Papa Francisco. “A cizânia destrói as comunidades; não ao terrorismo das fofocas”

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03 Dezembro 2017

O Papa Francisco quis visitar a menor das casas em que trabalham as irmãs da Madre Teresa de Calcutá aqui em Daca. Construída em 1976, ela foi a residência favorita da pequena irmã albanesa que foi proclamada santa por Bergoglio em 2016. Está localizada no bairro Tejagon, no complexo paroquial da Igreja do Santo Rosário, e oferece assistência e curas para milhares de órfãos e pessoas com deficiências mentais e físicas. O Papa saudou muitos doentes, entre os quais se encontrava uma mulher em uma cadeira de rodas que estava presente na visita de João Paulo II em 1986. Do lado de fora, Francisco foi recebido por algumas dançarinas com vestidos tradicionais e por um grupo de crianças. O Papa agradeceu às irmãs por sua atividade de caridade e, como presente, deu-lhes um quadro da Madre Teresa.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 02-12-2017. A tradução é de André Langer.

Daqui, Bergoglio deslocou-se para a igreja, que também é a catedral da diocese de Chittagong, uma daquelas que faz divisa com Daca. E reuniu-se com os sacerdotes, religiosas, religiosos, seminaristas e noviças. O encontro começou com alguns testemunhos. Francisco deixou de lado o discurso preparado para a ocasião, “de oito páginas... ‘Mas nós viemos aqui para ouvir o Papa, não para ficar entediados’. Por isso, para não nos entediarmos, vou dar esse discurso ao senhor cardeal, que vai traduzi-lo ao bengali, e eu vou dizer-lhes o que me vem à mente agora. Não sei se será melhor ou pior, mas garanto-lhes que será menos chato”.

O Papa disse que, ao entrar na casa, lembrou-se da Leitura de Isaías que será proclamada na missa na próxima terça-feira. “Naqueles dias surgirá um pequeno rebento da Casa de Israel. Isaías descreve a grandeza e a pequenez da vida do serviço a Deus, e isso diz respeito a vocês, porque são homens e mulheres de fé que servem a Deus”.

“Sim, brota o que está dentro, o que está dentro da terra. E essa é a semente; não é sua, nem sua nem minha. A semente – explicou Bergoglio – é semeada por Deus, e é Deus quem a faz crescer. ‘Eu sou o broto, cada um de nós pode dizer. Sim, mas não por mérito seu, mas da semente que o faz crescer. E eu, o que devo fazer? Regá-la. Para que cresça e chegue a essa plenitude de espírito que é o que vocês têm que dar como testemunho”.

“Como você pode regar esta semente? Cuidando dela e cuidando do broto que começa a crescer. Cuidar da vocação que recebemos. Como se cuida de uma criança, como se cuida de uma pessoa doente, como se cuida de uma pessoa idosa. Cuida-se da vocação com ternura humana. Nossas comunidades, se em nossos presbitérios falta essa dimensão da ternura humana, o broto fica pequeno, não cresce, talvez seque. Cuidar com ternura, porque cada irmão do presbitério, cada irmão da Conferência Episcopal, cada irmão ou irmã da comunidade religiosa, cada irmão seminarista, é uma semente de Deus, e Deus olha para ela com a ternura de um Pai”.

“É verdade – continuou ele – que à noite vem o inimigo e lança outra semente; existe o risco de que a boa semente seja sufocada pela má semente. Quão feia é a cizânia nos presbitérios, quão feia é a cizânia nas conferências episcopais, quão feia é a cizânia nas comunidades religiosas e nos seminários; cuidar do broto, o broto da boa semente. E ver como cresce, e ver como se distingue da má semente e do mato”.

“Cuidar é discernir – acrescentou – e dar-se conta de que a planta que cresce, se vai por este lado e a rego todos os dias, cresce bem; se vai por esse outro lado e a negligencio, não cresce bem e dar-me conta quando não se desenvolve bem e quando há companhias ou pessoas ou situações que ameaçam o crescimento. Discernir, e somente se discerne quando se tem um coração orante. Rezar cuidar é rezar. É pedir a quem plantou a semente que me ensina a regá-la. E se estou em crise ou adormeço, que a regue um tempinho para mim. Rezar é pedir ao Senhor que cuide de nós. Que nos dê a ternura que devemos dar aos outros”.

“A segunda ideia que me ocorre – continuou o Pontífice – é que neste jardim do Reino de Deus não há apenas um broto: há milhares e milhares de brotos; todos somos brotos. E não é fácil fazer comunidade, não é fácil. Sempre as paixões humanas, os defeitos, as limitações, ameaçam a vida comunitária, ameaçam a paz. A comunidade da vida consagrada, a comunidade do seminário, a comunidade do presbitério e a comunidade da conferência episcopal precisam saber se defender de todos os tipos de divisões”.

“Ontem, agradecemos a Deus pelo exemplo que Bangladesh dá no diálogo inter-religioso”, disse Francisco, citando, entre aplausos, a frase pronunciada pelo cardeal Jean-Louis Tauran, que em 2010 definiu este país como o melhor exemplo de harmonia no diálogo inter-religioso. “Vamos fazer o contrário, no diálogo dentro da nossa fé, da nossa confissão católica, das nossas comunidades? Também nisso Bangladesh deve ser o exemplo de harmonia. Há muitos inimigos da harmonia, muitos. Gosto de mencionar um, que é suficiente como exemplo. Talvez alguém possa me criticar porque sou repetitivo nisso, mas para mim é fundamental: o inimigo da harmonia em uma comunidade religiosa, num presbitério, em um episcopado, em um seminário, é o espírito da fofoca”.

“E isto não é uma novidade minha – disse. Há 2000 anos, um tal de Tiago disse isso em uma carta que escreveu à Igreja. A língua, irmãos e irmãs, a língua. O que destrói uma comunidade é falar mal dos outros. É destacar os defeitos do outro. Mas não dizer a ele, mas a outro, e assim criar um clima de desconfiança, de suspeita, um clima em que não há paz e em que há divisões. E uma coisa que eu gosto de usar como uma imagem do que é o espírito das fofocas é o terrorismo. Porque aquele que vai falar mal de outro não o diz publicamente. Assim, quem é terrorista não diz publicamente ‘eu sou um terrorista’. Quem vai falar mal de outro, vai às escondidas, fala com um, joga a bomba e vai embora. E a bomba destrói e ele sai tranquilamente, tranquilamente para jogar outra bomba. Querida irmã, querido irmão, quando você tiver vontade de falar mal de outro, morda a língua; o mais provável é que ela fique inchada, mas você não irá prejudicar o seu irmão ou a sua irmã”.

Para concluir, o Papa referiu-se a outra ideia: pedir o espírito da alegria, porque, explicou, sem alegria não é possível servir a Deus, e é muito triste encontrar sacerdotes, religiosos, religiosas, seminaristas, bispos amargurados, com um rosto triste: “O que você bebeu? Vinagre? Cara de vinagre. Ou aquela amargura do coração – insistiu Francisco –, quando vem a semente má e diz: ‘Ah, olhe, este foi feito superior, esta foi feita superiora, este foi escolhido para ser bispo, e eu fico aqui escandeado’. Aí não há alegria”.

Citando Santa Teresa de Jesus, “a grande”, Bergoglio explicou: “Tem... é uma maldição, uma frase que é uma maldição. Ela diz às suas irmãs: ai da irmã que diz “cometeram uma injustiça comigo”! Ela usa uma palavra castelhana “sinrazón”, quer dizer, algo que não é razoável. Quando ela dizia isso, havia irmãs que estavam se lamentando, não me deram ou deviam me dar, não me fizeram irmã. Pobre irmã, vai ladeira abaixo. Alegria. Essa alegria que não pode ser risada, porque há muita dor que é paz”.

E depois, referindo-se à outra Santa Teresa, “a pequena”, ele continuou: “Teresa do Menino Jesus, teve que acompanhar todas as noites ao refeitório uma irmã idosa insuportável de mau humor, muito doente, pobrezinha!, que se queixava de tudo. Certa noite, ao acompanhá-la pelo claustro, ela ouviu de um palácio vizinho, certamente, a música de uma festa. A música de pessoas que estavam se divertindo. Boas pessoas Como ela o tinha feito e tinha visto suas irmãs fazer. E ela imaginou as pessoas que dançavam. E disse: ‘Minha grande alegria é essa e não a troco por aquela’. Mesmo nos momentos de provação, de dificuldade em ter que suportar um superior ou superiora um pouco raros. Mesmo nesses momentos, diga: ‘Contente, Senhor’, como Alberto Hurtado. ‘A alegria do coração’”.

“Asseguro-lhes – concluiu o Papa Francisco – que me dá muito ternura quando me encontro com sacerdotes, bispos ou irmãs, que viveram plenamente a vida. Os olhos são indescritíveis e cheios de alegria e paz. Aqueles que não viveram a vida assim, Deus é bom, Deus cuida deles, mas falta-lhes esse brilho nos olhos que têm aqueles que foram alegres na vida. Procurem isso, vê-se isso especialmente nas mulheres. Procurem isso nas irmãs idosas, essas irmãzinhas que serviram toda a sua vida, com alegria e paz; elas têm olhos sagazes e brilhantes, porque têm a sabedoria do Espírito Santo”.

“O pequeno broto – prosseguiu Francisco –, nesses idosos e nessas idosas, tornou-se a plenitude dos sete dons do Espírito Santo. Lembrem-se disso na terça-feira, quando vocês ouvirem a leitura na missa, e perguntem-se: eu cuido do broto, rego o broto? Eu cuido do broto nos outros? Tenho medo de ser um terrorista e, portanto, nunca falo mal dos outros e me abro ao dom da alegria? Desejo a todos vocês que, quando o bom vinho da vida amadurecer, seus olhos brilhem de argúcia, de alegria e de plenitude no Espírito Santo. Rezem por mim e que Deus os abençoe”.

O encontro terminou com a leitura de uma oração mariana composta pelo padre Mintu Palma, na qual se reza especialmente pelo Papa: “Pedimos-Te, Senhor, que conserves o nosso Santo Padre o Papa Francisco, com amoroso cuidado, para que, gozando de boa saúde, possa guiar o Povo de Deus nos caminhos da salvação e que siga promovendo a paz e a harmonia no mundo”.

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