Igreja e católicos LGBTs: A ponte proposta pelo Pe. James Martin aguentará?

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06 Julho 2017


Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT
Community Can Enter into a Relationship of Respect,
Compassion, and Sensitivity
James Martin
Publicado por HarperOne, 160 páginas, $ 19,99

O comentário do livro Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity, de autoria de James Martin, padre jesuíta, é de Jamie Manson, publicada por National Catholic Reporter, 05-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Eis o comentário.

À primeira vista, a mais recente publicação do padre jesuíta James Martin, intitulada “Building a Bridge”, parece uma obra literária. Se pudéssemos julgar pela capa, a brevidade desta obra, o tamanho compacto e a fonte aumentada certamente dão a impressão de ser uma leitura acessível, rápida e acolhedora. Infelizmente, para alguns católicos, em particular os ativistas LGBTs de longa data, certos trechos podem se assemelhar, de fato, com uma obra de ficção.

Foi uma história real de terror que levou Martin a escrever este manuscrito. Poucas semanas depois do massacre de 49 pessoas na boate Pulse, em Orlando, o religioso recebeu o prêmio “Bridge Building”, da New Ways Ministry, organização de defesa dos direitos LGBTs voltada aos católicos e seus familiares. “Building a Bridge” é a continuação do discurso proferido na premiação.

O cerne do livro é a sua reflexão, de 72 páginas, sobre o ensino do catecismo segundo o qual os gays e as lésbicas deveriam ser tratados com “respeito, compaixão e sensibilidade”. Martin avança neste ensinamento para incluir as pessoas transexuais. Pede que os líderes católicos atuem neste sentido, mas, em uma virada interessante, também exorta os membros da comunidade LGBT a tratar a hierarquia com o mesmo respeito, compaixão e sensibilidade.

Parte do que motivou Martin a aceitar o prêmio Bridge Building foi a resposta dada pelos bispos à tragédia na boate Pulse. “Embora várias lideranças expressaram horror e tristeza, somente um punhado dos mais de 250 bispos católicos empregaram as palavras gay ou LGBT”, escreve Martin. “Considero isso um dado revelador”.

Que Martin tenha achado revelador o silêncio dos bispos pode dizer mais sobre o excesso de otimismo dele próprio do que das limitações das capacidades pastorais dos bispos. Afinal, estas lideranças eclesiásticas foram formadas com base na “Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, de 1986, emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé, carta que instruía a “não se surpreender” quando avanços nos direitos homoafetivos levarem a uma violência contra esta comunidade:

“Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, ou quando se adota uma legislação civil para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos”.

Dificilmente Martin é o primeiro católico, tampouco o primeiro jesuíta, a escrever sobre a experiência LGBT na Igreja. Porém ele pode ser o primeiro a escrever sobre o tópico a partir de uma posição privilegiada dentro da Igreja institucional. “Em minha vida de jesuíta, conheci muitos cardeais, arcebispos e bispos”, escreve ele. “Bem poucos eu considero amigos. Todos os que conheci são homens bons, trabalhadores, pessoas de oração, muitos deles são extremamente gentis comigo”.

Este seu acesso notável aos líderes eclesiásticos o leva a fazer uma das declarações mais ousadas em toda a obra:

“Na Igreja institucional, muitos querem estender a mão à comunidade [LGBT], mas parecem um pouco confusos sobre como fazê-lo. Sim, sei que parece haver alguns que, aparentemente, não querem estender a mão, mas todos os bispos que conheci são sinceros no desejo de um trabalho pastoral verdadeiro”.

Há uma grande quantidade de “parece” nestas duas sentenças, e tais ocorrências parecem sugerir que os católicos LGBTs, na falta de acesso ao centro de poder da Igreja, simplesmente ignoram o que realmente está acontece no coração destes homens.

A declaração de Martin se depara com o peso das evidências em contrário. A Conferência dos Bispos Católicos dos EUA reafirmou, como prioridades para o período de 2017 a 2020, a defesa do casamento tradicional e a defesa da liberdade religiosa.

Estas duas campanhas parecem negar aos membros e parceiros da comunidade LGBT direitos a benefícios sociais, a adoção e proteções trabalhistas. Instituições de ensino católicas continuam a demitir professores LGBTs porque os bispos ameaçam retirar-lhes o status canônico que têm caso não agirem nesse sentido.

Em fevereiro deste ano, muitos bispos reuniram-se no National Catholic Bioethics Center Conference, evento onde discutiram o problema do “transgenerismo” e estratégias para combater a sua influência cada vez maior na sociedade.

Mais recentemente, Dom Thomas Paprocki, da Diocese de Springfield, Illinois – que realizou sessões de exorcismo em novembro de 2013 depois que a igualdade matrimonial fora legalizada naquele estado –, emitiu uma diretiva negando acesso à Eucaristia, à participação nas liturgias e mesmo a funerais cristãos para todos os católicos em união homoafetiva.

Claro que estes bispos podem não estar entre os amigos de Martin. Mas, diante destas injustiças, a maioria daqueles bispos permanecem em silêncio, e o silêncio deles soa muito mais como uma colusão do que outra coisa. Mesmo se um prelado demonstre abertura à problemática LGBT, muitas vezes os seus superiores e os maiores benfeitores [doadores] não se comportam do mesmo modo, e simplesmente não vale a pena sair em defesa das pessoas LGBTs.

Existe, evidentemente, um risco mais profundo e mais pessoal em jogo para muitos bispos e padres, quando diante de temas LGBTs. Quer dizer, muitos deles são gays. Martin dá o melhor de si para reconhecer esta realidade, mas se vê num beco sem saída:
“Existem centenas, talvez milhares, de clérigos gays trabalhadores, e membros gays e lésbicas de ordens religiosas, que vivem suas promessas de vida celibatária e votos de castidade, e que contribuem para a edificação da Igreja”, escreve. No entanto, poucas páginas adiante, alega que “uma razão que a Igreja institucional tem lidado com sensibilidade é que (...) muitos líderes eclesiásticos ainda não conhecem muitas pessoas gays e lésbicas”.

Quiçá percebendo as sobrancelhas franzidas de seus leitores, Martin admite: “A tentação é a de sorrir e dizer que os líderes católicos de fato conhecem pessoas que são gays: padres e bispos que não falam publicamente sobre a própria homossexualidade. Mas o que quero enfatizar aqui é mais amplo. Muitos líderes eclesiásticos não conhecem, no nível pessoal, pessoas LGBTs que falam publicamente a respeito da sua sexualidade”.

A resposta será, então, que os clérigos assumam-se [homossexuais]? Martin não diz. No entanto, convida os católicos LGBTs a uma maior compaixão por seus líderes clericais, os quais, segundo ele, “podem ser homossexuais que, em idade jovem, foram torturados pelas mesmas atitudes odiosas que a maior parte dos LGBTs vivenciaram quando eram menores”.

Citando um trecho do escritor irlandês Colm Toíbín, Martin sugere que alguns padres entraram para o seminário por causa da perspectiva de que “fazer um voto em santidade a jamais ter sexo com uma mulher oferecia um alívio”. (Ironicamente, ao tentar desculpar a homofobia internalizada de alguns padres, Martin pode ter, inadvertidamente, revelado uma das causas originárias da misoginia sistêmica entre o clero.)

Martin deveria ser aplaudido por falar de forma tão direta sobre a prevalência de gays entre o clero, mas na realidade ele não conta com o fato de que é exatamente o “armário clerical” que torna a opressão à comunidade LGBT por parte da hierarquia tão ultrajante e intolerável. Assim, muitos bispos e padres mentem sobre a própria sexualidade, alguns inclusive mantêm relações homoafetivas, ao mesmo tempo em ficam julgando as pessoas LGBTs que têm buscado viver suas vidas de forma honesta.

Os fiéis LGBTs têm sido forçados a suportar uma enorme falta de transparência e verdade por parte das lideranças religiosas e, não obstante, Martin crê que estas pessoas deveriam se esforçar para ganhar a confiança do clero. Escreve: “Se sinceramente querem influenciar a perspectiva da Igreja sobre temas LGBTs, é bom conquistar a confiança dos membros da hierarquia. Um jeito de fazer isso é respeitando-os”.

Ao reconhecer que “na Igreja institucional, é a hierarquia que opera a partir de uma posição de poder”, Martin afirma que “os católicos LGBTs são convidados a tratar aqueles no poder com respeito, compaixão e sensibilidade” porque “tais virtudes expressam o amor cristão”. Isso pode ser possível se os bispos e padres forem verdadeiramente ingênuos quanto à vida e ao amor homoafetivos, mas o fato de que tantos deles conhecem estas realidades de uma maneira tão próxima torna os seus atos injustos não somente hipócritas, mas também um abuso de poder.

Martin pede que a comunidade LGBT dê aos bispos “o dom do tempo – tempo para conhecerem uns aos outros”. Mas o movimento de busca por justiça às pessoas LGBTs na Igreja Católica tem quase a mesma idade do que os distúrbios de Stonewall, de 1969.

Nessa época, milhares de católicos LGBTs e seus familiares já realizavam vigílias, rezavam do lado de fora das catedrais e escreviam milhares de cartas, com respeito e em boa fé, aos bispos implorando por diálogo. Algumas delas receberam uma resposta desdenhosa, muitas simplesmente não foram respondidas.

Mais de quarenta anos de luta já deveriam ter nos ensinado que compaixão, respeito e sensibilidade não bastam para criar uma relação verdadeiramente justa entre os bispos e os católicos LGBTs. Mesmo com estas três virtudes em jogo, os bispos ainda têm o poder de julgar e impactar negativamente a vida destes fiéis, ao mesmo tempo em que agem em segredo e mentem sobre a própria sexualidade. E espera-se que os católicos LGBTs levem suas almas aos líderes eclesiásticos e implorem para serem ouvidos, enquanto também, em última instância, permanecem sem voz e oficialmente condenados pela Igreja.

Nas conclusões de Martin, ele vislumbra uma ponte que um dia será plana o suficiente para permitir que todos se encontrem facilmente. Confiar nesta ponte, escreve, “é também confiar em que Deus deseja a reconciliação”.

Mas para que esta reconciliação aconteça, exigem-se não só compaixão, respeito e sensibilidade, mas uma reciprocidade de vulnerabilidade, autorrevelação, honestidade e autenticidade. Ainda que não tenha sido a intenção de Martin, “Building a Bridge” lança uma luz sobre a radicalidade da carência de reciprocidade que há entre os católicos LGBTs e os bispos. Enquanto persistir este desequilíbrio, será difícil imaginar como essas estradas poderão alguma vez se encontrar e se a ponte conseguirá aguentar.

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