O país sem índios. Entrevista com Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez

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Por: Lara Ely | Tradução: Henrique Denis Lucas | 28 Novembro 2017

Um filme que busca reconectar as pessoas com suas origens. Assim pode se caracterizar O País Sem Índios, obra dos diretores uruguaios Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez, com estreia prevista para o ano que vem.

Formado em Comunicação Social, Nico Soto nasceu em Montevideo, no Uruguai, e tem 28 anos. Descobriu em 2008 sua vocação para o audiovisual, gravando com uma câmera de bolso em um bairro marginal da cidade. Desde então, tenta encontrar maneiras de usar o audiovisual como ferramenta de mudança social, difusão cultural ou como contribuição criativa em várias áreas, procurando sempre respeitar seus valores nos projetos com os quais está envolvido. Leonardo Rodríguez nasceu em San José de Mayo em 1983. Ele é um fotógrafo profissional e professor. Algumas de suas obras são: "Sin título I" (2006), "Simétrico Continuó" (2012) e "Objeto de identidade" (2014). Atualmente desenvolve "Índios ou Culto".

O longa-metragem traz uma arqueologia audiovisual da formação étnica uruguaia a partir da pesquisa e investigação sobre a presença Charrua no país. Dispersos por todo o território, os grupos indígenas não se caracterizam por comunidades vivendo no mesmo espaço, mas descendentes que foram assimilados pelo sistema e que em sua maioria perderam o vínculo com a sua identidade.

Para retratar essa realidade, os diretores escolheram dois personagens que, simbolicamente, fazem a resistência cultural: Roberto, um trabalhador rural, e Mônica, uma professora de matemática. Descendentes Charruas, eles vivem cada qual a sua maneira. Ao mesmo tempo, acadêmicos fornecem dados que permitem entender o cenário atual de uma perspectiva renovada e questionar o Uruguai, que ainda se vê como "um país sem índios".

Os diretores Nico e Leonardo ainda não têm data prevista para a estreia do documentário

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Com o filme, vocês propõem fazer um resgate histórico e dar voz a uma realidade silenciada. Por que escolheram contar esta história?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — Porque o que aconteceu com os povos originários em nosso país foi muito mais grave do que se pensa e continua a ser até hoje, por meio da negação. Entendemos que a única forma de avançar e nos reconciliarmos com a nossa história seria através da verdade e da geração de consciência sobre esta questão.

Existe muita gente que carrega uma herança cultural que não lhes permite aceitar esta situação, seja por desconhecimento, vergonha ou negação. Entendemos que isto seja o resultado de um plano histórico de limpeza étnica e racismo estrutural.

IHU On-Line - O Uruguai é um dos poucos países da América Latina que não considera a presença indígena, mesmo que tenha em sua cultura fortes marcas da influência Charrua, como, por exemplo, o churrasco de parrilla e o hábito de tomar mate. O que o filme revela sobre isso?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — Esses costumes podem não ser necessariamente identificados como costume Charrua, pois na verdade o mate tem origem Guarani, e assar a carne é algo intrínseco aos seres humanos desde tempos muito remotos.

Por outro lado, é importante recordar que, quando falamos sobre os atuais Charruas no Uruguai, estes não são necessariamente a continuidade étnica dos Charruas, previamente à formação do Estado-nação. Pelo contrário, são portadores de uma memória indígena que, com o tempo, após 25 anos, formaram este grupo étnico que é, por sua vez, um agrupamento político que luta por seus direitos expropriados com o genocídio.


Mônica é uma professora de Matemática que vive em Montevidéo/Nico Soto

IHU On-Line - A escolha dos personagens do filme — um agricultor e uma professora — representa a voz da resistência. O que os tornou simbólicos?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — Escolhemos esses personagens porque entendemos que eles se complementam muito bem. Ambos são descendentes, mas de lugares muito distintos. Roberto não pertence a nenhum grupo indígena, mas os traços ancestrais se manifestam em seu modo de vida e na sua energia para o trabalho com cavalos. Nele estão representados os descendentes de todo o país que vivem no interior, sem ser parte de um grupo e, na maioria das vezes, sequer tendo a consciência de sua identidade.

Monica, por sua vez, vive na cidade, pertence a um grupo, é líder ativista e tem trabalhado há anos pelo reconhecimento do povo Charrua, chegando, inclusive, a ir a fóruns internacionais como o da ONU. Nela, estão representados todos os indígenas ativistas que lutam por esta causa.

IHU On-Line - E os demais índios da etnia, o que fazem atualmente? Eles são mostrados no filme?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — No Uruguai, a presença indígena está dispersa por todo o território, não há comunidades vivendo em seu espaço, mas descendentes que foram assimilados pelo sistema e que em sua maioria perderam o vínculo com a sua identidade. Com o filme esperamos poder ativar processos de busca nessas pessoas, para que elas possam se reconectar com suas origens.

IHU On-Line - Como a cultura dos Charruas é expressa no modo de vida do povo uruguaio?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — É uma das perguntas que nos fizemos desde o início deste trabalho, mas é difícil de responder. Existe pouca informação sobre as características culturais dos Charruas, bem como de outros grupos étnicos que habitam o território. Neste sentido, não podemos responder a esta pergunta de maneira rigorosa. Sim, entendemos que, entre outras características, existe na sociedade nacional certa relutância em assimilar plenamente a cultura do consumo, um gesto de horizontalidade nas relações interpessoais e uma consciência ecológica que entendemos poderem ter raízes indígenas.


Roberto é um trabalhador rural que faz a resistência charrua no campo/Nico Soto

IHU On-Line - Algo curioso é que, embora o país não reconheça essa ancestralidade, na questão do futebol, o jargão popular reconhece a seleção uruguaia como charrua. De onde vem essa conexão?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — A "garra charrua", como é chamada no futebol, refere-se à coragem, à entrega, à luta para superar as adversidades. Está diretamente ligado à resistência dos Charruas diante da tentativa de serem civilizados pelos uruguaios, previamente ao seu massacre, já que deram suas vidas defendendo sua liberdade. Acreditamos que reduzir isto ao futebol é ridículo e uma falta de respeito para com o povo charrua e sua história, por isso fazemos uma sátira com esse conceito em uma parte do filme.

IHU On-Line - Quais são as reivindicações do atual movimento de retomada e valorização da cultura Charrua, organizada com a luta do Conacha (Conselho da Nação Charrua)?

Nicolás Soto e Leonardo Rodríguez — O Conacha elaborou certos objetivos, tais como a ratificação da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), o reconhecimento oficial de que existe hoje uma população indígena no Uruguai, a defesa do território, a defesa das áreas indígenas, a defesa das pradarias e todos os ecossistemas vivos. Outro dos objetivos importantes é poder influenciar na educação, não apenas nos planos e programas educacionais, mas na formação do magistério e de docentes do ensino secundário, para mudar o discurso de extermínio e revalorizar o indígena. Também se propõem a contatar mais pessoas que se sintam ligadas à nação Charrua, seja pelos relatos familiares ou pela consciência de sua identidade, e desta forma, dar mais vida ao movimento em seu processo de reemergência.

Assista ao trailler:

 

TEASER El país sin indios from El país sin indios on Vimeo.

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