Uma narrativa literária do martírio dos jesuítas em El Salvador

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01 Junho 2017

Era a madrugada do dia 16 de novembro de 1989: “Estendidos na grama, os sacerdotes rezavam. Não brigavam, não discutiam, não imploravam por misericórdia, rezavam. Dirigiam-se a Deus. As suas vozes eram como brisa. Uma brisa única. Unidos na mesma oração. A fé os levara até lá, onde estavam agora. Naquele momento, a sua história também era a história do mundo”.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 30-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma das últimas páginas de Noviembre, publicado na Espanha pela editora Planeta, Jorge Galán descreve assim os últimos instantes de Ignacio Ellacuría, Ignacio Martín-Baró, Segundo Montes, Juan Ramón Moreno, Amando López, Joaquín López y López. Em breve, os militares do feroz batalhão Atlacatl explodiriam os seus disparos letais. Assim se concluiria a experiência terrena dos seis jesuítas à frente da Universidade Centro-Americana de San Salvador (UCA). Era a madrugada do dia 16 de novembro de 1989.

A guerra civil, em curso há nove anos, havia assumido os tons cruéis do confronto final, com a ofensiva guerrilheira sobre a capital. Os combates terminariam apenas três anos depois. Aquela longa noite de terror – que, além dos religiosos, também levou embora a sua colaboradora, Elsa Ramos, e a filha adolescente, Celina –, porém, marcou o início do lento epílogo.

A paz que o Pe. Ellacuría tinha perseguido obstinadamente em vida – apesar das ameaças e das incompreensões – germinou a partir do seu sangue e o dos seus coirmãos. Um fracasso candente para os carnífices. Isto é, para aqueles que, dentro das Forças Armadas, queriam perpetuar o conflito, com o qual obtinham prestígio, poder e recursos ilimitados.

Talvez por isso, 28 anos depois, o assassinato dos jesuítas continua sendo um tema incômodo em El Salvador. Tanto que o autor de Noviembre recebeu intimidações. Porém, não se trata de um ensaio de revelações inéditas. Mas sim de um retrato humano e apaixonado de seis homens. “Porque só assim é possível compreender a profundidade do seu sacrifício e a importância que teve na história do país”, explica Galán.

O romance está em perfeito equilíbrio entre respeito pela verdade histórica e capacidade de catapultar o leitor ao mundo interior dos personagens. Mais uma prova da habilidade do escritor salvadorenho, conhecido na Itália por La stanza in fondo alla casa (Mondadori), no vão entre os diversos gêneros literários, sem nunca se encerrar em um clichê.

Poeta pluripremiado, autor de contos para crianças, ensaísta e romancista, Galán foi recentemente à Universidade Católica de Milão para o ciclo “Palavras contemporâneas”, organizado pelo professor Dante Liano.

Eis a entrevista.

Por que decidiu transformar o assassinato dos jesuítas da UCA em um romance?

Eu “conheci” Ignacio Ellacuría através do testemunho de uma pessoa que o frequentou por um longo tempo: Francesco Andrés Escobar, um dos professores da UCA. Ele me falou sobre ele, pela primeira vez, em 1991. A presença de Ellacuría era onipresente naquela universidade, mesmo depois da sua morte. Na época, eu não tinha ideia de que escreveria um romance sobre o caso. Levei muito tempo para entender que devia fazer isso. Eu tive que subtrair a história daqueles sacerdotes dos relatórios de polícia e das reconstruções dos livros didáticos. E restituí-la à sua dimensão humana, para fazer com que se captasse o heroísmo, a coragem, o amor. Aqueles homens optaram por ficar em uma nação devastada pela guerra, apesar de terem recebido ameaças, e muitos sacerdotes já haviam sido assassinados. Eram intelectuais reconhecidos, podiam viver em qualquer outro lugar. Mas permaneceram. O seu gesto não deixa de me comover.

Não há o risco de “romantizar” um episódio dramaticamente real?

Não neste caso. Os fatos têm tal poder que não precisam ser nem retocados nem alterados. A fidelidade à verdade histórica, nesse contexto, é a melhor “técnica literária”.

O conflito civil terminou há 25 anos. Porém, o El Salvador ainda não consegue fazer as contas com aquela época. Você mesmo sofreu ameaças depois da publicação de Noviembre. Por que a história de Ellacuría e companheiros ainda é tão incômoda?

O homicídio dos jesuítas ficou impune. Os verdadeiros culpados estão em liberdade. Qualquer tentativa de quebrar o silêncio sobre a questão é considerada uma ameaça. O meu romance – embora não fosse uma denúncia, nem um panfleto político – trouxe aquele delito novamente à tona. Portanto, só por isso, criou maus humores em alguns que, talvez, sequer o leram.

Você começou com a poesia. A ponto de ser reconhecido por mais de 100 críticos e estudiosos como o poeta latino-americano mais relevante desde 1970. Não sente falta dos versos?

Eu não os abandonei. Continuo escrevendo. Embora os romances ocupem quase todo o meu tempo agora.

Quais são os seus mestres de narrativa?

Sendo latino-americano, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa são modelos inevitáveis. Foram os meus “primeiros amores” literários. Depois, chegou Faulkner, que eu continuo lendo e relendo todos os anos. Porém, eu também tenho a incalculável sorte de ter mestres de carne e osso, com os quais posso me sentar para conversar, como Almudena Grandes, Horacio Moya Castellanos e Eduardo Mendoza.

A propósito de García Márquez, La stanza in fondo alla casa revela a profunda influência do realismo mágico. Essa tradição continua fascinando também os escritores latino-americanos atuais?

Quando eu escrevi esse livro, a minha intenção não era a de fazer realismo mágico. Eu simplesmente tentei contar uma história como o meu avô fazia – e as pessoas do meu povoado – quando eu era criança. Ele narrava em primeira pessoa e recheava os fatos de detalhes extraordinários: mulheres que se transformavam à luz da lua, submarinos que surgiam das águas do Pacífico, duendes capazes de fazer com que as moças se apaixonassem. Por mais estranho que possa parecer, é esse tipo de história que expressa, do modo mais autêntico, a nossa identidade como povo e como continente, que descreve o nosso olhar peculiar sobre o mundo.

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