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01 Dezembro 2017

Publicamos trechos do teólogo brasileiro e arcebispo de Olinda e Recife (1909-1999) apresentados no número 1 de 1979 de "Vita e Pensiero". O ensaio acaba de ser republicado na newsletter quinzenal da revista.

O texto é de Dom Helder Camara, publicado por L'Osservatore Romano, 29-11-2017. 

O Terceiro Mundo, finalmente libertado dos grilhões coloniais, emerge com sua diversidade, sua imensidão, sua grande riqueza natural e humana, empobrecido por avanços tecnológicos e econômicos atrasados. Seus povos querem ser ouvidos: agora eles têm a oportunidade e começam a tomar consciência disso. Eles rejeitam o papel de "coadjuvantes" na história e, portanto, estão determinados a usar suas capacidades, unir suas potencialidades, juntar as suas vontades. O tempo urge, porque mais da metade dessas pessoas, cerca de um bilhão de indivíduos, está no limiar da "miséria absoluta" - como foi definido pelo presidente do Banco Mundial. As nações "proletárias" estão determinadas a conquistar o direito de existir, o direito de participar na definição e gestão da ordem econômica mundial.

Esse é o método que eu pretendo seguir: interpelar a Europa em nome do Terceiro Mundo. É, para mim, uma ocasião especial para divulgar a voz daqueles países que, com um belo eufemismo, ela mesma chama de "países em desenvolvimento".

Peço desculpas à Europa se a identifico com a Comunidade Europeia. Talvez esses graves questionamentos que pretendo expressar possam estimular fraternalmente seus futuros representantes no Parlamento Europeu.

Eu gostaria de chamar a sua atenção sobre a ideologia da segurança nacional, vista como valor supremo: a América Latina paga um alto preço todos os dias por essa idolatria. Cada povo tem, evidentemente, o direito, aliás, o dever de se defender. Mas quando a segurança nacional é colocada acima de tudo, qualquer coisa pode servir para justificá-la: ditaduras, sequestros, torturas, etc. E não pensem que as ditaduras são um monopólio de países subdesenvolvidos: Tenho a impressão de que, junto com cenas chocantes de terrorismo esteja renascendo, às vezes, em determinados países europeus, certa nostalgia do fascismo e do nazismo.

Vocês fizeram algum esforço para entender melhor o problema da violência? Hoje em dia, a violência número um. a mãe de todas as violências não seria, talvez, a miséria, que consegue matar muito mais do que as guerras mais sangrentas? Quando, às vezes, os oprimidos reagem, logo surge a pesada resposta dos governos e começa a espiral da violência.

Vocês precisam abrir os olhos para as áreas do Terceiro Mundo que existem, inclusive, dentro dos países mais ricos. Precisam fazer um esforço para entender melhor o problema complexo, mas profundamente humano, dos imigrantes e daqueles que são chamados de "ilegais": não chegam em seus países certamente na qualidade de turistas; mas sim porque, para eles, as condições de vida tornaram-se impossíveis. E tudo isso é também devido às terríveis injustiças que ocorrem na política econômica internacional.

A facilidade com que deixamos os trabalhos mais humildes aos imigrantes não vos leva pensar sobre quanto racismo existe dentro de nós? Em uma visão bastante generalizada do Terceiro Mundo, não está presente, talvez, um racismo disfarçado? O Terceiro Mundo nos parece pobre, porque a África é negra, a Ásia é amarela, a América Latina é morena e mulata... e as pessoas de cor nos parecem de natureza inferior em questões de inteligência, disposição para trabalhar, honestidade.

Para além dessas dúvidas, no entanto, gostaria ainda de recordar os principais pontos sobre os quais deve ser baseado o diálogo Norte-Sul. Primeiro, a luta contra o consumismo. Enquanto os países industrializados não se curarem da prática do consumismo e do desperdício, sobre a qual baseiam a sua riqueza e a sua superioridade, e que exportam utilizando as técnicas de propaganda mais sofisticadas e mais garantidas, seus esforços - como Comunidade Europeia, para contribuir com a compreensão e respeito das reivindicações do Terceiro mundo - permanecerão incompreensíveis e inaceitáveis.

Em segundo lugar, o problema das massas de jovens do Terceiro Mundo. Ingenuamente países Industrializados pensam resolver o que eles chamam de "explosão demográfica" através de uma inundação teleguiada de pílulas anticoncepcionais. Nós reagimos a essa intervenção em um campo que para nós é cheio de mística e amor.

Se os homens responsáveis, do Norte e do Sul, não prestarem atenção corajosa para a crescente pressão de massas juvenis que procuram emprego nos países em desenvolvimento e não conseguirem integrá-las em um verdadeiro desenvolvimento precursor de futuro, eles estarão semeando as premissas para uma revolução e uma guerra civil.

O terceiro problema é o da fome. Os países industrializados são obrigados a saber que, na era do computador e das viagens espaciais, dois terços da população mundial padecem de fome, principalmente por causa de suas injustiças na política econômica internacional.

Mas, mais uma vez, é o egoísmo o leitmotiv da tentativa de alimentar o mundo. Na Europa ou na América do Norte vocês podem facilmente obter informações confiáveis sobre as operações realizadas pelos países industrializados em nossos países do Terceiro Mundo. Muitas vezes, para modernizar a agricultura em países do Terceiro Mundo - escolhidos para se tornarem celeiros da humanidade - grandes empresas compram vastas extensões de terra: por vezes, essas áreas atingem as dimensões de países como a Holanda ou a Bélgica. Nas terras adquiridas residem há muitos anos famílias pobres ou indígenas, naturalmente sem documentos oficiais: com a chegada dos novos donos das terras - que possuem, estes sim, tais documentos – os pobres ou indígenas são forçados a sair. Eles vão em busca de nossas cidades, transformando os subúrbios em enormes favelas; mas não é certo que podem ficar aí. Os governos, de fato, têm seus planos de urbanização para atrair os turistas; e assim os pobres são varridos cada vez para mais longe.

Quando, na América Latina, a Igreja empresta sua voz aos sem voz é acusada de ser subversiva e comunista.

Parece impossível ter quaisquer ilusões: o que será produzido pela agricultura modernizada dos futuros celeiros da humanidade, irá tudo principalmente para supermercados e o interesse investido para a melhoria dos padrões de vida da população rural dos nossos países subdesenvolvidos deve ser funcional às empresas agrícolas, permitindo-lhes dispor localmente um suplemento de mercado interno. Mas o problema da fome exige uma solução diferente, mais humana e mais justa.

Outro problema, igualmente grave, é representado pelo crescimento da dívida, muitas vezes definitivo, dos países pobres em comparação com os países industrializados. A Europa não poderia agir para reduzir o endividamento crescente do Terceiro Mundo? Nós todos sabemos que a inflação global é vantajosa para os ricos e anula todos os esforços feitos por alguns países do Terceiro Mundo para sair do subdesenvolvimento. A Europa não poderia então, com os contatos de longo prazo, garantir o poder de compra dos produtos da exportação do Terceiro Mundo, tão necessários para a economia dos países industrializados? Talvez esteja dando pouca importância ao papel das multinacionais? Certamente com uma tecnologia tão avançada, como a atual, com a velocidade dos meios de comunicação, a produção assume muito facilmente uma dimensão global. Eis então que as empresas maiores engolem as menores, associam-se e estabelecem alianças entre si. Eisenhower já teve oportunidade de denunciar a aliança entre poder econômico e poder militar.

Se pensarmos do orçamento de uma moderna universidade estadunidense e nas enormes despesas em pesquisa, ou nas grandes mídias sociais, percebemos que atingem valores astronômicos: as multinacionais são as únicas que podem supri-los.

O lobbying, experiência bem sucedida, merece ser internacionalizado e as multinacionais sabem muito bem como manobrá-lo. Para as multinacionais, os sistemas políticos importam pouco: apesar de serem as filhas prediletas do mundo capitalista, elas se sentem em casa na URSS e, para colocar seu pé na China, só precisaram esperar a morte de Mao Tse Tung.

Naturalmente, elas têm o seu próprio serviço de informações e, eventualmente, não podem resistir à tentação de provocar a queda de governos que tiveram a coragem de criar dificuldades para elas ou preparar a ascensão de governos favoráveis.

Talvez ainda esteja presente na Europa a ideia de que as multinacionais trazem divisas preciosas para os países em desenvolvimento e facilitam o desenvolvimento desses países, criação ou desenvolvimento da industrialização e dos empregos. Para as multinacionais os nossos países interessam como "paraísos" para os seus investimentos.

Elas se juntam com os nossos grupos privilegiados, que já exercem uma ação de colonialismo interno, com os ricos dos nossos países que preservam sua riqueza oprimindo seus concidadãos. As multinacionais chegam principalmente para sugar as nossas matérias-primas, indispensáveis para a manutenção da sociedade de consumo, ou melhor, da sociedade do desperdício.

As empresas criadas ou recriadas pelas multinacionais, para manter a concorrência, devem ser automatizadas ou semi-automatizadas, reduzindo assim o número de postos de trabalho.

Perguntar-se o que pode ser feito para mudar de forma pacífica, mas corajosa, as estruturas injustas sobre as quais se alicerçam as multinacionais pode lembrar, inclusive, a imagem de uma formiga diante de uma barreira. Mas as estruturas injustas que oprimem mais de dois terços da humanidade não podem não ser demolidas. E para fazer isso seria loucura usar as armas, fabricadas pelos nossos mesmos opressores.

É o próprio Espírito que estimula a libertação dos filhos de Deus, confinados a uma condição subumana, tratados como objetos ou animais. Aqui, no Terceiro Mundo, o Espírito de Deus nos ensina a não trabalhar apenas para o povo. Leva-nos a despertar em nossos pobres, juntamente com a graça, também a fé, a esperança e o amor.

Eles se encontram em uma condição subumana, mas não são sub-homens. Não existem sub-homens da mesma forma que não existem super-homens: existem somente homens, filhos do Pai Criador e irmãos em Cristo. Em nossas comunidades de base, encorajamos a nossa população, ensinando-lhe que deve se unir, não para pisotear os direitos dos outros, mas para defender seus próprios, que esses direitos não são favores recebidos dos governos ou dos ricos, mas dons que o Senhor nos deu. Nós ensinamos aos nossos povos que, unidos na defesa dos direitos que Deus nos deu, serão invencíveis. Nenhuma força pode esmagar uma comunidade inteira.

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