O astrônomo do Papa: "Batizaria um alienígena? Se ele me pedisse..." Entrevista com Guy Consolmagno

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31 Agosto 2017

Guy Consolmagno é o homem que olha as estrelas em nome de Deus. Astrônomo e jesuíta: não necessariamente nessa ordem. Norte-americano, 65 anos, desde 2015 é o diretor do Observatório do Vaticano, ou seja, o observatório astronômico da Santa Sé, confiado desde sempre à Companhia de Jesus. É um sujeito afável, alegre e curioso, o irmão Consolmagno.

No outro dia estava em Tucson, às voltas com o eclipse solar total que cruzou o céu da América. O céu é a sua vida, as estrelas e os telescópios a sua paixão: não só é o autor de obras como A Mecânica de Deus: como os cientistas e os engenheiros nos ensinam o sentido da religião (Jossey-Bass, 2007) e L'infinitamente grande.

L’Astronomia e il Vaticano (De Agostini, 2008), mas ultimamente ganhou espaço na mídia por outro de seus livros, cujo título traduzido do inglês seria algo como "Você batizaria um alienígena?". Porque o barbudo e jovial astrônomo-chefe do Papa – que deu nome até a um asteróide, o "4597 Consolmagno", também chamado de "Little Guy" – absolutamente não acredita que a vida extraterrestre seja incompatível com a fé cristã. Muito pelo contrário.

A entrevista é de Roberto Brunelli, publicada por Repubblica, 30-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista

Irmão Consolmagno, nos círculos científicos parece ganhar cada vez mais força a ideia de que não estamos sozinhos neste universo. O senhor realmente acredita que em breve vamos descobrir a existência de formas de vida extraterrestres?

Na verdade, a ideia de que possa haver outras formas de vida no universo além da nossa própria não é nova. O que é novo é a esperança de sermos capazes de descobri-la em breve. Certamente sabemos que outros lugares, inclusive no nosso sistema solar, têm todos os ingredientes para tornar a vida possível, assim como a conhecemos na Terra. Por exemplo, existem oceanos de água salgada sob a superfície de Europa, uma das luas de Júpiter, e de Encélado, uma lua de Saturno.

E mesmo que não tenhamos evidência de que também existam micróbios naqueles oceanos, sabemos que são lugares onde vale a pena enviar missões espaciais. Voltando à sua pergunta: se eu acredito? Eu acredito na possibilidade de que exista vida suficiente para pensar que vale a pena colocar em campo todo esforço para procurar evidências. Toda a ciência começa justamente com essa forma de ‘fé’.

O senhor realmente imagina um cenário em que eventuais extraterrestres possam se comunicar conosco, e vice-versa?

Eu posso imaginar muitos cenários em que entramos em contato com inteligências alienígenas. Se eu espero que algo venha a acontecer em breve? Não realmente. Na verdade, eu suspeito que, mesmo que descubramos a existência de outras inteligências, será muito difícil, se não impossível, comunicar-se com eles. Às vezes achamos muito difícil comunicarmo-nos até mesmo com membros de nossa própria família.

Nem sempre a Igreja foi igualmente aberta em relação às hipóteses da ciência. O que tem a dizer sobre Giordano Bruno e Galileu Galilei?

Todos aqueles que querem um exemplo da Igreja em desacordo com a ciência sempre citam o caso de Galileu, em grande parte porque é o único exemplo que realmente vem à mente. Mas se olharmos atentamente para a história do Galileu, descobriremos que seu processo, que certamente foi injusto, estava mais relacionado com a política local do que com a fé e a ciência.

O caso de Giordano Bruno realmente não tinha nada a ver com ciência. A sua ideia de muitas estrelas com planetas já estava presente nos escritos de Nicolau de Cusa no final da Idade Média, e até mesmo Tomás d’Aquino fala de como Deus poderia ter criado muitos mundos. Esses casos foram notabilizados no final do século XIX pelos governos anticlericais italianos como parte de um tentativa sistemática para desacreditar a Igreja, ao mesmo tempo em que o mais famoso astrônomo na Itália, Angelo Secchi, era um padre jesuíta.

Recentemente, o senhor disse que "para dizer que não existe nenhum Deus, é preciso ter uma ideia bastante precisa de como deveria ser esse Deus que se afirma não existir". E ainda: "Talvez eu também não acreditasse naquele Deus em quem muitos não acreditam". Em qual Deus o senhor acredita?

Creio em um só Deus. Mas existem muitas ideias de Deus nas quais eu não acredito. Eu suspeito que muitos daqueles que se consideram ateus, pensem isso porque a ideia que eles têm de "Deus" é, na verdade, uma falsa ideia. Talvez eles imaginem Deus como uma espécie de deus da natureza, tipo Zeus, que controla cada átomo de perto sem dar qualquer autonomia para o universo, e muito menos liberdade para os seres humanos. Poderiam pensar que Deus é vingativo ou colérico. O problema é, evidentemente, que não podemos realmente compreender o que ou quem seja Deus, podemos imaginá-lo apenas por analogia. E às vezes nossas analogias colorem o nosso quadro de forma equivocada. Se você pensar em Deus como um pai, que é o que sugeria o próprio Jesus, mas você tinha um péssimo relacionamento com o seu pai, poderia ter uma imagem distorcida do que pode significar Deus enquanto ‘pai’.

O senhor afirma que quando buscamos a verdade, fazemos uma boa ciência. Mas a ciência parece estar cada vez mais sob ataque: não se confia mais nas vacinas, negam-se as mudanças climáticas, contestam-se os tratamentos antitumorais. O que parece ter-se trincado na sociedade contemporânea?

Existe um grande medo da verdade em nossos dias, inclusive da verdade do amor. Quando crianças aprendemos que tudo o que há para conhecer pode ser lido nos livros, mas quando amadurecemos, percebemos que tudo o que aprendemos leva a novos questionamentos. Quanto mais sabemos, mais percebemos que não sabemos. O erro é pensar que o nosso objetivo seja o de encontrar ‘respostas’. O verdadeiro objetivo é ficar cada vez mais confortável com as perguntas. Se você acredita que sua esposa seja um "problema a ser resolvido", provavelmente seu casamento está em grave crise. Precisamos pensar na ciência e na religião como formas de aprender a conhecer a verdade sem que nunca se chegue a um fim.

Em que medida o seu ‘ser jesuíta’ influi em sua ideia de ciência?

Eu acredito que a ciência é uma maneira maravilhosa de sentir uma sensação de intimidade com a criação e, através desta, tornarmo-nos íntimos do Criador".

Aquela imagem de batizar um alienígena é muito forte, e é um problema que o senhor associa justamente à comunicação com os alienígenas, certo?

É uma pergunta que nos faz compreender mais profundamente o que significa ser batizado, e o que significa ser uma criatura neste universo. Se um alienígena tiver a mesma capacidade de ser uma identidade com consciência de si própria, com consciência de Deus, e for livre para escolher entre o amor e o ódio, o que o torna diferente de nós? Por que deveríamos chamá-lo de alienígena?

O que o senhor vê nas estrelas, Irmão Consolmagno: o céu, a ciência ou Deus?

Eu vejo estrelas. Mas as estrelas me lembram a ciência que eu aprendi e me faz lembrar os bons amigos que me ensinaram essa ciência. Lembram-me da minha infância, quando meu pai me ensinava os nomes das estrelas mais luminosas, lembram-me de quando ia com os amigos olhar as estrelas nos céus escuros ou ficava deitado para apreciar a majestade do céu acima da minha cabeça. A alegria que sinto é a percepção da presença de Deus. Em outras palavras, é através da minha ciência, aliás, que venero o Deus da alegria.

Mas no final, o senhor batizaria mesmo um alienígena?

Só se ele me pedisse.

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