Emergem questões éticas à medida que cientistas avançam na edição de genes

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09 Agosto 2017

"Devemos nos preocupar com a modificação genética de seres humanos de formas cujo resultado desconhecemos."

Observadores católicos, entre outros, estão levantando questões éticas sobre o trabalho de uma equipe internacional de cientistas que afirmam conseguir editar o DNA de embriões humanos para corrigir doenças.

A reportagem é publicada por Catholic News Service, 07-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

As questões centram-se em duas preocupações: a criação de embriões humanos para a experimentação científica seguida de sua destruição e o efeito ainda desconhecido da mudança de DNA nas próximas gerações, já que as mudanças podem se tornar parte permanente da linha genética da família.

O sucesso relatado pelos cientistas envolvidos na pesquisa, financiada pela Universidade de Saúde e Ciência do Oregon, preocupa observadores, que alegam que pode levar ao desenvolvimento de "bebês de grife", com traços que faz que pareçam superiores.

"Agora, estamos fabricando embriões humanos apenas com o intuito de fazer experiências letais. Acho que o público precisa estar bem ciente disso e espero que esteja horrorizado por essa realidade", disse Gregory Schleppenbach, diretor do Comitê de Atividades Pró-Vida da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, em Washington.

"Certamente, devemos nos preocupar com a modificação genética de seres humanos de formas cujo resultado para as próximas gerações desconhecemos", disse ele ao Catholic News Service.

O foco dessas preocupações é um relatório on-line que surgiu em 2 de agosto na revista Nature. Os cientistas disseram que conseguiram editar o DNA de embriões humanos sem introduzir outras mutações nocivas que prejudicaram outras tentativas.

O referido experimento envolveu a edição de genes para corrigir um problema genético que causa uma doença cardíaca conhecida como cardiomiopatia, que afeta o bombeamento de sangue pelo coração.

Shoukhrat Mitalipov, diretor do Centro de Terapia Embrionária Celular e Genética da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon, lidera a equipe. Ele disse que o trabalho pode fazer que seja possível editar genes para corrigir outras doenças debilitantes.

Os defensores da pesquisa viram o avanço com bons olhos e afirmaram que poderia levar a esforços semelhantes para prevenir a fibrose cística, a doença de Huntington, uma forma hereditária da doença de Alzheimer e talvez o câncer de mama e o câncer de ovário, causados pela mutação nos genes BRCA, que produzem proteínas supressoras de tumores. O acrônimo BRCA refere-se ao gene do câncer de mama.

Na pesquisa, os cientistas usaram o esperma de um doador portador da mutação da doença cardíaca para fertilizar dezenas de óvulos de mulheres saudáveis. Durante a fertilização, os pesquisadores também injetaram uma ferramenta de edição de genes, conhecida como CRISPR-Cas9. Os cientistas relataram que em 42 dos 58 embriões utilizados os genes foram corrigidos, uma taxa de mais de 70%.

Cientistas bastante conhecidos se entusiasmaram com os números.

No entanto, para os éticos católicos o fato de que nenhum dos embriões foi utilizado para procriação é problemático, pois, segundo eles, a destruição da vida humana viola a premissa básica do ensino da Igreja de que toda vida é sagrada.

O padre Tadeusz Pacholczyk, diretor de educação do Centro Nacional de Bioética Católica na Filadélfia, disse ao CNS que estava preocupado com o fato de que os embriões humanos foram criados in vitro e "tratados não como fins, mas como meros meios para alcançar certos objetivos de investigação".

"O valor do ser humano é menosprezado ao criá-los, usá-los para experimentos, tratá-los como meros insumos de pesquisa, para que depois sejam mortos", escreveu ele, por e-mail, no dia 3 de agosto. "Além disso, se esses embriões crescessem, como deve acontecer no futuro, é provável que surjam efeitos não intencionais a partir da modificação dos genes, mesmo que sejam utilizadas ferramentas seletivas e precisas como o CRISPR-Cas9".

Segundo ele, se o procedimento se tornar uma prática, é possível que os pais optem pela edição de genes e depois selecionem o embrião que incorporar as modificações genéticas desejadas, deixando que o restante seja destruído.

"As Diretrizes Éticas e Religiosas dos Serviços Católicos de Saúde", da USCCB, proíbem experiências não terapêuticas em embriões ou fetos vivos, mesmo com o consentimento dos pais.

O padre Pacholczyk disse que os experimentos da equipe "eram claramente não terapêuticos, já que o objetivo final era destruir os embriões".

Schleppenbach disse estar preocupado com a "linguagem descuidada e insensível" da equipe de cientistas e de alguns eticistas que justificaram o trabalho pela possibilidade de benefícios no futuro. Além disso, revelou que há incertezas a respeito dos efeitos que a edição pode trazer a gerações futuras.

"Não há como saber", afirmou.

A prática da edição de genes seria aceitável apenas se fosse para reduzir a probabilidade de uma doença em um indivíduo específico, seja no útero, após o nascimento, na adolescência ou na idade adulta, relatou Schleppenbach ao SNC.

"Você estaria mudando apenas este indivíduo. Não estaria transferindo nada para futuras gerações", disse ele.

Marcy Darnovsky, diretora executiva do Centro de Genética e Sociedade em Berkeley, Califórnia, descreveu o procedimento descrito no relatório como "extremamente perturbador".

Ela pediu ampla discussão sobre as implicações do trabalho, encorajando "participação pública significativa... participação democrática", ao invés de permitir que alguns cientistas decidam o quanto essa pesquisa pode avançar.

O centro questiona a transmissão de mudanças no DNA a gerações futuras e preocupa-se que a edição de genes abra portas para o aprimoramento genético de seres humanos.

Ela apontou leis em mais de 40 países e a Convenção sobre Direitos Humanos e Biomedicina do Conselho da Europa que proíbem esses experimentos. "A maioria dos países que chegaram ao ponto de refletir sobre isso adotou leis para proibir esse tipo de edição de genes", afirmou.

O Reino Unido, no entanto, permitiu a realização de experiências genéticas em embriões humanos. Mitalipov disse ao NPR que estava aberto a atuar junto a órgãos reguladores de qualquer país para expandir o trabalho.

Nos Estados Unidos, os cientistas que querem vê-lo avançar para testes clínicos enfrentam rigorosos requisitos de regulamentação. Os Institutos Nacionais da Saúde não financiam pesquisas envolvendo embriões humanos. Além disso, o Congresso proibiu a Food and Drug Administration (FDA) de considerar a possibilidade de realização de experimentos envolvendo embriões humanos geneticamente modificados.

Mitalipov e o trabalho com embriões humanos já foram o foco de amplas preocupações éticas. Uma audiência realizada em fevereiro de 2014 pelo Cellular, Tissue and Gene Therapies Advisory Committee, da FDA, analisou as técnicas de fertilização em que ele foi pioneiro, que formariam bebês a partir do DNA de três ou quatro pessoas para prevenir a transmissão de doenças genéticas hereditárias.

As preocupações também giravam em torno da destruição de embriões e do efeito da modificação de DNA sobre as próximas gerações.

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