Papa Francisco à FAO contra a fome "romper o acordo climático é uma desgraça"

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17 Outubro 2017

Falou que é "uma desgraça" que alguns estejam se afastando do Acordo sobre o clima de Paris. Uma decisão que traz de volta "o desrespeito pelo delicado equilíbrio dos ecossistemas, a presunção de manipular e controlar os recursos limitados do planeta, a ganância pelo lucro".

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por Repubblica, 16-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Não mediu as palavras o Papa Francisco, nesta segunda-feira, em visita à sede da FAO em Roma, por ocasião da celebração do Dia Mundial da Alimentação, este ano dedicado ao tema Mudar o futuro da migração. Investir em segurança alimentar e no desenvolvimento rural. Um tema que lhe é caro, tanto que no último domingo convocou para 2019 um sínodo no Vaticano dedicado à Amazônia, ao seu desenvolvimento, ao seu cuidado. A Santa Sé está profundamente preocupada com o clima e a exploração ambiental e, ao mesmo tempo, é crítica a respeito da decisão de Trump de deixar Paris. Sobre isso, várias vezes manifestou-se enfaticamente a Pontifícia Academia das Ciências, liderada pelo arcebispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo. E Francisco, agora, assumiu a mesma linha diante da cúpula da FAO.

Significativamente, no átrio da sede romana da Organização das Nações Unidas, foi inaugurada uma escultura de mármore retratando Alan Kurdi, o pequeno refugiado sírio que se afogou em frente à praia de Bodrum, na Turquia, em outubro do ano passado. É um presente de Francisco para a FAO, um presente que quer ser um aviso para não esquecer.

O "debate sobre a vulnerabilidade" causa divisões internacionais quando se trata de imigrantes, mas para o Papa são inaceitáveis "sofismas linguísticos que não rendem honras à diplomacia, reduzindo-a a arte do possível ou exercício estéril para justificar egoísmo e inatividade". O refugiado é "vulnerável", adverte Francisco, porque é forçado "pela violência, situações naturais, ou pior, pela indiferença, intolerância, ou excluído pelo ódio".

O papa, depois de um breve encontro na Sala Cina com o gerente geral, José Graziano da Silva, com o diretor-geral adjunto, Daniel Gustafson e com o Chefe de Gabinete, Mario Lubetkin, proferiu seu discurso, no qual ele quis primeiro lembrar "aquele 16 de outubro de 1945, quando os governos decididos a eliminar a fome através do desenvolvimento do setor agrícola, instituíram a FAO". "Aquele foi um período de grave insegurança alimentar e grandes migrações populacionais - explicou Bergoglio - com milhões de pessoas à procura de lugares onde poder sobreviver às misérias e adversidades causadas pela guerra".

Mas hoje, nem sempre as coisas seguem caminhos melhores. A realidade atual "exige uma maior responsabilidade em todos os níveis, não só para garantir a produção necessária ou a distribuição equitativa dos frutos da terra - isso deveria ser óbvio - mas principalmente para proteger o direito de cada ser humano de se alimentar na medida de suas necessidades, participando inclusive das decisões que o afetam e da realização das próprias aspirações, sem precisar se separar de seus entes queridos".

Francisco recordou como "a morte por fome ou o abandono da própria terra" sejam "notícias cotidianas, que correm o risco de provocar indiferença." "É urgente, portanto, encontrar novos caminhos para transformar as possibilidades disponíveis em uma garantia que permita a cada pessoa olhar para o futuro com confiança e não apenas com alguma aspiração".

O Papa reconheceu que há uma crescente capacidade para responder "às expectativas da família humana", contudo "essas novas metas não conseguem eliminar a exclusão de grande parte da população mundial: quantas são as vítimas da desnutrição, das guerras e das mudanças climáticas? A quantos faltam trabalho e bens essenciais e se veem forçados a deixar as suas terras, expondo-se a muitas e terríveis formas de exploração? Valorizar a tecnologia ao serviço do desenvolvimento é certamente um caminho a ser percorrido, desde que se chegue a ações concretas para diminuir os famintos ou governar o fenômeno das migrações forçadas".

O principal problema continua o dos "conflitos e mudanças climáticas". Mas "de que vale denunciar que por causa dos conflitos milhões de pessoas são vítimas da fome e da desnutrição, se não há um empenho eficaz para a paz e o desarmamento?".

Em seguida, a estocada sobre as mudanças climáticas, com a decisão de alguns de se retirarem dos acordos de Paris. Trump não foi mencionado pelo Papa, mas é óbvio que foi ele o primeiro a ser chamado em causa. "É necessário - declarou Bergoglio - o esforço para um consenso concreto e efetivo, se quisermos evitar efeitos mais trágicos, que continuarão a pesar sobre as pessoas mais pobres e indefesas Somos chamados a propor uma mudança nos estilos de vida, no uso dos recursos, nos critérios de produção e até nos consumos que, no que diz respeito ao alimento, vêem perdas e desperdícios crescentes. Não podemos resignar-nos a dizer 'outra pessoa vai pensar nisso’".

Há quem pense que a solução para resolver o problema da fome no mundo seja reduzir o número de bocas a alimentar: "Mas é uma falsa solução quando se pensa nos níveis de desperdício de alimentos e nos modelos de consumo que gastam tantos recursos. Reduzir é fácil, compartilhar, ao contrário, impõe uma conversão, e isso exige comprometimento". Francisco, então, questionou: "Seria exagerado introduzir na linguagem da cooperação internacional a categoria do amor, conjugada como gratuidade, paridade de tratamento, solidariedade, cultura do dom, fraternidade, misericórdia? De fato, essas palavras expressam o conteúdo prático do termo humanitário, tão usado na atividade internacional".

É necessária a aplicação do Direito internacional e da Carta das Nações Unidas, para evitar a fome e os conflitos, mas também o tráfico de armas: "Estamos todos conscientes dos efeitos das armas de destruição em massa, mas também o somos quanto aos efeitos da pobreza?", questionou a plateia. "Basta pensar em todas essas guerras que se prolongam por dezenas de anos, e que com uma intervenção de boa vontade e diálogo por parte da comunidade internacional poderiam ter sido evitadas, poupando sofrimentos e deslocamentos forçados de milhares de pessoas".

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