“As críticas ao Papa vêm de pessoas que acreditam ser bons cristãos”. Entrevista com Juan Pablo Guerrero, jesuíta

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04 Outubro 2017

Através de Juan Pablo Guerrero, a Companhia de Jesus acaba de assinar um convênio de colaboração com a Secretaria para a Comunicação do Vaticano. Nele, os jesuítas passam de "diretores a colaboradores" em uma "tarefa ingente e nada fácil" para redesenhar e atualizar a comunicação da Santa Sé e do Papa. Uma decisão que mostra que "nem Francisco coloca os seus, nem os seus pedem posições de privilégio", de acordo com o conselheiro geral dos jesuítas.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 03-10-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O convênio entre a Secretaria para a Comunicação e a Companhia de Jesus é um acordo para ajudar a discernir o marco teórico da comunicação vaticana ou vai se traduzir em atividades concretas?

A partir de agora, o discernimento do marco teórico da comunicação vaticana é tarefa de outros. Existem equipes muito capazes na Secretaria para a Comunicação. Os jesuítas destinados a trabalhar na Secretaria para a Comunicação ou nas outras instituições irão ajudar na medida em que os responsáveis pela Secretaria para a Comunicação o solicitarem. O acordo assinado se traduz em atividades concretas.

A Companhia de Jesus continuará a enviar jesuítas de diferentes línguas e partes do mundo como responsáveis por várias redações linguísticas, a serem definidas entre a Secretaria para a Comunicação e a Companhia de Jesus, para que a mensagem da Igreja e do Papa chegue aos diversos países na sua própria língua e de modo compreensível na própria cultura. O acordo simplesmente adapta a relação já existente de muitos anos às mudanças que estão ocorrendo em todos os órgãos relacionados à comunicação da Santa Sé.

Quem serão os jesuítas que irão se dedicar a essa função?

Os mesmos que já estão trabalhando a serviço da Secretaria para a Comunicação. A maioria já havia trabalhado na Rádio Vaticano. Agora são cerca de 20 anos e há uma renovação natural. Este ano saíram três e entraram outros três.

A Companhia de Jesus recupera o lugar que teve na política comunicativa do Vaticano ou nunca o perdeu?

A Companhia de Jesus continua colaborando com a comunicação da Santa Sé. Uma nova política comunicativa exige um modo novo. Anteriormente, a direção da Rádio Vaticano (que já não era mais apenas rádio ou áudio) tinha sido confiada à Companhia de Jesus. Havia um jesuíta que dirigia a rádio e uma equipe de cerca de 20 jesuítas trabalhando nela com muitos outros profissionais, cerca de 400. Agora, a Secretaria para a Comunicação é uma nova realidade. O número de jesuítas que colaboram é semelhante, o grupo de profissionais é um pouco maior e a direção e a responsabilidade última estão nas mãos de outros.

Alguns interpretam que, com este acordo, vocês venceram a batalha contra a Opus Dei no universo da mídia do Vaticano. Vontade de interpretar os acontecimentos em chave de subtração, quando se trata de somar?

Como venho dizendo, essa interpretação erra o alvo. Ler o que está acontecendo como uma busca por influência é falta de compreensão. Com o Papa Bento, o padre Federico Lombardi SJ foi porta-voz da Santa Sé, diretor da TV a título pessoal e da Rádio Vaticano, que havia sido confiada aos jesuítas em 1931. Tudo isso simultaneamente. Com Francisco, o porta-voz já não é mais um jesuíta; ele é da Opus Dei, uma instituição que administra boas escolas e faculdades de comunicação, e a TV e a rádio desapareceram para se integrar ao projeto multimídia que agora está sob o guarda-chuva da Secretaria para a Comunicação, um dicastério enorme e muito plural formado por muitos sacerdotes, religiosos/as e leigos/as, que são mais de 500, dirigidos por um prefeito e um secretário, monsenhores altamente qualificados profissionalmente.

Tanto o Papa quanto os responsáveis pelo dicastério, prefeito e secretário, estão muito interessados em que a Companhia de Jesus continue como grupo ajudando na missão evangelizadora da comunicação vaticana. As conversas que tive para este acordo com os responsáveis pela Secretaria para a Comunicação foram muito cordiais. Pessoalmente, estou feliz que com o papa jesuíta, os jesuítas passaram da direção à colaboração. Eu acredito que é muito da Igreja que Francisco quer, serviço, sem carreirismos ou lutas por influência. Às vezes, serve-se de uma forma e, outras vezes, de outra. Nem Francisco coloca os seus, nem os seus pedem posições de privilégio.

No fundo, trata-se de apoiar as reformas do Papa Francisco através de uma melhorada política de informação do Vaticano?

As comunicações mudaram e a Santa Sé se adapta. A Rádio Vaticano já não era apenas rádio, era algo multimídia, com webs, redes sociais e conteúdo multimídia de forma incipiente. Suponho que cada instituição de comunicação da Santa Sé avançava e se adaptada à nova realidade à sua maneira. Foi criada uma nova realidade que pretende levar adiante essa atualização de forma integrada.

Na Santa Sé, insiste-se em que não se trata de coordenar ou fundir as instituições precedentes, mas de criar algo ex novo. A tarefa que a Secretaria para a Comunicação tem pela frente é ingente e nada fácil. Precisa economizar sem demitir ninguém, atualizar-se tecnicamente e criar uma estrutura operacional muito flexível. Penso que agora é o maior dicastério da Santa Sé. Nós não chegamos agora, já estávamos contribuindo.

Nós assinamos um convênio em que se define a nossa colaboração na nova realidade das comunicações vaticanas. Essa é a novidade. Somos convidados a colaborar na renovação das comunicações com flexibilidade e de uma maneira diferente da que iniciamos na Rádio Vaticano. Pode-se entender que, para nós jesuítas e colaboradores que compartilhamos a missão na rádio, não foi uma tarefa fácil nos adaptar, estamos nisso. Embarcamos com os responsáveis nomeados pelo Papa na travessia do deserto. O que havia já não existe mais e o que virá ainda não existe. Algo novo vai nascendo.

Permita-me também expressar as nossas razões: nós apoiamos as reformas do Papa, não porque ele seja um jesuíta ou o nosso Papa. Nós fizemos isso com os papas anteriores e nós o faremos com aqueles que vierem. Nós obedecemos e apoiamos o Papa não porque gostamos do que ele faz, mas por quem ele representa. O importante para nós não é a quem nós apoiamos, mas por Quem nós o fazemos.

O que podem fazer os meios de comunicação que se movem nesta mesma órbita de apoio ao Papa e suas reformas?

Quem sou eu para dar conselhos aos meios de comunicação! A Igreja que Francisco quer é evangélica, um lugar de escuta, misericórdia e reconciliação. Hoje, os meios de comunicação estão polarizados. Suponho que mais misericórdia para entender os outros e menos despertar as diferenças e excitar as paixões da própria clientela para vender, ajudaria a acolher e apoiar as reformas que Francisco quer.

Foto: Religión Digital

Francisco é, sem dúvida, uma "estrela midiática", mas não o senhor não tem a impressão de que os grandes conglomerados midiáticos do mundo silenciam suas grandes mensagens (especialmente as da denúncia do sistema), para permanecer apenas com o mais superficial e anedótico de seu pontificado?

Suponho que tem a ver com os interesses que cada meio de comunicação defende, com quem paga seus espaços publicitários e com o que eles supõem serem as expectativas dos clientes para poder continuar vendendo.

A que se deve a fúria com que alguns dos meios de comunicação, especialmente digitais, que se dizem católicos, atacam o Papa Francisco?

Francisco quer uma Igreja que viva a alegria do Evangelho. Seguidora de Jesus, portadora de um Evangelho de misericórdia. Que não condena. Perdoa. As únicas mensagens críticas do Papa, assim como as de Jesus, são dirigidas ao farisaísmo dos aparentemente bons. Parece-me que as críticas vêm principalmente desses, daqueles que acreditam ser bons cristãos. Aos homens religiosos sempre fazem mais bem as críticas do que os louvores, porque sempre estão em falta com o Evangelho.

Por que muitas notícias bonitas e boas que acontecem na Igreja permanecem escondidas?

Certamente porque não vende. Muitos meios de comunicação foram configurados como empresas de informação mais interessadas em vender – ganhar dinheiro, ganhar prestígio ou influência – do que em dizer a verdade, mostrar o bem ou apoiar as causas justas.

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