O que o Papa Francisco pensa da política de Trump para o Afeganistão?

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02 Setembro 2017

O presidente Donald Trump anunciou recentemente a nova política adotada pelo seu governo no caso do Afeganistão. Embora nem o Papa Francisco nem o Vaticano tenham diretamente comentado sobre o assunto, nos últimos anos algumas lideranças eclesiásticas pressionaram para que sejam adotadas soluções pacíficas na luta contra o terrorismo.

A reportagem é de Christopher White, publicada por Crux, 31-08-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Num discurso muito aguardado no começo do mês de agosto, o Trump delineou a política a ser adotada pelo seu governo na questão do Afeganistão, a guerra mais longa na história dos Estados Unidos.

“Não iremos construir países novamente”, disse. “Vamos matar terroristas”.

Em muitos aspectos, esta sua política marca uma continuação da estratégia do governo Obama, que tentou diminuir a escalada dos esforços adotados por George W. Bush de reconstrução do Afeganistão, do Iraque e outros países do Oriente Médio.

Há tempos o Vaticano critica a presença dos Estados Unidos no Iraque, mas a resposta dada à intervenção americana no Afeganistão sempre foi matizada.

Embora muitas vezes tenha condenado o terrorismo em termos inequívocos, o Papa Francisco também usou estas ocasiões para analisar as motivações subjacentes às atividades terroristas e pressionar a comunidade internacional no sentido da paz.

À luz da relutância do Vaticano em comentar diretamente o tema, parece justo perguntarmos: O que o Papa Francisco poderia pensar sobre a nova política de Trump para o Afeganistão?

Segundo Daniel Philpott, professor de ciência política da Universidade de Notre Dame e ex-pesquisador do Centro Internacional de Religião e Diplomacia, não está claro o que o papa pensa.

“Podemos considerar como uma decisão prudente isso o que os Estados Unidos querem fazer neste momento, então eu não sei se o Papa Francisco ficaria a favor ou contra”, disse ele ao Crux.

“Mesmo assim, podemos lembrar alguns temas do atual pontificado e usá-los para avaliar essa questão. Podemos chamá-lo de um ‘papa da paz’, e é um papa da paz no mesmo sentido que uma grande litania de papas vem sendo ‘papas da paz’ desde Bento XV, na época da Primeira Guerra Mundial”, completou Philpott.

Desde a sua eleição em 2013, Francisco regularmente responde à atividade terrorista ao redor do mundo usando esta sua plataforma como um catalisador para paz.

Philpott observa que, embora o papa tenha várias vezes condenado o terrorismo, “ele também concordou que pode haver uma justa resposta armada ao terrorismo”.

“O Papa Francisco dá igualmente uma grande ênfase no diálogo e no diálogo inter-religioso, estendendo a mão aos muçulmanos e criticando o que chama de um ‘medo artificial dos muçulmanos’, e apontando para a exclusão destas pessoas”, disse.

“Ele parece estar na tradição papal de construção inter-religiosa da paz, mesmo quando condena inequivocamente o terrorismo”.

Em entrevista ao Crux, Stephen Schneck, ex-diretor do Instituto para Pesquisa em Política e Estudos Católicos, da Universidade Católica da América, falou que as recentes declarações do pontífice indicam que a Igreja está se dirigindo a direção em que a justificativa para a guerra parece cada vez mais limitada.

“Desde o Papa João XXIII há uma mudança gradual no pensamento católico sobre as guerras, acelerado por pessoas como Paulo VI e Francisco. Vemos um afastamento de toda e qualquer justificativa para a guerra”, disse ele.

“Não acho que o Vaticano esteja no momento de declarar que todas as guerras são injustas, mas certamente ele está indo nessa direção”, refletiu Schneck.

Ainda segundo o entrevistado, o governo Trump não seria aprovado nos critérios da tradição católica para a guerra justa.

De acordo com ele, “não só as políticas propostas por Trump, mas também as políticas que o governo Obama estava implementando no Afeganistão não se enquadram facilmente dentro do contexto do pensamento tradicional católico de guerra justa”.

“Se aplicarmos esta lista de critérios ao que estamos buscando no Afeganistão, parecerá que, desde George W. Bush em diante, não estamos em conformidade com a teoria católica tradicional da guerra justa, pois a ameaça não é certa e não é urgente justificar uma resposta preventiva”, disse o entrevistado.

“Todos estes conflitos modernos como no Afeganistão são bastante difíceis de encaixar dentro do pensamento tradicional da guerra justa”, completou.

Ainda que não tenha delineado quantas tropas a mais ele planeja enviar ao Afeganistão tampouco apresentado um prazo para a retirada delas do país, Trump deixou claro que os EUA vão permanecer engajados na região até que se possa declarar a vitória.

O Pe. Bryan Hehir, professor do Centro Carr para Política em Direitos Humanos, da Harvard Kennedy School, questionou até que ponto esta vitória será possível sem se atentar para a construção de uma nação.

“Se pensarmos no apelo que o Talibã, o Daesh [ISIS] e a Al-Qaeda têm junto aos cidadãos do Afeganistão, o melhor que os Estados Unidos pode fazer é ajudar na construção de uma nação”, disse o religioso em entrevista ao Crux.

Hehir acredita que Francisco prefere uma abordagem que minimize a violência e, até onde isso para ele for uma exigência, tal abordagem será sempre multilateral.

“Pelo que percebo, o Santo Padre prefere o diálogo e a diplomacia em detrimento da força. Mas o diálogo e a diplomacia no Afeganistão não são fáceis no momento”, disse.

“Não digo que ele tenha excluído o emprego da força, mas essa ideia está bem abaixo na lista de opções”.

Em todo o seu papado, Francisco vem falando de uma terceira guerra mundial travada aos poucos, “em parcelas” – referência à natureza difusa da violência e do terrorismo que continua a causar estragos no mundo.

Em um discurso em fevereiro de 2017 a estudantes em Roma, Hehir identificou a falta de oportunidades de emprego que os jovens enfrentam no mundo moderno como sendo um dos fatores que contribuem para o terrorismo mundial.

“A falta de trabalho me leva a me inscrever em um exército terrorista e, assim, tenho algo para fazer, ou dar um significado à minha vida: é horrível”, lamentou.

Mais recentemente, durante uma visita que fez ao Egito em abril deste ano, o religioso voltou a falar sobre o terrorismo, destacando que “não há justificativa para a violência”.

Então, embora Francisco não tenha comentado especificamente sobre a guerra do Afeganistão, não deve nos surpreender que uma solução não violenta seja apoiada por ele e pelo corpo diplomático do Vaticano.

“Me parece que um jeito de descrever a direção em que a Igreja se move, nesses temas e respostas dadas a situações de guerra, é através da construção da paz”, disse ao Schneck ao Crux.

Ainda que o Afeganistão de 2017 e o Afeganistão de 2001 sejam histórias bem diversas, o consenso de todos os três papas durante estes anos foi o de elevar a paz e minimizar as tratativas que envolvam violência.

“Há uma sucessão regular de papas que usaram frases como ‘flagelo da guerra’ ou ‘guerra não mais’, disse Philpott.

“Todos estes papas parecem ver que a guerra no mundo é demasiada prevalente, e podemos deduzir que o Papa Francisco provavelmente não seja um grande entusiasta da expansão das guerras”.

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