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26 Agosto 2017

“Entre o fascinante e o inquietante, e sem prescindir de dilemas éticos e morais, muitas das ficções atuais convidam a pensar em futuros prováveis, onde a convivência com androides seja moeda corrente”, escreve Franco Giordano, em artigo publicado por Clarín-Revista Ñ, 24-08-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Sempre foi a ficção científica que concebeu a hipótese da supressão do limite que separa humanos de máquinas e como seria um mundo onde os robôs pudessem automelhorar suas estruturas e alcançar uma inteligência fora do controle humano.

A história dos androides no cinema remonta ao icônico robô humanoide Maria em Metrópolis (1927), de Fritz Lang. Atualmente, proliferam obras audiovisuais onde a figura do androide em suas variantes cibernéticas ganhou protagonismo de modo análogo a novos avanços científicos que permitem vislumbrar um futuro onde a convivência com robôs seja cotidiana. Longe de conceber estes personagens como uma máquina sem consciência e emoções, que segue ordens estritas, hoje, impõe-se uma noção de androides idênticos ao humano em todas as suas esferas, que os questionam em seu agir e apresentam ao público diversas problemáticas do ponto de vista filosófico, social, evolutivo, de integração e muito mais.

Tomemos a exitosa série Westworld, produzida por J. J. Abrams, e que obteve mais de 20 indicações para a premiação Emmy. Nela, os humanos frequentam um parque de atrações de alta tecnologia para se relacionar com androides aos quais solicitam todos os tipos de fantasias, por mais depravadas que sejam, já que se supõe que os robôs não lhes causarão dano (seguindo as leis da robótica decretadas por Isaac Asimov, em seus relatos literários: um código moral). Até que, é claro, os sintéticos “despertam” e surgem os conflitos.

Embora a temática das máquinas que se rebelam e se tornam uma ameaça foi amplamente explorada em filmes icônicos e diversos, como Blade Runner (1982), O Exterminador do Futuro (1984) e Matrix (1999), nos últimos tempos, nas ficções científicas, surge um tipo de androide que é capaz de aprender, de desenvolver consciência e sentimentos, assim como um humano.

Outra das séries mais aclamadas pela crítica é a britânica Humans (2015). Esta ficção se estabelece em um presente paralelo, onde androides se incorporam à sociedade e substituem o humano em muitos âmbitos: ocupam-se do lar, fazem trabalhos pesados e intelectuais, acompanham pessoas sozinhas e até concordam em fazer sexo ao ser colocados em um modo especial. Mas, o original da série é a exploração de uma sociedade que apresenta novas dificuldades: esposas que deixam seu marido por um androide pelo qual se sentem mais atraídas, desemprego gerado pela contratação de robôs, problemas psicológicos desenvolvidos por crianças frente à convivência com sintéticos e, inclusive, uma questão ética sobre o que aconteceria caso fossem vendidas crianças-robôs para casais sem filhos ou para substituir mortos. Os protagonistas, um grupo de androides fabricado com um algoritmo de consciência, são o principal atrativo da série: levantam questionamentos filosóficos pelos abusos que são cometidos contra eles, indagam sobre a natureza do homem com seus preconceitos e bondades e criticam as noções de amor, justiça e liberdade. A série vai mais além e reflete sobre o que é um humano e o que não é, e quais são os direitos que os androides deveriam ter, caso desenvolvessem consciência.

Mas, em qual distância estamos destes cenários de ficção? Não parece ser algo impossível em longo prazo. Assim como nas séries, os especialistas trabalham para descobrir algoritmos que concedam às máquinas a possibilidade de imitar atributos humanos como a empatia ou a curiosidade, conforme manifesta o artigo Scientists imbue robots with curiosity, de Matthew Hutson, publicado na revista Science.

“O que ocorre com estes desenvolvimentos é que nós, seres humanos, acreditamos que somos muito especiais, e estes estudos demonstram que, mesmo de modo complexo, muitos de nossos comportamentos são replicáveis”, afirma Guillermo Simari, doutor em Ciências pela Universidade de Washington e um dos mais reconhecidos especialistas de nosso país em Inteligência Artificial.

“A curiosidade é como um padrão de comportamento, uma pessoa curiosa não fica apenas com uma resposta, mas busca outras opções, é algo bastante algorítmico. Com a emoção acontece algo parecido, alguém em geral percebe suas emoções, como quando vê um bebê e sente ternura. Do mesmo modo é possível programar um sistema para que diante de certas experiências tenha determinadas emoções e assim programar respostas”, explica Simari, atualmente diretor do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em Inteligência Artificial, na Universidade Nacional do Sul.

“No Japão estão trabalhando em robôs que demonstrem certa empatia para se relacionar com pessoas de idade avançada, que entendam as emoções daquela ao qual estão ajudando e possam responder como consequência”, destaca Simari.

Será, então, possível, em algum momento, o que concebe Humans em relação ao algoritmo da consciência? “Isso é algo muito complexo e difícil de prognosticar porque ainda não sabemos bem o que é a consciência. Em grandes linhas, ela é definida como a capacidade de poder fazer planos acerca de si mesmo, saber que se existe como um ser diferente de outros, mas não há uma compreensão acabada a esse respeito. Caso fosse descoberto um algoritmo assim, sem dúvida, traria problemas religiosos, éticos e morais. Porque caso se crie uma entidade consciente e a coloque para fazer tudo o que não se quer fazer, o que é criado é um escravo. É algo que precisaremos ver como resolver”, adverte Simari.

Enquanto isso, ao menos nos mundos da ficção, seguem proliferando sintéticos conscientes, como no caso de Alien: Covenant (2017). Um dos momentos chave do filme é o dilema existencial apresentado entre os androides David e Walter, ambos interpretados por Michael Fassbender. Ali são expostas duas faces do discurso androide: aquela que opta por servir aos humanos e busca ajudá-los por sua própria vontade, e o outro, sem nenhuma parte ética, que só busca seu próprio benefício. O debate é se nos farão prosperar ou se, ao contrário, constituirão um novo passo evolutivo.

Na convergência de dois mundos, apesar destas intrigas estarem no plano da ficção, algo é real: a criação de robôs de aspecto humanoide parece gerar um interesse crescente. Um exemplo que passou da ficção científica ao mundo real é o sexo entre humanos e robôs. Em alguns países, já é vendida uma série de ginoides (androides de aspecto feminino), que são uma atualização das bonecas para adultos, integradas com níveis básicos de inteligência artificial. Comercializadas para manter relações sexuais, sua utilização já está abrindo debates em torno da coisificação da mulher e da exacerbação de determinadas perversões humanas, segundo o relatório Nosso futuro sexual com robôs (Fundação para a Responsabilidade Robótica).

Até onde pode chegar esta revolução tecnológica? E como seria viver em uma sociedade onde interagir com robôs seja algo cotidiano? Os prognósticos indicam que, em 20 anos, os robôs ocuparão quase a metade dos empregos atuais. “Sem dúvida, haverá uma crise, irão surgir trabalhos diferentes e terão pessoas que se adaptarão e outras que não. E, por sua vez, muitas tarefas serão desenvolvidas de modo mais efetivo”, opina Simari.

De momento, a relação entre pessoas e robôs cresce dia a dia, como nos casos atuais de robôs camareiras no Paquistão, androides para atenção ao público no aeroporto da Coreia do Sul e, inclusive, uma apresentadora de TV sintética no Japão. Como nos relatos de Philip K. Dick, e a propósito da decorrência de Blade Runner em outubro, chegará a época em que a coexistência com androides nos obrigará a executar testes para comprovar sua condição? Entre o fascinante e o inquietante, e sem prescindir de dilemas éticos e morais, muitas das ficções atuais convidam a pensar em futuros prováveis, onde a convivência com androides seja moeda corrente.

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