Eucaristia: superabundância, dom e perdão. Artigo de Michele Giulio Masciarelli

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18 Fevereiro 2018

“Na Eucaristia, Cristo sintetiza sua ‘superabundância encarnada’: em nenhuma experiência cristã e em nenhum outro sacramento, como na Eucaristia, está presente o ‘mistério da Encarnação’, porque ali está a pessoa de Jesus, essência do cristianismo.”

A reflexão é do teólogo e padre italiano Michele Giulio Masciarelli, professor da Pontifícia Faculdade Marianum, em Roma, e do Istituto Teologico Abruzzese-Molisano, em Chieti, na Itália, em artigo publicado por Settimana News, 12-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Eucaristia e o princípio da superabundância

1. Ratzinger e a “lei da superabundância”

Uma convicção consolidada do cristianismo é que Deus é e se mostra desde sempre como o Deus da superabundância. Esse pensamento, de fato, é tematizado teologicamente por uma oração litúrgica: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no Vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a Vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir” [1].

A essa convicção de fé, a Igreja também foi educada pela frequentação da teologia patrística [2], bem como pela sua experiência das Escrituras que, sem a necessidade de demonstrações, fazem do superabundante amor da misericórdia um primeiro princípio fundante de toda a revelação.

Joseph Ratzinger escreveu que “a autêntica definição da história da salvação pode ser sintetizada na palavra ‘superabundância’” [3]. É uma afirmação de grande importância: ele investe sobre ela uma carga de responsabilidade teológica notável, porque coloca uma única palavra (“superabundância”) o peso de sintetizar o sentido de toda a história da salvação ou, melhor, de se erguer a sua microdefinição.

Ratzinger escreve ainda: “O Reino dos Céus deveria permanecer como uma utopia vazia. E, com efeito, deverá permanecer como uma utopia vazia, enquanto ele for deixado unicamente à baila da boa vontade dos homens. [...] Desse modo, porém, a constatação da exígua ‘justiça’ do homem se ergue, ao mesmo tempo, como chamado à justiça de Deus, cuja superabundância se encarnou em Jesus Cristo. Ele é, verdadeiramente, a justiça de Deus que vai muito além da mera obrigatoriedade, que não se torna miserável em cálculos mesquinhos, mas, em vez disso, é verdadeiramente superabundante, encarnando a imensa generosidade de seu amor, mediante a qual ele ultrapassa infinitamente o fracasso do homem” [4].

2. A Eucaristia, sacramento da “superabundância”

Na Eucaristia, Cristo sintetiza essa sua “superabundância encarnada”: em nenhuma experiência cristã e em nenhum outro sacramento, de fato, como na Eucaristia, está presente o “mistério da Encarnação”, porque ali está a pessoa de Jesus, essência do cristianismo [5]. A Eucaristia – como memória da cruz – conserva todos seus méritos e é o princípio ativo, para que, junto com o outro aspecto do mistério pascal-ascensional-pentecostal, possa injetar na vida do homem a carga redentora.

A Eucaristia realiza isso conservando em si “a imensa generosidade de seu amor, mediante o qual ele ultrapassa infinitamente o fracasso do homem”, do qual Ratzinger escreveu.

A Eucaristia faz muito mais, porque não se contenta com remediar o “fracasso do homem”, pois ela não é apenas semente de redenção, mas também de salvação, que tem seu ponto mais alto, o seu vértice, na filialidade adotiva e na consequente glória celeste: de fato, “se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo, uma vez que, tendo participado dos seus sofrimentos, também participaremos da sua glória” (Rm 8, 14-23).

A Eucaristia faz ainda mais: torna-se princípio salvífico, não apenas dos homens individuais, mas também da Igreja, da comunidade humana, de toda a criação. Na terra e no tempo, tudo é imperfeito: as coisas, as situações, os tempos, os espaços, os projetos, as obras, os homens, as mulheres, as relações, as religiões, as Igrejas, os homens da Igreja, o bem realizado, as virtudes cultivadas. A Eucaristia, como “cálice da síntese”, reúne e conserva tudo isso e faz disso o penhor da glória.

No caminho do mistério, salvam-se a vida e a morte. Ao contrário, fora dela, a morte se torna brutal, e a vida, insensata: “Onde realmente há um fim, por si só, não há mistério algum. Mas, onde há mistério, não existe aquilo que chamamos de ‘fim’. Há, em vez disso, uma superabundância de realidade que não conseguimos imaginar. Assim, deve-se dizer que a morte é mistério, enquanto não somos autorizados a dizer o que é o fim” [6].

A Eucaristia e o princípio do dom

1. A Eucaristia, vértice da história do dom

A Eucaristia está inscrita na história do dom. Está tão inscrita a ponto de poder dizer que ela é essencialmente dom (o Pão dado), e o dom é essencialmente eucarístico (fora da perspectiva do dom, a Eucaristia não é decifrável). Da experiência do dom, que no fundo é o nome de todo o cristianismo [7], a Eucaristia é o ponto apical, o vértice que não pode ser ultrapassado. Jesus pronuncia as palavras que anunciam a Eucaristia, depois de ter saciado a multidão no deserto (cf. Jo 6, 1-15). O dom que ele promete e opõe ao maná (cf. Jo 6, 31s.49s.) se abre em três direções:

- rumo ao passado da salvação, recordando as maravilhas do Êxodo; a Eucaristia evoca o maná espalhado por Deus nas estepes do Sinai, “alimento dos anjos”, capaz de oferecer toda delícia e de satisfazer todos os gostos, manifestação da doçura (de Deus) a seus filhos (cf. Sb 16, 20-21). Será o próprio Jesus que fará resplandecer essa referência ao evento do Êxodo e à eterna “terra prometida”, que é o céu de Deus.

- rumo ao futuro da glória, aludindo ao banquete messiânico, uma imagem judaica familiar da felicidade celeste (cf. Is 25, 6; cf. escritos rabínicos): “Na liturgia terrena, nós participamos, degustando-a antecipadamente, da celeste” [8]. É o próprio Jesus que nos faz provar na Eucaristia o duplo sabor de alimento do peregrino e de alimento da plenitude messiânica na eternidade (cf. Is 25, 6).

- rumo ao presente da graça, referindo-se ao tempo da segunda Aliança, o tempo em que o Pão dado adquire seu significado mais denso de mistério, uma vez que se torna memória do dom de vida ocorrido sobre a cruz por parte do Pai aos homens e por parte de Cristo ao Pai e seus irmãos (cf. Mt 8,11; 22, 2-14; Lc 14, 15; Ap 3, 20; 19, 9).

2. A Eucaristia, dom do Pai em Jesus Cristo

O Pai revela e mostra seu amor, dando-nos o Filho (cf. Jo 3, 16) e, no Filho, o Pai doa a si mesmo, porque Jesus está todo repleto da riqueza do Pai (cf. Jo 1, 14): tudo o que pertence ao Pai é dado ao Filho (cf. Jo 17). Ele é o “verdadeiro pão do céu dado pelo Pai”, ele dá “a sua carne pela vida do mundo” (Jo 6, 35.51; Lc 22, 19).

Jesus no mistério natalício-pascal, é dado e se doa, porque é oferecido e se oferece. No fim da dinâmica de dom celebrada sobre a cruz, o Ressuscitado-Glorificado exerce seu senhorio pascal e celeste enviando sobre a Igreja e sobre o mundo o Espírito, dom de Deus por excelência (cf. At 8, 20; 11,17).

3. A Eucaristia, dom ao Pai em Jesus Cristo

Pelo sacrifício da cruz, passa o dom do Pai à humanidade (cf. Jo 3, 16), mas também o dom do homem a Deus (cf. Hb 3, 3; 9, 14). Desse modo, o dom se torna único e inigualável, torna-se dom essencial: a vida de Cristo oferecida em um sacrifício perfeito e radical dura para sempre (cf. Hb 7, 17). Aqueles que se unem ao dom essencial do Filho essencial tornam-se dom sacrificial (cf. Rm 12, 1) para os outros (cf. Hb 13, 16). Assim, o dom da graça de Cristo não serve apenas àqueles que o recebem, mas se torna fecundo e frutuoso para muitos (cf. Jo 15; Mt 25, 15-30).

Isso confirma uma antiga regra: o dom não se consome, mas se multiplica oferecendo-se. Temos o primeiro sinal milagroso e misterioso disso na multiplicação dos pães realizada por Jesus: no fim, com o povo saciado e os cestos retirados, havia mais pães e mais peixes do que antes de serem distribuídos. Mas o sinal insuperável de que o dom se multiplica dando-o nos é dado por Jesus na Eucaristia: é um pão dado, um vinho derramado, que bastam sempre e para todos.

A Eucaristia e o princípio do perdão

1. A Eucaristia recorda o perdão da cruz

O arco de sentido da Eucaristia é tão amplo quanto o arco de sentido da cruz. Em termos diferentes, pela Eucaristia, passa todo o mistério da cruz. Por isso, a medida do amor expressado sobre a cruz por Jesus ao Pai como “Filho essencial” (Pe. F.-X. Durrwell) e como “Irmão universal” (R. Voillaume) está misteriosamente conservado e significado, em todo o seu poder e ternura, na Eucaristia, o Pão dado que conserva os infinitos dinamismos caritativos que se entrelaçam em torno da cruz de Jesus na “hora nona”.

Há um modo de fazer durar no tempo dos homens o evento de perdão que aconteceu sobre a cruz (Jesus pediu perdão), além da cruz (o Pai aceitou o pedido de perdão do Filho), a partir da cruz (o Espírito se deixou enviar pelo Messias moribundo como Sabedoria do perdão), debaixo da cruz (Maria, como Igreja nascente, consentiu com o evento martirial do perdão do Filho como mãe messiânica)?

A resposta a essa complexa pergunta é: o modo mais poderoso para fazer durar para sempre o evento do perdão sobre terra e nos dias dos homens é a Eucaristia, que é memória de perdão e recorda que Jesus sobre a cruz inscreveu o perdão na ordem do princípio: no coração da “hora”, ele propõe o perdão como princípio de vida.

A Eucaristia educa ao perdão, que a cruz consagrou como princípio de vida e de missão. Portanto, o perdão não deve ser reduzido ao exercício privado de uma virtude, mesmo que difícil – é um “dever terrível (...) perdoar os nossos inimigos” [9] –, mas deve ser compreendido como um princípio constitutivo da própria vida eclesial.

2. A Eucaristia, fermento de perdão

O pão eucarístico dá a força de graça para poder perdoar. O perdão também tem uma dimensão antropológica: ele não é possível para aqueles que não têm coração (se poderia dizer, para aqueles que não têm coração eucarístico), nem pode ser realizado por aqueles que têm um coração pequeno (que não se inspira na generosidade da Eucaristia, o Pão de salvação oferecido a todos): para poder perdoar, é preciso ter um coração grande e crente. Para perdoar, é preciso ter, em certo sentido, o coração de uma mãe, pois o perdão tem uma natureza ou uma “fonte materna” [10].

De fato, o perdão é um amor “excessivo”, que se manifesta como a expressão de um coração materno, do qual brota um amor que se deixa reconhecer: como amor sem fronteiras, que dá medidas altas às suas manifestações, na única lógica do desinteresse; como amor extrovertido, que sabe antepor o outro a si mesmo com uma determinação o mais forte e convicta possível; como amor sábio, que sabe respeitar o ilimitado valor do outro mesmo em situações de conflito.

Por esses motivos, o amor materno tem uma função paradigmática e matricial em relação a todas as outras formas de amor. Sua necessidade decorre do fato de o perdão ser de natureza materna. É um postulado cristão: o perdão é obrigatório, assim como é necessário ter uma mãe para ser.

A natureza materna do perdão pode ser vista, de um modo muito concreto, na Igreja, à qual é confiado o poder de perdoar como um dos aspectos essenciais da sua missão [11]. Dá o que pensar o fato de os dois poderes salvíficos (posse salvifici) do sacerdote, por nenhum outro cristão substituível, são precisamente o poder eucarístico (a capacidade de transformar o pão no corpo e o vinho no sangue de Cristo) e o poder de perdão (a capacidade de transformar um pecador em um justificado).

Isso significa que a Igreja deve ter coração; de outro modo, sua maternidade seria apenas retórica: precisamente por ser mãe, a Igreja é capaz de amar com coração materno, cujo sinal extremo é o amor perdoador. Isso significa que a Igreja deve ser eucarística até o fim.

Notas:

1. Missal Romano (Vetus ordo), Oração Coleta do 27º Domingo do Tempo Comum – Ano C.

2. Basta uma única exemplificação: “Recordemo-lhe [à Igreja] a benignidade de Deus, a superabundância de sua bondade e a imensidão de sua misericórdia, para nos alegrarmos, ainda mais do que ela, com o imenso dom do Deus de todas as coisas, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, e não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (Ez 18, 23)” (João Crisóstomo, Homilias sobre o Gênesis, 29).

3. Introduzione al cristianesimo. Lezioni sul simbolo apostolico. Bréscia: Queriniana, 1969, pp. 210-211

4. Ibidem, pp. 207-209.

5. Cf. R. Guardini. L’essenza del cristianesimo. Bréscia: Morcelliana, 1962, passim.

6. R. Mancini. Il senso della fede. Una lettura del cristianesimo. Bréscia: Queriniana, 2010, p. 94.

7. Para se iniciar na teologia do dom, cf. O. Battaglia. La teologia del dono: ricerca di teologia biblica sul tema del dono di Dio nel Vangelo e nella I lettera di Giovanni. Assis, 1971; J. Navone. Dono di sé e comunione: la Trinità e l’umana realizzazione. Assis, 1990.

8. Concílio Ecumênico Vaticano II, constituição dogmática Sacrosanctum Concilium, n. 8.

9. C. S. Lewis. Il cristianesimo così com’è. Milão: Adelphi, 1997, p. 149.

10. Cf. R. Mancini. Esistenza e gratuità. Antropologia della condivisione. Assis, 1996, pp. 133-138.

11. Quando Jesus dá a Pedro o “primado”, ele lhe confere o poder de perdoar (cf. Mt 16, 20). “A Igreja é [...] a comunidade de homens e mulheres marcados pelo pecado, mas também pela graça do perdão. A Igreja vive do perdão de Deus e, por isso, é chamada a fazer os homens viverem, ministrando o perdão” (E. Bianchi. “Il Figlio dell’uomo, quando verrà, troverà la fede sulla terra?”. In: AA.VV. “Non vi sarà più notte”. Notte della fede, notte della Chiesa. Seminario di spiritualità della “Rosa Bianca”. Milão, 28 out. 1995. Bréscia: Morcelliana, 1996, p. 49).

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