Bento XVI e o irmão: o relatório sobre as violências atinge o papa emérito. Artigo de Alberto Melloni

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20 Julho 2017

A tragédia da pedofilia “requer uma tomada de consciência das dioceses para entender o que aconteceu na seleção do clero, o que impede que se repense a formação e como é que os pedófilos padres ficaram invisíveis, assim como os pedófilos ‘de família’”.

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha.

O artigo foi publicado por La Repubblica, 19-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No discurso de renúncia ao ministério petrino, Bento XVI disse que não tinha mais o “vigor do corpo e da alma” necessário para governar a barca de Pedro. Mas hoje, na vida de idoso apartado, ele deve enfrentar uma tempestade mais amarga do que aquelas que ele muitas vezes denunciou. Uma tempestade que não diz respeito a ele, mas ao seu irmão Georg, musicista e diretor, por muitos anos, do coro dos “pardaizinhos” de Regensburg.

Centenas daquelas vozes infantis se queixaram de maus-tratos devidos a um estilo educativo digno da pedagogia autoritária fascista; dezenas deles denunciaram abusos sexuais. Com uma contabilidade final impressionante: 547 maltratados, 67 violentados, 49 perpetradores.

Os casos não foram descobertos por uma investigação que teve que ziguezaguear entre sigilos e obstáculos, mas pela própria diocese que pediu um relatório ao advogado Ulrich Weber, que já tinha intuído há meses as dimensões da catástrofe moral.

Entre os perpetradores indicados pelo Relatório Weber não está Georg Ratzinger, que também admitiu ter recorrido a alguns tapas: mas ele é imputado de não ter visto os delitos que ele deveria ter visto. E no atraso decenal com que tudo isso aflora transparece uma suspeita: isto é, que ser irmão do cardeal e, depois, do papa tornou o monsenhor musicista preguiçoso ao vigiar e/ou imune em relação àquela vigilância que deveria ter feito com que ele entendesse a língua das criancinhas de vozes angelicais e de vida infernal.

O Relatório Weber abala, assim, o Ratzinger diretor do coro. Levanta questões sobre a figura do cardeal Müller, que havia sido bispo daquela diocese e que Bergoglio aposentou da Cúria Romana com uma celeridade que hoje tem uma explicação a mais.

Mas também atinge o papa emérito, sem lhe dar qualquer oportunidade de defesa ou de rebelião. De fato, defendemo-nos de uma acusação; rebelamo-nos contra uma sentença injusta. Mas aqui não há nem acusação, nem sentença: simplesmente, dá-se a entender que, sem ter feito nada para “encobrir” o irmão, a sua simples posição elevada teria alimentado a inércia moral do irmão, convicto de que a sofisticação musical era um valor espiritual, mesmo que obtida com métodos inaceitáveis e preços nojentos.

Nenhuma “mãozinha” interna, portanto. Nenhum trânsito do Vatileaks. E nenhuma possibilidade de recorrer a atalhos imprudentes, como o que justamente Bento XVI tomou em 2010, quando atacou a Igreja da Irlanda (única no mundo a ser tratada assim), explicando que o “programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II, às vezes, foi mal interpretado” e que deveria ser encorajada “uma tendência, ditada pela reta intenção, mas errada, de evitar abordagens penais em relações a situações canônicas irregulares. É nesse contexto geral que devemos tentar compreender o desconcertante problema do abuso sexual dos meninos”.

Todos, o papa emérito e quem lê o Relatório Weber, estão diante de uma tragédia – a brutalidade e o estupro – contra a qual de nada adianta (ao contrário) centralizar as causas em Roma, como pensava o cardeal Ratzinger. Ela não é tratada com proclamações sobre a vergonha ou sobre a transparência. Mas ela requer uma tomada de consciência das dioceses para entender o que aconteceu na seleção do clero, o que impede que se repense a formação e como é que os pedófilos padres ficaram invisíveis, assim como os pedófilos “de família”.

Isto é, encobertos por negligências e sigilos que não se rompem enquanto não se percebe que, na desproporção de poder intrínseca às relações entre adultos e crianças, é o favor pueris, e não o favor rei, que pode abrir um caminho de justiça.

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