Discurso da chanceler alemã desanima ambientalistas na COP23

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18 Novembro 2017

Como venho fazendo desde o início da Conferência sobre o clima que está acontecendo na Alemanha, busquei informações novas sobre o encontro para os leitores. Infelizmente, não consegui notícias boas. A contar pelo pronunciamento da chanceler alemã Angela Merkel, baixar as emissões de carbono para que o mundo não aqueça mais do que 2 graus até o fim do século (meta do Acordo de Paris), e assim diminuir também os impactos que já estão afetando a vida de milhões de pessoas é uma meta ambiciosa demais. Diante da plateia que esperava ouvir o relato de sucesso, e de um menino de Fiji, país que sedia a Conferência, Merkel disse que a Alemanha está atrasada em seu objetivo de reduzir as emissões em 40% até 2020.

A reportagem é de Amelia Gonzalez, publicada por G1, 16-11-2017.

Há responsáveis (seria melhor dizer culpados?) de sobra para que a meta esteja longe de ser atingida, e Merkel preferiu citar os de maior impacto: questões sociais e empregos. Fechar usinas de carvão quer dizer, também, demitir muita gente que trabalha nessas indústrias e, sobretudo, desanimar investidores que compram ações de tais empresas.

Lembrei-me da viagem que fiz em 2014 (portanto um ano antes de o Acordo de Paris ser assinado) para a Alemanha, a convite de uma organização bipartite do país que queria mostrar a jornalistas do mundo todo o projeto ambicioso ao qual Merkel se referiu na COP23. A ideia, na época, era reduzir em 80% os gases do efeito estufa até 2050. Havia jornalistas do mundo todo no mesmo programa de viagem, e fomos apresentados a acadêmicos, empresas, políticos e ONGs que destrincharam pontos importantes do programa. Na visita à sede do Parlamento alemão, onde entrevistamos a deputada Annalena Baerbock, do tradicional Partido Verde alemão, ouvimos a realidade sob a ótica dos políticos engajados na causa do ambientalismo.

Baerbock chegou ao nosso encontro minutos depois de um pronunciamento que Merkel acabara de fazer, e estava frustrada. A situação econômica da Alemanha tinha sido o foco do discurso, em vez das metas para baixar as emissões de carbono, como era esperado. Para um país que tinha um plano tão ousado que pretendia apresentar na COP21, de Paris, este não era o discurso esperado. Queriam ouvir a chanceler explicar como iria se organizar para consumir menos carvão, por exemplo.

“A questão, como sempre, é o capital. Há muitos investidores que puseram dinheiro nas usinas de carvão e não querem perder. Por isso sabemos que a mudança vai ter que ser lenta”, disse-nos Baerbock.

Hoje, nas redes sociais, a deputada confirma sua frustração ao comentar o discurso de Merkel, chamando-o de “cínico”.

Merkel insiste em dizer que as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) não são suficientes mas revela um objetivo europeu insuficiente para 2030”, escreveu ela. Comparando o depoimento de Merkel com a do presidente francês Emmanuel Macron, a deputada disse que este último chegou à COP23 dizendo o que quer para o futuro, enquanto Merkel repetiu o que já tinha dito em outras Conferências do Clima.

Não foi só a deputada que se frustrou com o pronunciamento da chanceler alemã na COP. Ambientalistas também saíram muito pouco contentes, conforme mostra essa reportagem no site da ONG Clean Energy Wire, especializada em fornecer informações sobre a política alemã e energia e clima para dar suporte a jornalistas de todo o mundo. O especialista em clima da Oxfam Alemã Jan Kowalzig é o crítico mais feroz: para ele, a mensagem de Merkel, como anfitriã dos convidados da COP, foi muito cruel para as nações-ilha que estão esperando o apoio do mundo para melhorar um pouco sua expectativa de viver com dignidade os efeitos dos eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas.

O diretor geral do Greenpeace Alemanha, Sweelin Heuss, disse que Merkel “evitou dar a única resposta que ela deveria ter dado em Bonn: quando a Alemanha vai sair completamente do carvão?” Sem esta solução, o país não vai conseguir cumprir a promessa feita em Paris. “Esse é um sinal desastroso emitido pela Conferência do Clima deste ano”, disse Heuss.

Até mesmo o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, fez um discurso um pouco mais contundente do que Merkel. Ele lembrou que ajudar os países-ilha que estão sendo mais afetados com as mudanças climáticas, embora não sejam poluidores, é também uma forma de promover maior igualdade social.

Já o francês Emmanuel Macron enfrentou bravamente, pelo menos em retórica, a ofensiva norte-americana. Já que, agora sob a administração de Donald Trump, o país mais poluidor não está apostando na necessidade de se tomar atitudes para ajudar os mais pobres a enfrentarem os impactos das emissões na natureza, Macron disse que que “A cúpula (COP23) deve enviar ao mundo a mensagem de que todos podemos nos juntar para mobilizar os fundos públicos e privados necessários para atuar sobre o clima”. Quando disse “todos”, o francês estava se referindo à União Europeia, claro.

Terminei minha pesquisa de hoje sobre a COP com divulgação do Índice de Desempenho na Mudança Climática (CCPI, na sigla em inglês) 2017, que lista 56 nações e a União Europeia de acordo com suas emissões de gases-estufa, que conclui que ninguém está indo muito bem para cumprir o Acordo de Paris. E volto à leitura de “O mito do desenvolvimento sustentável”, do professor e especialista em desenvolvimento socioeconômico e meio ambiente, Gilberto Montibeller Filho (Editora da UFSC), que está me acompanhando os dias atuais.

Montibeller conduz o leitor a refletir sobre o peso da política no setor do meio ambiente e põe luz sobre a questão social, muitas vezes esquecida quando estão em jogo as emissões de carbono no planeta. E lembra um pouco da história, voltando aos anos 80, quando surgiu o conceito de “ecodesenvolvimento”, introduzido por Maurice Strong e usado por ambientalistas para ilustrar a preocupação com a preservação do meio ambiente conjugada com a melhoria das condições socioeconômicas da população.

“O ecodesenvolvimento pressupõe uma solidariedade sincrônica com os povos atuais, na medida em que desloca o enfoque da lógica da produção para a ótica das necessidades fundamentais da população; e uma solidariedade diacrônica, expressa na economia de recursos naturais e na perspectiva ecológica para garantir possibilidade de qualidade de vida às próximas gerações. Caracteriza-se como um projeto de civilização”.

O termo foi substituído por desenvolvimento sustentável, que tinha como um dos paradigmas “integrar conservação da natureza e desenvolvimento”. Aí começa o imbróglio que ainda hoje estamos acompanhando. E haja conferência após conferência para tentar chegar a um consenso entre os países desde que o homem passou a enxergar a natureza como “recurso”, não como um “bem”.

Nada como visitar a história que ainda está viva e pulsante nos dias atuais. “A questão, como sempre, é o capital”…

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