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18 Dezembro 2017

"Quando pensamos em Thoreau hoje, não é para lembrar essas histórias de sofrimento. Este ano, que marca o bicentenário do seu nascimento, os Estados Unidos tem celebrado uma vida dedicada à natureza em sua luminosa multiplicidade, além de suas meditações notáveis acerca da desobediência civil".

O comentário é de Ariel Dorfman, autor de La muerte y la doncella e, mais recentemente, da novela Allegro. Ele vive com sua esposa no Chile e nos Estados Unidos, onde é professor emérito da Universidade de Duke, publicado por Página|12, 16-12-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas

Eis o artigo.

Os corpos jazem espalhados ao longo da praia. Enterrá-los não é fácil, porque ninguém sabe os nomes dos falecidos, em sua maioria mulheres e crianças que fugiram da fome e da pobreza, na esperança de chegar a uma terra de boas promessas. Alguns espectadores observam boquiabertos os escombros de um barco que acaba de naufragar, "todo quebrado nas rochas, como uma casca de ovo", enquanto outros, implacáveis, continuam com suas tarefas cotidianas.

"Em meio à multidão que contempla estes destroços", uma testemunha escreve, "havia homens que laboriosamente recolhiam as algas marinhas que a tempestade depositou no litoral, amontoando-as fora do alcance da maré, embora se viam frequentemente obrigados a descartar pedaços de roupas da sua coleta".

Esta cena de devastação e indiferença parece arrancada das últimas manchetes e fotos que nos abalam diariamente, outro grupo de refugiados que aparecem brevemente e em seguida desaparecem de nossas telas e de nossa consideração, com igual fugacidade. Mas o naufrágio do qual falamos ocorreu em outubro de 1849 e suas vítimas eram cento e quarenta imigrantes irlandeses que morreram quando o St. John, o barco em que haviam partido "ao Novo Mundo, da mesma forma que fizeram Colombo e os Peregrinos ingleses", afundou durante uma tempestade colossal nas margens do Cabo Cod. E nem sequer recordaríamos a sua existência ou o seu destino fatal se quem narrou sua morte não tivesse sido o grande naturalista e escritor Henry David Thoreau.

Quando pensamos em Thoreau hoje, não é para lembrar essas histórias de sofrimento. Este ano, que marca o bicentenário do seu nascimento, os Estados Unidos tem celebrado uma vida dedicada à natureza em sua luminosa multiplicidade, além de suas meditações notáveis acerca da desobediência civil. Vale a pena, no entanto, examinar essa experiência quase desconhecida na costa do Cabo Cod, aquela calamidade que aconteceu há tanto tempo e que, no entanto, sentimos de maneira tão triste e atual, tão graficamente relevante. Porque Thoreau está nos lançando sobre o abismo do tempo, um desafio que faríamos bem em atender.

O que mais me abala em nosso século impiedoso é a maneira em que Thoreau compreendeu e demarcou o dilema moral enfrentado pelas pessoas que testemunham diariamente catástrofes semelhantes ao naufrágio do St. John. O escritor contempla os trabalhadores, que são "um assunto carente de qualquer interesse humano", seguindo com as suas tarefas habituais: "Por mais que muitos tenham se afogado, estes homens não esqueciam que aquelas algas eram uma valiosa carga de fertilizante. O naufrágio não havia produzido uma vibração visível no tecido da sociedade". E nota que, para um velho que, junto a seu filho, empurravam um carrinho de "algas despedaçadas" para seu rancho, "aqueles corpos... não eram mais do que outras algas que a maré havia vomitado, sem valor para seus propósitos".

Thoreau não se propõe a fazer julgamentos sobre essa atitude, talvez porque ela reflita, estranhamente, a sua própria perspectiva, animada por um certo desapego, sem paixão. Ele explica - e veja que esse autor era eloquente para examinar seus vai-e-vens e contradições mentais! - as razões por trás dessa distância emocional: “Se tivesse encontrado um cadáver deitado na praia em um lugar solitário, teria me afetado mais”, acrescentando que "mais do que todos os cemitérios em conjunto, é o individual e o privado que exigem da nossa simpatia".

É uma observação que incomoda, quanto mais por ser irrefutável. Unicamente neste ano do bicentenário de Thoreau, enormes contingentes de refugiados seguem agonizando sem que tenhamos a menor ideia de sua vida, sonhos, rostos. Quem sabe algo tangível sobre as centenas de mexicanos e centro-americanos que, anonimamente, pereceram somente em 2017 tentando atravessar o deserto que, como um oceano vasto, seco e rochoso, separa o México dos Estados Unidos? Ou sobre os Rohingya que se afogaram dias atrás na Baía de Bengala, quando fugiam dos massacres na Birmânia? E acaso não ignoramos completamente a vida e a morte dos quase três mil imigrantes da África e do Oriente Médio que pereceram no Mediterrâneo em busca de refúgio na Europa, cem deles nas últimas semanas, incluindo vinte e seis mulheres nigerianas, a maioria menores de idade que podem ter sido violadas antes que fossem tragadas pelas águas?

Não poderíamos falar destes refugiados da mesma forma em que Thoreau escreveu acerca dos corpos irlandeses: “Por que motivo cuidar desses cadáveres? Na verdade, eles não têm outros amigos além dos vermes e dos peixes".

Se Thoreau estivesse vivo, poderia usar amplamente nossa assombrosa falta de atenção para a tragédia alheia como uma prova de que pouco mudou desde que ele andou pelas praias do Cabo Cod, em 1849. Ainda somos confrontados hoje, como seremos amanhã, pelo mesmo dilema ético que Thoreau formulou com elegância, mas que não conseguiu resolver: como rejuvenescer as fontes de piedade quando as imagens de restos humanos nas encostas, desertos ou sob as ruínas de uma cidade são tão incessantes e inesgotáveis que acabam convertidos em uma nebulosa de cadáveres que ninguém pode discernir e processar de uma maneira significativa?

Uma maneira de encarar este "colapso da compaixão", segundo alguns psicólogos têm chamado, é seguir uma rota que o próprio Thoreau não tomou. O "alvoroço da natureza", dizia ele, era responsável por essas mortes, para não mencionar qualquer "vibração visível do tecido social" que poderia ter impulsionado essas famílias a abandonar sua terra natal. Ele não descreve (nem neste escrito, nem em outro qualquer) a fome que pressionou tantos irlandeses, prestes a morrer, a emigrarem, uma fome que foi criada por seres humanos e não por alguma caprichosa "lei da natureza". A praga que afetou as batatas e levou tantas famílias irlandesas a subirem em barcos perigosos foi agravada por problemas sociais e econômicos: a exploração de terras por latifundiários forasteiros, os procedimentos que favoreciam a criação de ovelhas no cultivo de alimentos, a qual haveria de acrescentar a negligência e crueldade do governo colonial britânico que exportou grandes quantidades de mantimentos nos mesmos anos em que sua população estava morrendo de fome.

Hoje, se cada um de nós não consegue abrigar em nossos corações a imensa plenitude de nossas adversidades contemporâneas, é possível, pelo menos, admitir e compreender as causas profundas e prolongadas de tais cataclismos, um passo essencial se quisermos evitar novas desgraças. Guerras civis, miséria, repressão política, secas prolongadas e poluições ambientais não foram forjadas pela natureza, mas pelo homem. Na verdade, é a nossa característica extremamente humana que depreda o mundo natural - o que mais temia Thoreau ao agradecer que "os homens não podiam voar, porque, além de terra, arruinariam o céu e ar" - o que gera reiteradamente os conflitos e a escassez que compelem tantas pessoas a procurar amparo em países estrangeiros. Uma situação que vai piorar: a Organização Internacional para as Migrações (OIM) estimou que, em 2050, as mudanças climáticas levarão duzentos milhões de refugiados a fugir de suas casas.

Se Thoreau não analisou a tempestade de males sociais que conduziam a esse naufrágio tão infeliz de 1849, com a paciência e perspicácia que ele dedicou a árvores, flores e arroios, isto pode nos servir, no entanto, como um modelo do que devemos fazer quando nos sentimos indefesos e ultrapassados pela magnitude dos horrores que nos agridem periodicamente. Seria urgente, no momento em que a Terra que ele tanto venerou sofre um saqueio sem sentido, quando as migrações forçadas chegaram a definir o nosso século violento, que escutemos seu chamado à uma resistência pacífica contra a opressão, sua profecia de que "nunca é tarde para que homens honestos se rebelem".

Não se tratava, para Thoreau, de meras palavras. Opondo-se às duas desigualdades de seu tempo, as infâmias da escravidão e da guerra dos Estados Unidos contra o México (cujo objetivo imperialista era o de expandir os territórios onde a venda e a exploração de escravos poderia prosperar), recusou-se a pagar seus impostos, preferindo que o encarcerassem. Foi esta postura que conduziu Thoreau a escrever seu ensaio sobre "A Desobediência Civil", que viria a inspirar Tolstói, Gandhi, Martin Luther King e Pérez Esquivel.

Certamente, muitas vezes tais atos de desafio à autoridade e à lei têm consequências dolorosas e, por vezes, letais. E é igualmente certo que muitos de nós - e me incluo relutantemente nessa maioria - não possuem nem força de vontade, nem coragem para suportar tais danos. Isso não significa que estejamos condenados a levar "vidas de desespero silencioso que terminam no cemitério sem haver cantado a canção que trazemos dentro de nós". Thoreau compreende que o caminho do martírio não é para todos. Pelo contrário, duzentos anos após seu nascimento, ele sugere que cada um de nós possa participar na transformação do mundo a sua própria maneira: "Posto que não importa o quão pequeno pareça algo em seu início: o que é bem feito tem efeitos eternos".

Thoreau acredita que, assim como a própria Natureza, podemos nos renovar "completamente a cada dia que passa". Sua voz nos encoraja a descobrir aquele gesto mínimo com o qual se pode contribuir para uma sociedade diferente. É uma tarefa urgente, já que aqueles cadáveres que infectam as areias e o mar que Thoreau teve de contemplar - e que se repetem obscenamente em nossos dias - profetizam, na tela profética de nossa imaginação, o destino coletivo que espera o barco da humanidade que se dirige inexoravelmente para as rochas. Aqueles mortos abandonados estão nos advertindo que precisamos agir agora mesmo, que é preciso cantar essa canção que ainda persiste dentro de nós, antes que seja tarde demais para evitar o naufrágio que ameaça nosso planeta danificado. E sem um Thoreau na praia para relatar qual foi o nosso destino final.

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