Hospital paraense oferece primeiro atendimento hospitalar para transgêneros do Norte

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30 Novembro 2017

Segundo especialista, serão recebidos pacientes do Pará ou de outros estados antes marginalizados, sem diagnóstico e sem tratamento. Segundo ela, muitos chegam a tomar hormônios por conta própria, se suicidar ou se automutilar.

A informação é publicada por G1 Pará, 27-11-2017.

Rafael Ramos, de 24 anos, é um homem trans. Há dois anos ele está passando pelo tratamento necessário para a mudança definitiva de gênero. Rafael é um dos primeiros pacientes do Ambulatório de Transgêneros do Hospital Jean Bitar, criado em outubro deste ano para atender, de forma inovadora na região Norte, pessoas que apresentam disforia ou incongruência de gênero, ou seja, uma incompatibilidade entre a identidade de gênero e o sexo que lhe foi atribuído ao nascimento.

Rafael faz parte do grupo de 200 pessoas que há dois anos está passando pelo tratamento necessário para a troca definitiva de gênero, para assumir assim sua cidadania plena. O histórico da busca de Rafael pela sua identidade começou quando ainda era uma criança. Ele conta que sempre se identificou com o gênero masculino, o que teria ficado evidente aos 9 anos de idade.

Mas Rafael nasceu em uma família conservadora e sentia muita dificuldade em expressar o seu gênero masculino da forma como queria. “Minha mãe sempre me dizia que menina não deveria se comportar daquela forma, que eu tinha que gostar de vestidos, de maquiagens e isso era tudo que eu detestava. Ela me dizia que quando eu crescesse teria que me casar e ter filhos, isso era um verdadeiro terror para mim. Principalmente no que diz respeito ao fato da gravidez. Eu ainda tenho muita dificuldade em pensar nisso”, explica.

Há três anos, Rafael decidiu iniciar o tratamento ‘transexualizador’ oferecido pela Unidade Especializada em doenças infecciosas e parasitárias especiais (URE Dipe). Em dois anos passou por todo o procedimento necessário pelo protocolo médico para a mudança de gênero. “É um processo longo que eu estou vencendo aos poucos. A gente pisa em ovos o tempo todo. Tenho consciência que não é do dia para a noite que as coisas irão mudar”, comenta.

Recentemente, após 20 anos, a mãe de Rafael passou a chamá-lo pelo gênero masculino e procurou por mais informações, depois de assistir à novela “A Força do Querer”, exibida recentemente na Rede Globo, e conhecer a personagem trans Ivan (Carol Duarte). “Ela me procurou e me pediu desculpas por tudo. Eu fiquei muito feliz por essa conquista dentro de casa”.

Em 2018 Rafael poderá concluir o tratamento. Enquanto isso, ele milita como coordenador da Rede Paraense de Pessoas Trans. “Eu acho que o hospital Jean Bitar está abraçando uma causa muito importante. Realmente era um serviço que a gente precisava. Nas unidades básicas de saúde é muito difícil encontrar profissionais capacitados para nos atender. Muitos ainda têm preconceito e aqui eu recebi um atendimento humanizado, desde a recepção até a equipe médica. É um ganho para nós, algo essencial à população de pessoas trans. Aqui eu fui respeitado, de uma forma sensível e humanizada”, destaca.

Pará foi pioneiro na atenção à pessoa transgênero

Segundo a coordenadora do Ambulatório de Transgêneros do Hospital Jean Bitar, a endocrinologista Flávia Cunha, doutora em Distúrbios do Desenvolvimento Sexual (DDS) e Disforia de Gênero pela Universidade de São Paulo (USP), o tratamento no Pará foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina e implantado há dois anos, sendo que não havia centros especializados preparados para este tipo de tratamento fora de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás.

Os pacientes são acolhidos na URE Dipe pelos assistentes sociais e psicólogos e iniciam uma psicoterapia. Se a pessoa for diagnosticada com disforia de gênero, ela inicia o tratamento do processo transexualizador, que se baseia em psicoterapia, hormonoterapia e as cirurgias.

Para que seja indicada a hormonoterapia tem que ser feita uma avaliação psicológica prévia. Se a pessoa for diagnosticada com disforia de gênero é encaminhada para o endocrinologista, onde fará toda a avaliação hormonal para a adequação ao gênero de identidade. Somente após o mínimo de dois anos de tratamento a pessoa pode ser indicada para as cirurgias do processo transexualizador.

Ao todo, 189 pacientes, sendo 102 homens trans e o restante mulheres trans, iniciaram o tratamento na URE Dipe, em outubro de 2015, e já completaram as etapas necessárias. “O próximo passo é fazer uma avaliação psicológica final para que eles estejam aptos a fazer a cirurgia, que é irreversível”, ressalta a endocrinologista.

Apoio essencial

O hospital Jean Bitar entra neste processo com o seu Ambulatório de Transgêneros, que passa a reforçar a hormonoterapia e avaliar os pacientes para a indicação de cirurgia. “A pretensão é que o hospital seja referência tanto para a hormonização quanto para as cirurgias”, diz.

Os primeiros atendimentos foram realizados em outubro de 2017. “Na região Norte este é o serviço mais articulado e conta com três endocrinologistas, além de outros quatro especialistas residentes, mais o serviço de cirurgia plástica, um psiquiatra e futuramente o serviço de ginecologia e urologia. A ideia é montar um serviço multidisciplinar completo para atender as demandas desta população”, ressalta a médica.

As primeiras cirurgias que serão realizadas serão as de mama: a mamoplastia, a retirada da mama no homem trans e a colocação de próteses nas mulheres trans. O próximo passo será a oferta da histerectomia para os homens trans (remoção do útero) e após, as cirurgias genitais, que são mais complexas.

“É uma conquista porque vai conseguir receber pacientes do Pará ou de outros estados e ofertar este atendimento para pessoas que estavam marginalizadas, sem diagnóstico, sem tratamento, ou pior, tomando hormônios por conta própria. É uma população de alto risco para o suicídio e para a automutilação”, esclarece a endocrinologista.

Para as mulheres trans a cirurgia de redesignação sexual envolve a reconstrução dos genitais (embora outros procedimentos possam ocorrer e, em muitos casos, algumas mulheres decidem não se submeter à cirurgia), enquanto que nos homens trans ela compreende um conjunto de cirurgias, incluindo remoção dos seios, reconstrução dos genitais e lipoaspiração.

Para o diretor executivo do Jean Bitar, Giovani Merenda, a expansão dos serviços aos usuários transgêneros no Pará, por meio do atendimento ambulatorial no hospital, é um marco na saúde pública. “É o início de um serviço que vai expandir ainda mais a assistência de qualidade, segura, humanizada, que evidencia o respeito e o resgate da dignidade que todo usuário SUS precisa e merece”.

Disforia de gênero

A disforia de gênero envolve uma discrepância significativa entre o sexo anatômico de uma pessoa e o seu sentimento interno como masculino, feminino, misto, neutro ou algo diferente (identidade de gênero). Essa sensação de discrepância faz com que a pessoa sinta angústia significativa e compromete bastante a capacidade da pessoa de desempenhar funções. A transexualidade é a forma mais extrema da disforia de gênero.

É possível ajudar uma pessoa que sente forte necessidade de viver como alguém de outro sexo com aconselhamento, terapia hormonal e, ocasionalmente, recorrendo-se à cirurgia genital irreversível. “Os estudos na literatura médica mostram que existe uma diminuição desta disforia, deste sofrimento, com o corpo e com a condição quando o tratamento é iniciado”, ressalta a médica.

As pessoas com disforia de gênero acreditam que são vítimas de um acidente biológico e que estão cruelmente aprisionadas em um corpo que é incompatível com o seu sentimento interno. Por exemplo, algumas sentem-se como mulheres presas a um corpo de homem e vice-versa. Outras sentem que não são do sexo masculino nem feminino, que são algo entre os dois, uma combinação dos dois ou que sua identidade muda.

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