A revolucionária invenção que, sem eletricidade, fornece água potável para hondurenhos

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30 Agosto 2017

"Antes da estação de tratamento, tínhamos apenas a água do rio para beber. Muita gente ficava doente. Mas agora nossa água potável vem da própria torneira".

É o que conta Ramon Ribera, líder comunitário no vilarejo de Támara, que fica 25 km ao norte da capital de Honduras, Tegucigalpa.

A reportagem é de Alejandra Martins, publicada por BBC Brasil, 29-08-2017.

Os próprios moradores cuidam da estação que mudou a vida dos 6.500 habitantes. Isso graças a uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Cornell, nos EUA, como parte do projeto AguaClara - a construção de estações de tratamento de água que operam sem eletricidade.

Mais de 60 mil pessoas estão sendo beneficiadas pela ideia que o engenheiro americano Monroe Weber-Shirk teve ao trabalhar em El Salvador durante a guerra civil dos anos 1980.

Projeto social

"Trabalhei em campos de refugiados entre 1982 e 1983 e presenciei a necessidade de água potável", contou Weber-Shirk, professor de engenharia ambiental em Cornell, à BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC).

"Mas as tecnologias disponíveis não eram apropriadas para servir comunidades rurais na América Latina. E mesmo em algumas cidades era difícil operar e administrar estações de tratamento".

Weber-Shirk comanda o AguaClara Labs, programa que a cada semestre leva a Honduras estudantes de Cornell para trabalhar com o tratamento de água em comunidades locais, usando um sistema cuja simplicidade tem como fator-chave o funcionamento sem eletricidade.

"Temos também uma tecnologia de código aberto e sem patentes", acrescenta o engenheiro. "O sistema se baseia em avanços físicos e químicos".

O principal componente é a gravidade, porém. Explica-se: a água poluída não pode ser limpa de formas mais simples, como o uso de de cloro, por causa da presença de sedimentos ou resíduos de fezes.

Para solucionar esse problema, os pesquisadores de Cornell desenvolveram um processo que começa com o uso de um coagulante químico para unir partículas na água, formando partículas maiores - e mais pesadas.

A água é, então, enviada a um tanque de sedimentação em que as partículas se sedimentam no fundo. A água da parte superior vai para um filtro de areia de camadas múltiplas que capturam partículas "fujonas".

Por fim, a água é purificada com cloro antes de ir parar nos tanques de abastecimento da comunidade.

"Cada morador tem água potável quando abre a torneira", ressalta Weber-Shirk.

Ramon Ribera acrescenta ainda que a tecnologia permite que pessoas sem grandes qualificações operem as usinas.

Já foram construídas 14 estações em território hondurenho, a maioria em pequenas comunidades como Támara, com menos de 15 mil habitantes. O projeto está sendo expandido para a Nicarágua e a Índia.

"Temos versões diferentes, com fluxos que variam entre um e 100 litros d'água por segundo. Para se ter uma ideia, 100 litros d'água por segundo podem servir às necessidades de uma comunidade de 30 mil pessoas".

O laboratório trabalha em parceria com engenheiros e técnicos que trabalhar para a ONG hondurenha Água para o Povo (APP), que constrói as usinas e treina a comunidade para operá-las.

A APP monitora o funcionamento das estações de tratamento e os casos de doenças nas comunidades, mas é a própria comunidade que cuida da qualidade da água.

"Os moradores vigiam, por exemplo a formação de lodo, por exemplo. E avisam que não vão pagar a conta caso encontrem sedimentos na água", explica Jacobo Nuñez, diretor da APP.

Em Támara, a tarifa mensal cobrada de cada residência equivale a R$ 13.

Cooperação

O programa recebe fundos de várias fontes.

As pesquisas, por exemplo, são financiadas pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA e pela Agência de Proteção Ambiental Americana.

Mas Weber-Shirk teme que o programa de cortes de custos do governo do presidente Donald Trump possa afetar os recursos.

A construção das unidades de tratamento é financiada por um programa de cooperação internacional com a Suíça, o Rotary Club e as municipalidades.

Os cerca de 65 estudantes de Cornell que participam do AguaClara a cada semestre vêm de vários setores da vida acadêmica.

"Vêm tanto da engenharia, como da administração e da comunicação", explica Weber-Shirk.

"Eles recebem problemas para desenvolver novo conhecimento para criarmos desenhos melhores para as usinas", explica o acadêmico.

"Creio que o mais importante que aprendi com o projeto é que nosso trabalho no laboratório afeta diretamente a vida de pessoas necessitadas", diz Erica Marroquin, estudante de engenharia que viajou para Honduras.

"Precisamos ter consciência de que nosso trabalho conta. Não só como uma questão de motivação, mas para que saibamos que podemos mudar o mundo."

Expansão

Weber-Shirk espera que o AguaClara alcance outros países da América Latina.

Uma ex-aluna do engenheiro, por exemplo, criou uma empresa beneficente, a AguaClara Reach, para identificar possíveis sócios.

"Estamos interessados em encontrar instituições de engenharia na América Latina que queiram oferecer a tecnologia da AguaClara em suas regiões. Estamos abertos para contatos também de governos", afirma Weber-Shirk.

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