O modo de governar de Francisco e Trump confunde inimigos e aliados

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04 Agosto 2017

Apesar das enormes diferenças de perspectiva, experiência e agenda, o Papa Francisco e o presidente Donald Trump compartilham semelhanças impressionantes, incluído um certo ceticismo a respeito dos establishments que eles hoje lideram. Um artigo recente publicado na revista Foreign Affairs destaca um outro elemento comum: ambos preferem instâncias decisórias informais a procedimentos estabelecidos, e ambos praticam o “governo via surpresas”.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 03-08-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Dada a natureza hiperpolarizada do debate americano sobre quase todo e qualquer assunto atualmente, mas em especial sobre Trump, começarei esta coluna com uma advertência: Nada do que abaixo escrevo pretende ser uma crítica ou um endosso a Trump, e o mesmo se aplica ao Papa Francisco. A ideia é ser descritivo, não prescritivo.

Isso posto, vamos direto ao ponto.

Já se observou que, apesar das enormes diferenças de perspectiva, experiência e agenda, Trump e Francisco possuem semelhanças surpreendentes. Ambos são lideranças populistas, ainda que em temas extremamente diferentes. Ambos têm um ceticismo instintivo em relação aos establishments que conduzem, no caso de Francisco, o Vaticano, e, no caso de Trump, a burocracia federal. Ambos também têm um gênio para atrair as atenções, seja por lisonja (como em Francisco) ou nem tanto (como em Trump).

Um ensaio de Richard Haas sobre os riscos e as oportunidades na agenda de política externa de Trump na última edição da revista Foreign Affars indiretamente sugere um outro paralelo, neste caso a forma como ambos os líderes governam.

Haas, presidente do Conselho para as Relações Exteriores e ex-diretor de Planejamento Político do Departamento de Estado americano, é considerado um dos principais analistas do cenário mundial. Embora tenha sido rejeitado no governo Trump para o papel de vice-secretário de Estado, o artigo que publicou é altamente positivo no sentido de que dá a entender que Trump tem a oportunidade de, no final, alcançar sucessos importantes em se tratando de política externa.

No entanto, o autor também considera a maneira como estas oportunidades poderão descarrilhar, notando que, em parte, isto está relacionado com a forma como Trump toma decisões. Eis uma passagem central nesse sentido:

“Claramente Trump prefere um processo decisório informal, com várias vozes incluídas e muitos pontos de vista. Mas uma tal abordagem tem pontos positivos bem como pontos negativos, e se quiser evitar os perigos que advêm de uma improvisação excessiva, um governo precisa garantir que o processo político formal do Conselho de Segurança Nacional predomine sobre o processo informal – e que as deliberações informais significativas estejam, em última instância, integradas ao processo formal, ao invés seguirem em frente separadamente”.

Podemos, é claro, concordar ou discordar desta conclusão, mas o diagnóstico parece definitivo: Trump gosta de contornar os procedimentos formais.

Caso o leitor esteja familiarizado com o que ocorre no Vaticano, a linguagem aqui parecer-lhe-á natural.

Francisco também tem a tendência a contar mais com uma rede de amigos e assessores informais na modelagem de seu pensar sobre as coisas do que com as estruturas formais do Vaticano. Se alguém acredita que a Congregação para a Doutrina da Fé, por exemplo, é o principal motivador das decisões deste papa em assuntos teológicos, ou que a Congregação para o Culto Divino desempenha um tal papel na liturgia, tenho de dizer que não é isto que acontece.

Os analistas sabem bem que, quando se trata de se decidir sobre assuntos teológicos, Francisco conta mais com o arcebispo argentino Victor Fernández do que com a pessoa que estiver à frente da congregação doutrinal.

Para os admiradores de Francisco, tal independência do “sistema” faz parte de seu charme. Para os críticos, ela é parte do que o torna uma figura desestabilizadora e perigosa. Em todo caso, é uma marca importante de seu estilo.

Eis uma outra passagem do artigo de Hass:

“O presidente também prefere claramente ser imprevisível. Isto pode fazer sentido enquanto uma tática, mas não como uma estratégia. Manter confusos os inimigos pode ser útil, mas manter confusos os amigos e aliados nem tanto – especialmente amigos e aliados que colocaram a segurança deles próprios nas mãos dos EUA há gerações. Quanto menos firme eles julgam serem estas mãos, tanto mais poderão decidir fazer as coisas por si próprios, ignorando as solicitações de Washington e considerando acordos laterais para protegerem os seus interesses. Reviravoltas frequentes em política, mesmo aquelas que são bem-vindas, vêm a um custo substancial para a credibilidade dos EUA e à sua reputação de confiabilidade”.

Mais uma vez, fechemos os olhos, desconsideremos as diferenças óbvias entre o Estado e a Igreja, e iremos achar que Haas está falando do Papa Francisco.

Em março de 2018, o pontífice completa o quinto aniversário de sua eleição, e se sondássemos os “aliados” tradicionais do papado, talvez a principal frustração que manifestariam seria a de nunca saber o que Francisco irá fazer ou dizer.

De novo, podemos discordar sobre se, no longo prazo, esta situação é mais positiva do que negativa. Certamente, aos que tendem a achar que Francisco é uma força esmagadoramente positiva tanto para a Igreja como para o mundo, estar constantemente surpreendendo o mundo faz parte de seu poder. Por repetidas vezes, ele deixa a mensagem de que o status quo não deve se manter, e que já acabou a ideia de que “devemos continuar fazendo as coisas como sempre foram”.

Independentemente do que pensamos sobre estas palavras, o gosto do papa por um “governo via surpresas” parece um fato inegável.

Quiçá a conclusão aqui seja a de que, ideologias à parte, tanto Francisco quanto Trump exemplificam a forma como se parece a liderança política no século XXI: livres das instituições e burocracias, e deixando os amigos e inimigos em dúvida.

O fato de que estas figuras estejam empregando um tal modelo de comando a serviço de objetivos amplamente diferentes não o torna menos digno de nota. Esta dinâmica surpreendente entre Francisco e Trump pode ser a prova cabal de que, não importa o que queiramos, estes líderes mundiais de hoje parecem compartilhar um jeito comum, e bem pouco convencional, de tentar torná-lo possível.

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