa disse, tornaram-se comuns em determinados círculos ruidosos, mas auto-referenciais.

Claro, devemos reconhecer que da auto-referencialidade não se salvam nem mesmo alguns “intérpretes” de Bergoglio, que tentam elaborar chaves hermenêuticas do Pontificado, com base em seus esquemas ou suas agendas, e que acabam transformando as mensagens e o testemunho pessoal da Papa em slogans vazios ou confirmando apenas seus próprios projetos.

Passados cinco anos daquela tarde de 13 de março de 2013, quando, de forma inesperada, esse ex-arcebispo argentino apareceu vestido de branco na sacada central da Basílica de São Pedro, o que há para dizer? Um olhar atento, baseado na realidade, pode considerar que (além do possível “efeito Bergoglio” no número de confissões, hoje controverso) passou uma mensagem graças às palavras e ao testemunho pessoal de Francisco. E esta mensagem é o rosto de um Deus misericordioso.

E, portanto, de uma Igreja que abre completamente os braços, que vai em busca daqueles que estão longe, que não tem preconceitos contra ninguém, que mostra ternura e “proximidade” com aqueles que sofrem no corpo e no espírito, que acolhe e ama antes de julgar porque, por sua vez, foi amada e perdoada. Uma Igreja que tenta ser fiel ao Evangelho e, portanto, permite que o Evangelho a fira e julgue, sem se fechar em fortificações para puros, sem criar barreiras, sem negar sua pertença à humanidade ferida e em busca, a essa humanidade que pergunta. Como a multidão de dois mil anos atrás seguia Jesus de Nazaré, enquanto os homens religiosos e os homens da lei de seu tempo tentavam impedi-lo.

Esta é a mensagem, este é o olhar, a “reforma” mais necessária. A reforma dos corações que só pode nascer da conversão pessoal. Todo o resto, incluindo as reformas estruturais, serve para este fim ou é, no melhor dos casos, inútil, ou mesmo prejudicial.

A reforma da cúria romana ainda é uma obra em construção. Agilizar e aligeirar as estruturas revelou-se ser muito mais difícil do que o previsto. Especialmente se, para isso (e esta é uma das sombras do claro-escuro), tivemos que recorrer a muitas comissões e assessorias que custaram milhões com agências e instituições que são principalmente alheias à peculiar missão da Santa Sé. Sempre está à espreita, efetivamente, o perigo de uma visão empresarial que acaba por reduzir a Igreja a categorias exclusivamente mundanas, geridas como se fosse uma “holding”, hipersensível à própria imagem midiática.

Nas últimas semanas, e agora nas análises dos cinco anos que se passaram, há uma persistente e constante insistência no caso Karadima-Barros, nos abusos contra menores no Chile e nos acobertamentos que os acompanharam. A linha da “tolerância zero”, corajosamente iniciada por Bento XVI, continuou com a criação da Comissão de Proteção dos Menores e com leis e normas de emergência.

Mural de Maupal a Borgo Pio | Foto: La Stampa

Mas também neste caso, como no caso das reformas financeiras, a ênfase recai exclusivamente nas normas e na “accountability” (palavra inglesa que descreve a responsabilidade dos administradores que utilizam fundos públicos na hora de prestar contas tanto no nível da regularidade das finanças como na da eficácia da administração; agora também é usado para definir a responsabilidade dos bispos na gestão dos casos dos abusos), mas corre-se o risco de produzir um curto-circuito. Porque sempre haverá alguém mais “zero tolerante” ou mais financeiramente “transparente”, pronto para insistir em que não se fez o suficiente, que, nesse caso ou em outro, as coisas deveriam ter sido enfrentadas de outra maneira.

Ainda ressoam, um pouco desafinadas, no atual estágio da cúria, as reivindicações de “diversidade”, as afirmações dos êxitos obtidos, que sempre acabam descarregando todas as culpas nas administrações anteriores. Estão fora de sintonia principalmente porque, às vezes, servem para esconder pequenos jogos de poder. E também porque se enquadram no âmbito dessa visão empresarial e funcional que acaba representando um dos melhores exemplos desse neo-pelagianismo que Francisco denunciou tão energicamente.

Em vez disso, o que seria necessário é o reconhecimento da necessidade absoluta de que a Igreja precisa ser constantemente regenerada por seu Chefe (que nunca foi o Papa, que é apenas o vigário do Chefe). O que é necessário na cúria, como em qualquer diocese, paróquia, comunidade eclesial, é a consciência sobre o que é essencial. É a consciência do objetivo que dá existência à Igreja. Que não é ensinar ao mundo como administrar uma empresa ou um banco, ou como usar da melhor maneira possível os meios de comunicação ou as redes sociais, ou como organizar as grandes estruturas colegiadas, etc. O objetivo da Igreja é refletir uma luz que nunca foi, nem poderá ser, uma luz própria (como, ao contrário, acabam acreditando os neo-pelagianos).

Do ponto de vista de uma Igreja consciente de seus limites e do pecado de seus homens, pode surgir algo novo. Somente uma Igreja que vive do Evangelho pode atrair (e crescer por atração, como diz o Papa Ratzinger). Somente uma Igreja que não se apresenta como transnacional e que não confia nas suas “best practices” ou nas suas estratégias pastorais de marketing, mas que se abandona ao seu Senhor, pode evitar que as mensagens se transformem em slogans vazios, em palavras sem significado ou, pior ainda, em slogans que servem para escamotear novos conformismos ou novos grupelhos. Somente uma Igreja que vive autenticamente do Evangelho pode dialogar com todos e buscar todas as formas possíveis para melhorar a vida das pessoas, aliviar os efeitos das guerras, tentar impedir a eclosão de outras, propor modos de paz confiáveis e denunciar as violações dos direitos humanos. Tudo de bom que foi feito nos últimos anos foi possível graças a esta perspectiva.

Esta consciência, já tão clara no magistério incompreendido de Bento XVI, fica evidente em relação ao seu sucessor Francisco. Bastaria recordar o discurso que o Papa Bergoglio pronunciou aos consagrados e consagradas em Santiago do Chile no dia 16 de janeiro de 2018.

“Nós não estamos aqui porque somos melhores do que os outros. Nós não somos super-heróis que, do alto, descem para se encontrar com os ‘mortais’. Pelo contrário, fomos enviados com a consciência de ser homens e mulheres perdoados. E essa é a fonte da nossa alegria... Jesus não se apresenta sem chagas. Uma Igreja com chagas é capaz de compreender as chagas do mundo de hoje e fazê-las suas, apoiá-las, acompanhá-las e tentar curá-las. Uma Igreja com chagas não está no centro, não se acha perfeita, mas coloca no centro o único que pode curar as chagas e que se chama Jesus Cristo”. A consciência de ter chagas, insistiu Bergoglio no Chile, nos liberta; sim, liberta-nos de “nos tornarmos auto-referenciais”, de achar que somos “superiores”.

O Papa, que muitas vezes é representado como um super-herói, nos diz que a Igreja não precisa de super-heróis. Ele mesmo se considera tão pouco super-herói que aceita a humilhação de ser o alvo de detratores e profissionais da injúria diária. Hoje, passados cinco anos desde o início do Pontificado, com o olhar fito no futuro, podemos esperar que haja menos atenção para o Papa como um personagem midiático e super-protagonista do cenário. Para evitar permanecer no dedo que aponta para a lua, em vez de erguer um pouco os olhos.

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