Dunquerque – a guerra , o filme

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02 Agosto 2017

“Um grande filme deveria revelar que o mundo é pior do que a gente pensava e não nos dávamos conta. Pode ser depressivo. Mas não porque queremos complicar o mundo mais do que ele é. Há mais coisas neste lugar do que nossos olhos conseguem ver. Faço filmes que tentam endossar esta idéia”, escreve Robson de Freitas Pereira, psicanalista; membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Publicou, entre outros: O divã e a tela – cinema e psicanálise (Porto Alegre: Artes & Ofícios, 2011), citando o diretor do filme Dunkirk, em artigo publicado por Sul21, 01-08-2017.

Eis o artigo.

“A vida é uma história. Contada por um idiota, cheia de som e fúria. Sem sentido algum” .
Shakespeare – Macbeth, ato V, cena V

Christopher Nolan, aos 47 anos, parece ter realizado seu melhor trabalho. Até agora. Depois de “A origem”, a trilogia de “Batman – o cavaleiro das trevas” e “Interestelar”, só para citar os últimos, ele sai do espaço sideral, das teorias dos buracos negros e dobras espaciais que rompem nosso senso comum de tempo e espaço. Agora, vem nos mostrar um episódio da história recente, aqui na terra, debaixo do céu que nos protege: a retirada de Dunquerque, ocorrida entre o final de maio e início de junho de 1940.

Quatrocentos mil homens entre ingleses, franceses e belgas encurralados numa praia no norte francês, depois que os alemães com sua “blitzkrieg” tomaram a Bélgica, a Holanda e os principais portos franceses. O mar era a única saída, ou a rendição, frequentemente sugerida pelos inimigos, o que significaria acabar com o exército inglês e sua possibilidade de resistir à invasão da sua ilha.

O episódio e sua mitologia já foi contado, direta ou indiretamente (lembremo-nos de Desejo e Reparação, no original Atonement) diversas vezes pelo cinema. Desta vez, Chris Nolan faz nosso olhos se enfrentarem com uma história cheia de som e fúria, absurdos e esperança. Sempre de forma cinematográfica, onde a história tem que ser contada pela articulação do som e imagem e, contrariando seus roteiros anteriores, com poucos diálogos e explicações.

Nolan fez suas escolhas para contar um evento tão complexo. Os quatro elementos fundamentais estão em cena: terra, ar, água e fogo. Onde se jogam a vida e a morte em tempos de guerra. Protagonizados por três núcleos dramáticos. Três espaços diferentes de tempo e personagens: uma semana, um dia, uma hora que vão se entrelaçando à medida que o filme avança. Três situações: os soldados em terra, buscando uma saída. Na água, os barcos civis ingleses que atravessam o canal da Mancha para tentar ajudar e no ar os aviadores da RAF que tentam proteger e evitar o afundamento de mais barcos cheios de refugiados.
Tempo de guerra – no momento mais absurdo, os homens mostram do que são capazes para o melhor e o pior. Eles estão ali, jogados numa situação crítica, cuja única saída é lutar para continuar vivo e, alguns soldados ainda vão sentir-se culpados por uma derrota na qual são simples carne para o matadouro. Isto que aqui estamos falando da II Guerra mundial, aquela que resistiu ao nazismo a despeito das simpatias que ele despertava ao redor do mundo (Inglaterra incluída).

Dos 400.000 encurralados, ao final conseguiram retirar 335 mil, com ajuda da população civil – 800 barcos de passeio, de pesca de diversos tamanhos. A derrota transformou-se em vitória da sobrevivência e do desprendimento. Como o próprio diretor afirmou: “ em momentos extremos de crise, em momentos de angústia sobreviver é uma vitória”.

Tempo de guerra — o som de um tique-taque constante a nos angustiar. A nos inculcar premência do tempo, a ameaça do fogo permanente, a iminência da morte. Aqui o trabalho de Hans Zimmer com a trilha sonora. Seus arranjos de cordas, metais e percussão antecipam e sustentam os momentos angustiantes e de suspense que os personagens estão envolvidos. Parece uma homenagem a Philip Glass e Steve Reich se eles algum dia colocassem música num filme de guerra. O som sustenta a imagem, articula-se com ela. Faz lembrar momentos inspirados das parcerias Angelo Badalamenti & David Lynch ou Bernard Hermann & Alfred Hitchcock.

Imagens – planos e ângulos inusitados de filmagem, propiciados pelas câmeras I-Max controladas por Hoyt van Hoytema. Mais uma parceria de filmes e viagens anteriores. Os alemães não são visto claramente. Eles não são protagonistas. Mas seus panfletos incitando a rendição, o traçado das balas, os bombardeios, o perigo constante: estes sim comparecem diretamente. O protagonismo fica por conta do cerco, da pressão, do suspense provocado pelo fogo inimigo. Poucos diálogos – como se a estória tivesse que se sustentar contada pelo som e a imagem. As lacunas ficam por conta do espectador dar sua contribuição, rompendo o silêncio que fica ao final. Nas palavras do diretor: “ um grande filme deveria revelar que o mundo é pior do que a gente pensava e não nos dávamos conta. Pode ser depressivo. Mas não porque queremos complicar o mundo mais do que ele é. Há mais coisas neste lugar do que nossos olhos conseguem ver. Faço filmes que tentam endossar esta ideia”[1]. 

Dunquerque: um filme pleno de som e fúria.

Nota:

[1] Entrevista para The Guardian , em 2013. Tradução livre nossa. “We can’t step outside our own heads. We just can’t. Now, a great film will reveal that the world is way fucking worse than you think it is and you missed it. It should be depressing but the reason it’s not is, we want the world to be more complicated than it is. We don’t want to know the limits of your world. You don’t want to be like Truman in the boat at the end, hitting the sky. What it’s really saying is, there’s more to this place than meets the eye. I make films that are huge endorsements of that idea.”

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