Gauchismo e os transbordamentos de sua alma oceânica

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Por: João Vitor Santos | 24 Setembro 2017

Sigmund Freud, ao escrever sobre religião, disse que para ele a religiosidade soava como ilusão. O argumento é contraposto por um amigo que diz que, para compreender a energia religiosa, é preciso reconhecer uma real sensação de eternidade, um verdadeiro sentimento oceânico que coloca o ser como que flutuando numa quase letargia que o faz pequeno diante da grandeza de um mar, do mundo. Para o professor Luís Augusto Fischer, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, a história é muito significativa para pensar sobre o gauchismo, um sentimento, uma vontade de cultuar algo que vai muito além do “ser gaúcho”, nascido no Rio Grande do Sul. “A relação que as pessoas estabelecem com os Centros de Tradições Gaúchas – CTGs é quase que religiosa. Quase podemos dizer que o gaúcho tem essa alma oceânica”, destaca.

Fischer, na conferência promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU no dia 21-9-2017, na Unisinos - campus São Leopoldo, discutiu o tema do gauchismo. O professor vê esse fenômeno com inúmeras dicotomias que talvez possam explicar algumas características tão particulares. “Estamos num período complicado, tão adverso, mas quando se está vivendo esse gauchismo parece que se permite uma fuga da realidade. As pessoas têm uma espécie de reconforto espiritual que as faz encarar as dificuldades”, analisa. “Talvez seja um pouco dessa alma oceânica”. E ele vai no título de sua palestra, “Gaúcho – o que sabe que já foi valente”, para propor sua reflexão.

 

Fischer: “a relação que as pessoas estabelecem com os CTGs é quase que religiosa" (Foto: João Vitor Santos/IHU)

O professor recorda que trouxe essa construção a partir da leitura do argentino Jorge Luis Borges, que em um dos seus textos reflete sobre o tango. “Borges destaca alguns aspectos do tango dos quais pouco se fala. Um deles é a questão pendenciera, a ideia de briga. Mas não é qualquer briga, é um brigar que pode ser uma festa. Tanto o tango como a milonga são uma celebração, uma festa”, explica. É por isso que Borges, ao ser tocado pelo tango e pelas milongas, diz que se vê lutando com faca. Coisa que nunca fez e não faria. “Ele diz que a música o leva a cometer loucuras que não cometeria”, completa Fischer, ao destacar um sentimento que Borges traz como a lembrança de um passado que é seu, mas que, na verdade, nunca viveu. “Esse ‘já foi valente’ do gaúcho é isso: a memória de algo que não viveu no seu passado, mas que traz para seu presente”.

Cantando a memória da Revolução em campo aberto

O professor destaca que quando vê um gaúcho pilchado cantando, faz uma conexão direta com o sentimento que Borges traduz. “Quando imposta sua voz, com todo aquele gestual, traz a memória viva da Revolução Farroupilha, algo que é visto como algo indiscutivelmente bom”. Aliás, quem já viu um gaúcho ou prenda a plenos pulmões, seja cantando ou mesmo declamando, sabe do que Fischer está falando. O microfone e todo sistema de amplificação de som são meros detalhes, pois encarna uma personagem e solta a voz como se estivesse num campo aberto em plena estância. “Tenho a impressão de que desconhecem João Gilberto, a Bossa Nova e toda essa questão da música como uma voz mais intimista”, brinca o professor.

Para o gaúcho, esses atos que evocam a memória da Revolução Farroupilha, celebrada em 20 de setembro, demonstram esse passado de bravura. Afinal, os farroupilhas se insurgiram contra o império. “No gauchismo esse passado é positivo, pois acreditam na Revolução como forma de defender seus valores”, destaca. “É reconstituindo esse passado que o gaúcho tem uma espécie de reconforto com o presente, por mais duro e difícil que ele possa ser”, analisa o professor.

 

No Acampamento Farroupilha o gaúcho revive o cenário da vida na estância (Foto: Francielle Caetano/PMPA)

De volta ao passado

Fazer a memória da Revolução Farroupilha, para quem vive o gauchismo, é muito mais do que reviver a batalha. É como ingressar no túnel do tempo e se portar ao modo dos gaúchos de 1835, quando o confronto eclode. “Observe que vivemos um contínuo de revolução tecnológica, há essa sombra de que a qualquer instante os homens serão substituídos por máquinas. Pois, mesmo assim, vem o gauchismo como uma forma de se opor a tudo isso”, pontua Luís Augusto Fischer. O exemplo mais claro de tudo isso é o Acampamento Farroupilha de Porto Alegre, que se estende por todo o mês de setembro.

Até mesmo o local que sedia o evento, o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, conhecido como Parque da Harmonia, ganha ainda outro apelido: o Rincão da Harmonia, em alusão aos velhos rincões do pampa. “É um mundo que valoriza o artesanato em detrimento à tecnologia, que tem a relação do indivíduo com o que produz, diferente da relação industrial”, aponta. É nesse mesmo mundo que se vivem os valores que o gaúcho considera ideal. “Acampado em piquetes num parque no meio da cidade, andando a cavalo e vestido a caráter”, completa.

Piquetes do Acampamento Farroupilha em Porto Alegre (Foto: LucianoLanes/PMPA)

O mais curioso, para o professor Fischer, é observar como as pessoas vivem nesse mundo à parte, que acontece de fato só em setembro, não como uma fantasia. “Não é como um conto de fadas, algo inventado. Eles reconstituem um passado com verdade, como se estivessem vivendo tudo isso de novo. Acho muito curioso”.

Milícia gauchesca?

Luís Augusto Fischer ainda chama atenção para outros aspectos dessa volta ao passado como forma de enfrentar o presente. “Vivemos num processo de violência medonho. No gauchismo, percebemos muita violência. Mas é uma violência domável! É algo que não nos ameaça”, analisa. O professor, que ao longo da conferência se releva um grande contador de causos, recorda uma história para exemplificar sua perspectiva. “Estava almoçando com um professor de fora do estado num restaurante com vista para a rua, perto do Acampamento Farroupilha. De repente percebemos aqueles cavalarianos invadindo a avenida”.

Fischer já logo esperava um comentário do amigo, pois estavam em plena cidade grande e cavalos disputavam espaço com carros e ônibus. Calmamente o visitante observou o movimento, mas quando os cavaleiros já davam as costas, ele indagou: “mas vocês não têm medo?”. O anfitrião, imaginando que se referia ao trânsito, aos animais, à cena insólita como um todo, responde: “Não. Claro que não”. E o visitante insiste: “mas eles têm faca na cintura!”. “É isso, ninguém se sente ameaçado por isso, uma violência que não nos ameaça. Nunca ninguém cogitaria uma milícia de cavalarianos gauchescos para combater o tráfico de drogas”, brinca o professor.

Esse é mais um traço do gaúcho que só se compreende de dentro do gauchismo: uma valorização de uma violência que de fato não se viveu e talvez não se viveria. “É essa violência do campo, do trato com os animais, mas também da guerra do passado, da disputa de fronteira”, completa. Ou seja, é uma violência do passado, mas que faz frente à violência que realmente vivemos agora no presente, essa sim como uma verdadeira ameaça.

O táxi e o baio

O Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros que está submerso num verdadeiro estado de crises. “É uma crise de gestão fenomenal, não sei se é toda uma crise econômica, mas é uma crise de grande porte que também se reflete numa crise de imagem”, analisa o professor. Ele se refere ao parcelamento de salário de funcionário do Executivo, e o próprio Executivo gaúcho parece não ter a mesma força que os líderes políticos do passado. “Víamos antigos políticos gaúchos com liderança, se impondo. Agora vemos o pessoal em Brasília com o pires na mão”.

Entretanto, por mais difícil que seja fechar o orçamento no fim do mês, o gaúcho não deixa de embarcar na nau do tradicionalismo. Com crise ou sem crise, as churrasqueiras do Rincão da Harmonia fumegam noite e dia. Prendas e peões não economizam na caracterização das vestimentas típicas e os arreios dos cavalos estão sempre “nos trinques”. Aliás, Fischer traz outro causo para exemplificar mais uma das curiosidades do gauchismo: a relação com o cavalo. “Ficam o tempo todo para lá e para cá andando a cavalo. Mantêm esse bicho o ano todo e, provavelmente, andam só uma vez no ano”, brinca.

Mesmo na cidade, muitos mantêm cavalos. Animais tomam a rua em 20 de setembro (Foto: Karine Viana Palácio Piratini)

Certo dia, Fischer tomou um táxi e ao passar na frente do mais antigo CTG de Porto Alegre, o 35, o motorista indaga: “o senhor sabe o que é isso?”. “Sei, sim. É um CTG”, responde o professor. Mas o motorista não se deu por satisfeito, e disparou: “sabe quando foi fundado?”. “Sei, sim, em 1948”, respondeu Fischer. Pronto, estava estabelecida uma relação. “Bah, o senhor sabe mesmo”, dispara o motorista já com um sorriso no rosto e puxando a carteirinha de sócio do bolso. “E fomos conversando, ele falando das tradições e como as cultuava, até que me disse que tinha um cavalo. ‘Um cavalo?’, questionei”, recorda o professor.

Sim, o motorista de táxi também era cavalariano. “Ele sentia orgulho disso, disse que era difícil, pois pagava uma espécie de hotel para o cavalo ficar e isso custa caro”, completa. Mas nem assim abandonava a ideia de manter o animal, nem que lhe rendesse alguns problemas conjugais. “Disse que até a mulher dele implica com o cavalo, mas não quer saber de se desfazer. Agora, pense: nessa conjuntura manter um cavalo”, pondera Fischer.

CTG, o templo

Se há ainda alguma dúvida de que o gauchismo é quase que uma devoção religiosa, basta que se entre num Centro de Tradições Gaúchas - CTG para observar como esse espaço se perfaz no templo do gauchismo. É lá, também fora dos festejos farroupilha, que o gaúcho se reúne para deixar transbordar sua alma oceânica, seja através das danças, das músicas ou declamações. “O próprio gesto de declamar e cantar é, para o gaúcho, dizer ‘quem eu sou’. Observe como homens letrados, urbanos, fazem questão de reconstruir essa identidade do campo”, diz Fischer.

Nos CTGs, a tradição é passada por gerações (Foto: Brayan Martins/PMPA)

Para o professor, é curioso observar o CTG. “Outro dia conversava com uma jovem que me contava como foi debutar no CTG. Observe: debutar, nos dias de hoje, e ainda no CTG. Para nós, não faz muito sentido, mas para o gauchismo faz todo sentido”, conta. Além disso, esses tempos do gauchismo não existem só no Rio Grande do Sul. Fora do estado, são também espaços para se matar a saudade e recompor esse passado que não se viveu de verdade. “O gauchismo é vivido como algo religioso, mesmo que não de forma consciente. O gaúcho se vê como que pertencendo a algo maior, algo que já foi e que talvez nem precise ser mais”, elabora o professor. É por isso, segundo Fischer, que o gaúcho se vê reconfortado com um passado que é capaz de o manter vivo no presente, apesar de toda a adversidade.

Melancolia saudosista e dicotomias do gauchismo

Ao fim de sua palestra, Fischer é questionado pelo professor Eduardo Vicentini de Medeiros, doutor em Filosofia pela UFRGS, sobre a inércia em que parece estar mergulhado o gaúcho de hoje. Para ele, é como se vivesse de um passado e, por ter vivido esse tempo, desenvolvesse uma espécie de melancolia saudosista que o imobiliza no presente. Para Fischer, isso é a gênese da ideia de alma oceânica. Não é negar uma realidade, mas buscar algo maior, que o conforte e faça seguir em frente. “O gauchismo é muito dicotômico. É mais matizado do que supomos. Talvez, o mais interessante, em vez de fazer a crítica de rechaço, seja olhar para essa diversidade. Essa crítica de rechaço deixa tudo muito reduzido, aplainado e não contribui muito”, conclui Luís Augusto Fischer, propondo um outro olhar, crítico, mas não refratário, ao gauchismo.

 

Quem é Luís Augusto Fischer?

Doutor, mestre e graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, onde leciona. É autor de vários livros, entre eles Dicionário de porto-alegrês (Porto Alegre: L&PM Editores), Literatura gaúcha – História, formação e atualidade (Porto Alegre: Leitura XXI) e Inteligência com dor – Nelson Rodrigues ensaísta (Porto Alegre: Arquipélago Editorial). Fez a edição anotada de Contos gauchescos e Lendas do Sul (Porto Alegre: L&PM Editores), de Simões Lopes Neto, e de Antônio Chimango (Caxias do Sul: Editora Belas Letras), de Amaro Juvenal.

Hino Riograndense

O Rio Grande do Sul é o único estado do Brasil que tem o hábito de cantar seu hino. Para muitos gaúchos, é uma forma de manter viva a memória da Revolução Farroupilha. Composto em 1838, foi adotado oficialmente só em 1966. A letra é de Francisco Pinto da Fontoura, música do Comendador Maestro Joaquim José Mendanha e harmonização de Antônio Corte Real.

Conheça o Hino

 

 

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