"Saí da Universidade de Harvard para o convento". Entrevista com Teresa Forcades

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15 Junho 2017

Não é fácil imaginar como deve ser a vida de uma freira sem pensar na condição de relativa marginalização que a caracteriza. Portanto, quando encontrei pela primeira vez Teresa Forcades e ela falou não de Deus, mas de homens e mulheres, não de almas, mas de corpos, não de abstinência, mas de sexualidade fiquei desconcertantemente surpreso. Era como se no arcabouço de palavras religiosas estivesse escondida uma consciência concretamente amorosa. Teresa Forcades é uma freira beneditina, de origem catalã. Ela tem pouco mais de 50 anos e observa as regras da clausura, com algumas exceções dedicadas a atividades sociais. É uma médica (estudou nos Estados Unidos), teóloga (Ph.D. em Barcelona e Berlim)e se interessa por psicanálise e feminismo.

A entrevista é de Antonio Gnoli, publicada por la Repubblica, 11-06-2017. 

Eis a entrevista. 

Como passou da medicina à teologia?

“Eu teria tido uma grande satisfação em ser médica em alguma pequena aldeia da Catalunha, onde o contato com as pessoas é mais forte. Mas, quando terminei a faculdade, percebi uma necessidade de recolhimento. Por cerca de um ano me isolei em uma casa de campo”.

Como passava os seus dias?

"As horas eram marcadas por uma ordem muito simples: comer, dormir, meditar. Eu tinha comigo os Exercícios Espirituais de Ignácio di Loyola. Mas eu não estava pronta para uma vida diferente. Eu era jovem, ainda desejava aprofundar o estudo da medicina. Eu encaminhei um pedido de admissão para uma universidade americana. Fui aceita e passei algum tempo em um hospital, em Buffalo. Parecia uma carreira garantida. Mas o destino reservava outras coisas para mim".

O quê?

"Eu conheci Elisabeth Schüssler Fiorenza, uma teóloga e feminista católica romena naturalizada norte-americana. Foi ela que me aproximou da teologia e do feminismo. Mas era complicado compatibilizar o hospital e os novos interesses. Eu também havia me candidatado para Harvard e meu currículo havia sido aceito pela Universidade. Deparei-me com uma situação complicada: não queria desistir de meus estudos de teologia".

Precisava escolher entre a Igreja e a Universidade?

"Mais exatamente entre uma entrevista final que me permitiria entrar nos melhores hospitais ou..."

Ou?

"Naquele período, era 1995, voltei por um curto período para a Espanha, no Mosteiro de Montserrat. Eu estava confusa e inquieta. Mas sentia que aquele lugar tinha para mim um sentimento familiar".

Era um mosteiro beneditino?

"Para freiras de clausura. Passei algumas semanas em oração. Um dia a abadessa me chamou e me disse que tinha ouvido falar de minha formação como médica, com especialização em doenças infecciosas. Ela perguntou se eu poderia explicar a ela e as irmãs o que era o vírus da Aids que naqueles anos ceifava muitas vítimas. Organizamos um encontro, uma tarde durante a qual eu também tratei de homossexualidade e de como persistia na imaginação das pessoas uma mensagem equivocada que associava a doença ao pecado de ser gay".

Como reagiram as freiras?

"Para minha surpresa, bem. Havia muitas perguntas e a discussão continuou durante o jantar. Eu pensei que tinha encontrado o meu mundo. No dia seguinte, manifestei à abadessa a intenção de entrar para o convento. Ela riu. Não esperava por isso. Eu falei com toda convicção que preferia Monserrat a Harvard. Ela tentou conter meu entusiasmo. Aconselhou-me a ir para Harvard e, se após dois anos de bolsa ainda estivesse ouvindo o "chamado", poderíamos voltar a conversar".
O tempo não afetou aquela decisão. "De fato, em 1997, fiz os votos".

Como reagiram os seus pais?

"Meu pai ficou incrédulo, minha mãe irritadíssima. Só a minha irmã apoiou minha decisão até o fim. Quanto aos meus amigos, quase todos me consideraram louca. Deixar a perspectiva de Harvard pelo convento foi uma escolha inconcebível".

Você vinha de uma família de classe média?

"Não, meu pai era um vendedor e minha mãe uma enfermeira. Separaram-se quando eu tinha onze anos. Eu era a mais velha de três irmãs. Um dia meu pai, enquanto nos levava para a escola, nos informou que ele tinha se apaixonado por outra mulher".

Como você enfrentou a situação?

"Fiquei em silêncio. Foi uma reação estranha. Parecia-me um enorme gesto, mas ao mesmo tempo temia por ele".

Em que ano foi isso?

“Era 1977. O caudilho Franco estava morto há cerca de dois anos, após uma longa agonia. A Espanha parecia um país imóvel. Isolado de tudo. Lembro que, quando em 1978, com minhas duas irmãs e minha mãe fomos para Paris, senti uma sensação de liberdade e emoção por tudo aquilo que percebia ao meu redor”.

Tem alguma lembrança da ditadura de Franco?

"Como catalães, meus pais não eram favoráveis ao regime. Na família corria a história dos dois avôs. O paterno tinha militado pela esquerda. O materno era médico e durante a Guerra Civil foi preso pelos republicanos. Não tinha inclinação ao franquismo, mas o fato de que era uma das autoridades do país, convenceu os "vermelhos" de que meu avô era um inimigo do povo e, como tal, devia ser fuzilado".

Ele foi executado?

"Minha avó chorou e implorou ao comandante. Entregou as jóias da família e disse que estava grávida (esperava minha mãe) e que, se o pai fosse fuzilado, ninguém poderia cuidar de seu sustento. Foi o que salvou sua vida".

Como você viveu seu papel de novicia?

"No princípio havia entusiasmo. Em seguida, as dúvidas começaram. Acompanhadas por uma sensação de opressão, de tédio, de falta de perspectiva".

Você estava percebendo a dureza desses votos?

"Eu sentia o conforto da oração e a simplicidade desse mundo, governado por um silêncio harmônico. E, no entanto, parecia que eu estava afundando no desespero. Era como se eu não tivesse a força, a convicção, a garra para sustentar minha escolha. Eu me perguntava se Deus me ajudaria. Eu podia ver à minha volta pessoas felizes e sentia por contraste um profundo sentimento de mal-estar".

Conseguiu entender o que estava errado?

"Eu não percebia à minha volta nenhum estímulo cultural. Eu tinha viajado pelo mundo e discutido com as mentes mais abertas, aprendido outros idiomas. De repente eu me encontrava em uma espécie de calma monótona".

Surgiram dúvidas sobre a sua vocação?

"Eu estava em crise. Ainda não tinha feito os votos. Aconteceu naquele período que eu me apaixonei por um jovem médico. Foi um teste para meus verdadeiros sentimentos. Eu tive que escolher entre Deus e o mundo. Foi então que senti a forte necessidade de me tornar uma freira".

O que significou ser chamada?

Eu lhe faço esta pergunta por que talvez nessa "voz que chama" pode haver um pouco de sugestão, mal-entendidos, projeção de si mesmo. "Pode haver tudo isso, só o tempo vai decidir o grau de autenticidade daquela voz".

Não sente o peso da marginalização?

"Pelo contrário, sinto-me no centro de tudo o que faço".

O que quer dizer com centralidade?

"Não estou falando de domínio ou controle de um ambiente. Talvez seja uma radicalidade sem dogma. Sempre que se procura um centro, procura-se um vazio".

Não é provável que seja uma ilusão?

"Eu imagino o centro não como um princípio de estabilidade, mas de ruptura".

Talvez ambos sejam necessários.

"Estabilidade e ruptura também podem se alternar. Da mesma forma que a ordem e a desordem. A história nos ensina. Mas eu acredito que a minha vida esteja em um centro invisível que não pode ser definido. E por isso eu chamaria de experiência mística”.

Eu li no seu livro "Siamo tutti diversi” (Somos todos diferentes, em tradução livre, publicado pela Castelvecchi), que você relaciona a experiência do vazio ao pensamento de Lacan.

"Pode surpreender que uma freira leia Lacan e retire de seu pensamento algumas sugestões valiosas. Estudei psicanálise e, em especial, o termo ‘sujeito inconsciente’. Freud argumenta que a autenticidade interior de uma pessoa foi reprimida".

E que pode, portanto, ser liberada?

"É o papel que deveria desempenhar a psicanálise. Estamos falando de um ideal moderno: libertar as forças do homem! No momento em que substituiu Deus, o homem desenvolveu um desejo infinito de si. Em teoria pensa que se basta".

E, na prática?

"A sociedade, o Estado, a Igreja são todas instituições que o oprimem. É assim que o sujeito descobre não ter nenhuma autenticidade interior. É por isso que Lacan diz que o interior é um vazio e que esse vazio pode ser representado como a morte do sujeito".

A morte do sujeito vem depois da morte de Deus?

"Aquela não aconteceria sem esta".

Ainda assim, desejamos nos tornar pessoas genuínas.

"No horizonte mundano, a nossa identidade vem do exterior, como os desejos, é induzida. Na infância é dada pela relação com a mãe. Pensamos que dessa relação original possa surgir a nossa autenticidade. Mas não é assim. A mãe passa e procuramos uma nova identidade, que encontraremos em alguma outra coisa ou situação. Isso leva Lacan a afirmar que não há nenhuma autenticidade em nós. Somos habitados apenas por um vazio".

Mesmo o desejo é uma forma de vazio?

"O desejo que se realiza no vazio é precisamente o que eu chamo de misticismo. Mas se trata de um desejo sem determinações”.

O desejo sempre nasce como uma forma de ausência.

"Mas quase sempre é induzido por aquilo que nos falta a partir do exterior: uma calça de grife, um casaco elegante, um carro de luxo. Não é nesse sentido que eu entendo o desejo. Agostinho chegou a dizer que todos desejam Deus, mas nem todos dão o mesmo nome ao fato".

O que significa desejar Deus na época de sua morte?

"Para mim, significa defender a verdade".

Todos afirmam, religiosamente, que querem defender a verdade, mesmo que para isso seja preciso usar armas ou assassinar. "Então não é verdade: é apenas fanatismo. Aliás, a verdade não pode ser um conceito relativo, como se cada um tivesse sua própria verdade, pronta para o uso".

Então, o que é?

"A verdade para mim é tudo aquilo que isso não é. Mas a questão é que é preciso argumentar toda vez este ‘não é’.

Você se sente uma privilegiada?

"Em que sentido?".

Estou me referindo à simplicidade de suas irmãs; ao fato de que não possuem e nem usam instrumentos sofisticados; que não lidam com filosofia e homossexualidade; que respeitam a clausura.

"Eu tenho muita inveja das irmãs que vivem permanentemente em clausura. Eu não falaria em privilégio, mas de uma disposição para tomar algumas decisões. Quanto à clausura, após o Concílio de Trento foi introduzido um regime parcial. A comunidade do mosteiro decide a dispensa, como aplicá-la e quando a revogá-la".
Como é a sua vida no mosteiro? "É dividida em partes iguais entre trabalho e oração".

Por trabalho, o que você quer dizer?

"Eu executo principalmente uma atividade intelectual: faço traduções, escrevo artigos, leciono. Este ano o meu curso focaliza dois temas: a necessidade da alma, que se inspira no livro de Simone Weil A primeira raiz, e a teologia feminista na história".

Você falou em "teologia queer". O que significa?

"Queer é um termo que começou a circular na década de 1990. No início significava ‘atravessamento’. ‘passagem’, ‘transição’. Depois assumiu o significado de estranho, bizarro, extravagante”.

E foi trazido de volta para o universo transgênero.

"É verdade e trata-se de uma declinação possível. O que pretendo é enfrentar uma teologia fora dos esquemas pré-constituídos. A teologia não é a defesa conceitual da existência de Deus. Isso poderia criar muitos mal-entendidos. Não. É uma forma de co-criação".

O que seria isso?

"Acredito que Deus não tenha se limitado a criar o mundo e o homem em sete dias. Co-criação significa que nós continuamos a realizar o seu trabalho com outros instrumentos".

Porém nós não somos perfeitos.

"Criar também é arriscar. Sem o risco, afirma Weil, não há liberdade. Deus criou peças únicas. Cabe a nós continuar a sê-lo".

Para você, isso significa ser freira?

"Também significa isso".

É quase possível alinhá-la a um pensamento herético.

"Nunca fui doutrinada em um cristianismo conservador. A cada dia que passa, deveríamos estar dispostos a aprender algo novo".

Não teme a excomunhão?

"Estou preparada, não a temo. A excomunhão foi a pior parte do catolicismo. Equivale ao ostracismo dos gregos".

Você é feliz?

"Fico feliz toda vez que volto ao mosteiro. Toda vez que faço algo que ajuda a nos transformar. Agostinho disse: "Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Felicidade também é essa consciência de sermos humanos para e com os outros”.

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