A guerra das estátuas e o novo fim da História nos Estados Unidos

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05 Setembro 2017

Há uma onda iconoclasta que atravessa os Estados Unidos neste verão de 2017. Da fase inicial em que estavam na mira as estátuas dos generais sulistas e escravistas derrotados na guerra civil, passamos agora para outras estátuas, incluindo as de Cristóvão Colombo e Italo Balbo (de Ferrara, como eu), doada por Mussolini à cidade de Chicago, em 1933, para homenagear a travessia sobre o Atlântico.

O comentário é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA, publicado por HuffingtonPost, 02-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mas a questão não deve ser lida em diapasão nacionalista: em um contexto de crise que não é política, mas cultural e civil, é totalmente marginal a questão da nacionalidade dos imortalizados nas estátuas. Cabe mais se perguntar quem será o próximo da lista: missionários e missionárias católicos?

De determinado ponto de vista, ou seja, daquele de quem, como eu, tende a observar os movimentos da sociedade norte-americana das janelas da sala de aula da universidade, tranquiliza ver que os norte-americanos - especialmente os jovens - estão retomando o espaço nas ruas e nos campi universitários. Poderia ser um ponto de virada em relação ao refluxo antipolítico dos últimos anos. Não preocupa mais, agora, o suposto cinismo e pragmatismo dos jovens estudantes, todos concentrados em deixar a faculdade o mais rápido possível para conseguir um emprego; agora, ao contrário, é visível um redespertar do ativismo e idealismo dos jovens universitários, e preocupa como manter esse novo ativismo dentro de canais de diálogo não-violento.

De outro ponto de vista, aquele que ensina a história aos jovens norte-americanos, é difícil deixar de se questionar frente a essa fúria iconoclasta. Deve-se dizer que é necessário entender como o legado do racismo e da segregação racial - que pelos menos nos últimos anos é o debate que cruza os Estados Unidos, de Obama a Trump - não seja uma história passada, e em certo sentido nem sequer seja história. Como escreveu William Faulkner: "O passado nunca está morto. Nem sequer é passado". As estátuas e memoriais dos generais confederados Robert Lee e Thomas Jackson, agora sob ataque, foram construídos no início do século XX em uma campanha lançada deliberadamente para reafirmar a causa da escravatura que foi derrota pela guerra civil mais de meio século antes. O racismo e a segregação racial continuam inegavelmente a marcar as vidas dos norte-americanos e pesam como um dos pecados originais do projeto nacional, civil, moral e religioso que são os Estados Unidos da América.

Essa permanência do passado racista da "supremacia branca" nos Estados Unidos hoje, portanto, não se discute. De um ponto de vista cultural, no entanto, o ponto crítico é a ideia de história, ou seja, o fim da história no universo da política identitária, ou identity politics, no Ocidente. Não é o "fim da história" de que falava em 1992, o cientista político nipo-americano Francis Fukuyama, segundo o qual com o fim do comunismo também tinha chegado ao fim a história, no sentido do fim de um drama histórico entre ideologias totalitárias diferentes e contrapostas: todos nos tornaríamos cidadãos livres de um mundo libertado de capitalismo, com a universalização da democracia liberal como a forma final e definitiva na história dos modelos que os seres humanos escolheram para governar a si próprios. Trata-se de outro "fim da história", que decorre da crise da democracia liberal - crise da qual os Unidos Estados de Trump são o mais claro exemplo.

É o fim da história como ato de fé na possibilidade de compreender e criar um mundo que é compartilhado mesmo entre universos de diferenças. Os estudiosos da história (profissionais, estudantes, leitores de livros e jornais) devem se confrontar com uma nova tradição de estudos sociais e culturais que rejeita o aporte da história se não conseguir suportar, com argumentos de tribunal da história, uma lógica de caráter ‘reparacionista’ para as vítimas da história: a história é assim reduzida a uma narrativa com uma finalidade ideológica declarada, a de servir à identidade de um específico grupo (nacional-étnico-racial, de gênero, social) do qual se origina a narrativa e para o qual é direcionada.

Existem histórias diferentes, tantas quantas são os grupos sociais, étnicos, religiosos e ideológicos diferentes. Essas diferentes histórias formam a vida de pessoas pertencentes a grupos diferentes que coexistem em um mesmo país, mas que mais e mais vivem mundos vitais diferentes: meios de comunicação diferentes, escolas diferentes, ambientes de trabalho diferentes. É a América da "big sort" de quem falava Bill Bishop quase dez anos atrás: divisão entre culturas, separação entre faixas econômicas e polarização política.

A destruição das estátuas reivindica a necessidade de ajustar as contas com um presente de racismo sistêmico que decorre da escravidão e da segregação racial até a metade do século XX, pelo menos. Mas a motivação antirracista expressa apenas uma das identidades em busca de um próprio papel no pluralismo norte-americano hoje. À destruição de uma supremacia cultural branca (expressada por aquelas estátuas) está se seguindo uma fase indisponível à leitura da história nacional de forma compartilhada. O momento atual é particularmente crítico na história daquele experimento que, desde sempre, é representado pelos Estados Unidos. A história futura dos Estados Unidos da América também vai depender da maneira como eles olharão para a sua história passada.

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